O que vem a ser exatamente “novo desemprego tecnológico”, e quais são os seus principais sintomas? O que o diferencia fundamentalmente do desemprego tecnológico convencional e do “desemprego estrutural”, tradicionalmente associado ao subdesenvolvimento e ao baixo crescimento econômico?

A resposta é que os seus efeitos se fazem sentir de modos muitos diferentes daqueles que estávamos acostumados a presenciar ao longo de épocas passadas. Por “desemprego tecnológico” entendia-se a eliminação de empregos causados pela mecanização da indústria ou das atividades agrícolas.

As novas máquinas tornavam inútil a mão-de-obra sem especialização e de baixa instrução, mas criava uma demanda imediata por empregados com nível técnico mais sofisticado. As profissões de nível universitário, principalmente nas áreas de engenharia e administração eram muito valorizadas.

O “desemprego estrutural” se instalava quando o país era incapaz de responder aos novos desafios pelo incremento da instrução da população, ou pelo fracasso de suas políticas em direção ao desenvolvimento econômico. Mais escolaridade e crescimento eram os remédios infalíveis.

A trajetória do partido no poder, e do próprio presidente Lula ilustram essa tendência. O jovem Luiz Inácio da Silva, imigrante nordestino, teve instrução técnica e empregou-se na industria paulista. Um grande número de membros da liderança do PT (como do PSDB) veio das universidades, muito ampliadas em número e quantidade de vagas, nos últimos anos.

Chamamos a crise de empregos atual de “novo” desemprego tecnológico devido ao fato de ser um fenômeno muito ligado à nova realidade da “terceira revolução industrial”, embora consideremos o termo incompleto, pois a novo paradigma tecnológico está muito longe de ser restrito aos setores industriais.

Essa nova modalidade de desemprego tecnológico é provocada pela reestruturação produtiva, que utiliza intensivamente as novas tecnologias de informática e telecomunicações, e as novas técnicas gerenciais, fatores tendentes a tornar redundante uma enorme gama de profissionais especializados.

Assim, ao contrário do que acontecia antes, o novo desemprego tecnológico não elimina empregos entre os operários braçais e pouco especializados. Os mais atingidos agora são os localizados na faixa “média” das estruturas das empresas industriais e de serviços.

Em conseqüência, os mais prejudicados não são mais os componentes das classes sociais mais baixas e sim a classe média em geral. Em outras palavras, o novo desemprego tecnológico não gera miséria e nem altos níveis de desemprego aberto. Ele provoca uma “polarização” cada vez maior entre “incluídos” e “excluídos” das redes de produção da riqueza mundial.

Os empregos que desaparecem são os mais bem remunerados. Na realidade, até mesmo entre executivos e profissionais ultra-escolarizados (pós-graduados e doutores), quanto mais alto é o salário, maior é o risco de demissão. Isso ocorre porque esses empregados representam os maiores custos para as empresas.

Por outro lado, a nova onda de automação tem, relativamente, pouco impacto sobre os empregos de baixa renda, exceto um aumento inesperado da concorrência provocado por um aumento da oferta de mão-de-obra com qualificações muito acima da necessária para desempenhar essas funções.

O resultado previsível do emprego de novas tecnologias é um considerável aumento da riqueza, proporcionado pelos aumentos de produtividade. O que permitindo uma distribuição de renda típica dos velhos sistemas populistas.

Os ganhos de capital se tornam cada vez maiores. Em compensação, os programas de distribuição de renda para as classes mais baixas também se tornam mais generosos. O que sofre uma decadência considerável é a renda do trabalho.

A pesquisa do Datafolha revela exatamente isso. Em três artigos separados, são comentados os resultados da pesquisa. Segundo o jornal A Folha de São Paulo, “O Datafolha ouviu 2.828 eleitores no país entre 28 e 29 de junho, quando pesquisou a intenção de voto à Presidência. No levantamento, Lula (PT) aparece com 46% e Geraldo Alckmin (PSDB), com 29%.”.

O trabalho foi mais abrangente do que costumam ser pesquisas eleitorais: “A pesquisa também questionou hábitos de consumo, percepção da situação econômica, nível de renda, posse de bens e condições de moradia. Foi considerado ainda o grau de escolaridade do chefe da família”.

Os resultados se enquadram perfeitamente no que se deveria esperar se nossas afirmações são corretas:

1) O aumento geral da riqueza pelo aumento da produtividade:

“Cerca de 6 milhões de eleitores saíram da classe D/E. A maioria migrou para a C. Praticamente a metade dos 125,9 milhões de eleitores (49%) considera hoje que sua situação econômica vai melhorar. Ao mesmo tempo, houve um aumento no consumo, sobretudo de alimentos -37% dos eleitores passaram a consumir mais desde 2003”.

“A melhora no consumo e nas expectativas dos eleitores mais pobres explica em grande medida o favoritismo do petista, que hoje venceria no 1º turno”.(1)

Isso desmente a premissa clássica da esquerda tradicional de que estaria havendo um aumento da miséria em função do uso das novas tecnologias e da globalização da economia. Apesar do crescimento da economia brasileira ter sido medíocre, a pobreza em si, vem diminuindo.

2) A concentração da renda nas aplicações de capital:

“Os 10% mais ricos do país e que, como Lula, têm dinheiro aplicado a juros obtiveram um rendimento médio financeiro real (acima da inflação) de 65,8% entre 2001 e 2004.
Já os 20% mais pobres que vivem da renda do trabalho tiveram um aumento nos ganhos de 19,2% no mesmo período”.

”Ou seja, a renda do trabalho dos 20% mais pobres cresceu menos de 30% do aumento real da renda financeira dos 10% mais ricos do país”.

“Os resultados mostram também que nos últimos dez anos os ganhos obtidos pelos mais ricos com outras formas de renda (juros, lucros, aluguéis) cresceram a um ritmo 4,9 vezes acima do da renda do trabalho”. (2)

Isso por sua vez, desmente os “neoliberais” que relacionam sempre o aumento da produção e da riqueza ao aumento do emprego e as rendas dele derivadas.

3) A decadência da renda do trabalho e dos empregos.

“Para a pesquisadora Renata Bichir, do Cebrap, ‘a questão fundamental’ é o emprego. ‘É isso que faz a diferença e que permite a possibilidade da manutenção e melhora dos níveis de renda’”.

“Especialista em emprego e salários, Márcio Pochmann, da Unicamp e ex-secretário do Trabalho da gestão petista de Marta Suplicy em São Paulo, questiona até o ‘modelo econômico’ das atuais políticas do governo Lula”.

"’Cerca de 90% das vagas de emprego formal abertas nos últimos anos são para rendimentos de só até dois salários mínimos. Já a rotatividade anual da mão-de-obra é de 42%, com as empresas fechando vagas melhores para abrir piores’, diz.
Na sua opinião, o modelo atual não sustenta níveis de crescimento mais ambiciosos e leva a uma dualidade entre ‘pobres e ricos’. ‘No Nordeste, a classe média está desaparecendo’, afirma Pochmann”.(3)

Conclusões:

O novo cenário econômico não gera necessariamente pobreza mas sim um aumento sensível nas desigualdades sociais. O segundo artigo afirma que: “Os juros pagos aos ‘rentistas’ já se aproximam de tudo o que se arrecada em impostos. Em 2005, a carga tributária atingiu 36,5% do PIB (Produto Interno Bruto). A carga financeira apropriada pelos ‘rentistas’, 32%”.

A renda dos ricos vem cada vez mais das aplicações financeiras, enquanto a dos mais pobres, deriva de programas de distribuição direta de renda e não de salários ou benefícios relacionados ao trabalho.

De fato, o primeiro artigo esclarece que: “A pesquisa também questionou os eleitores sobre a participação em programas sociais do governo, como o Bolsa-Família. Os maiores aumentos de consumo (de alimentos, CDs piratas ou perfume, por exemplo) foram detectados entre membros da classe C que participam ou que têm alguém da família incluído nos programas”.

Na verdade esse já é um cenário bem conhecido nos países do primeiro mundo: Mansões e iates para os ricos e bugigangas do Wal-Mart, comprados com o seguro-desemprego e a renda dos “McJobs”, para os pobres.

Bons empregos como na “era dourada” da classe média, vão ficando apenas na lembrança, e nas aposentadorias dos mais velhos...

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Notas:

1) “Lula promove 6 milhões de eleitores para a classe C” - Fernando Canzian – Folha de S. Paulo – 9/7/2006.
2) “Renda financeira do rico sobe 66%; a do trabalhador, 19%” - Folha de S. Paulo – 9/7/2006.
3) “Analistas questionam estratégia para a renda” - Folha de S. Paulo – 9/7/2006.