Pelo ar, a vida se manifesta na existência da discordância, do convencimento do outro, da unidade pela comunicação, e dos frutos da convivência coletiva.
Fazer rádio muda é difícil. È difícil lidar com opiniões radicalmente diferentes. É difícil não ter o recurso do voto- a palavra final, abstratamente representativa de uma falácia maioria. É difícil ter que recorrer ao convencimento e não ao consenso forçado. E ao mesmo tempo é difícil tomar a palavra. Não conceder a ninguém nossa própria capacidade de ação. Não delegar tarefas a alguém carismático o bastante que tome as rédeas de nosso próprio destino. É difícil lidar com o poder na sua manifestação mais instintiva - eu vencerei sobre o mais fraco. É difícil se fazer valorizado em um coletivo tão heterogêneo. É difícil criar das suas próprias idéias, dar vazão e participar de algo lindamente com todos.
E é tão bonito. Fazer valer o esforço de intermináveis horas de discussão. Ser firme em ouvir todas as opiniões. Experimentar a paciência nascida da convivência. Falar menos e ouvir mais. Falar mais e ouvir mais. Tirar uma ação de uma idéia. Criar um ponto em uma rede de comunicação. Conhecer e admirar algo no outro, algo que brota em sua mente, em seu corpo, em todas as vozes que congregram-se nesse projeto libertário. Não votar e escutar. Não recorrer a lei que desconhece o ser mas conhecer o ser que cria leis mutantes. Leis e prática se relacionam no curso do tempo, que muda. As regras mudam porque as pessoas mudam. O mundo muda. A Muda muda.
E é ao longo de todos esses anos que o coletivo dessa rádio mutante vem se mantendo e se mudando. Se no começo éramos um transmissor de baixa potência, experiências eletrônicas entre alguns e definições ainda incertas do que se queria com o rádio, hoje nos inserimos em um contexto amplo de relações além fronteiras com coletivos de mídia, rádios livres e luta social pelo mundo todo. As idéias correm soltas e os registros históricos serão sempre tardios para acompanhar a existências das coisas. Os últimos anos trazem e criam redes de comunicação mundiais. Espontâneas, rápidas, criativas e bastante comunicativas e não apenas transmissoras de mensagens, vem transformando o mundo e as características de relacionamento entre as pessoas, os grupos humanos, os centros e des-centros de poder. As fontes de vida urgem!
Na corrente do rio, fluxo constante de idéias e ações diferenciadas está o coletivo mudo. Mudo e surdo, falante comunicativo, sensível e tapado, interativo, dai-me ar!
Ar para ondas eletromagnéticas, para palavras e notas musicais! Uma nota que percorre milhares de quilômetros e volta respondendo. Rádios livres ao redor do planeta se comunicam em tempo real, retransmitindo-se e debatendo, cumprimentando-se e visitando seus companheiros radiofônicos que, existindo, deslegitimam a representatividade criada quase que abstratamente pelos Estados Nacionais. Na prática, fazemos rádio. E ainda há muito espaço no dial. Chega a ser tragi cômico quando nos acusam de derrubar aviões. A grande mídia é criativa nas suas invenções. As rádios livres são criativas na sua comunicação. A rádio muda é criativa e muda. Criação é mudança.
Se no começo éramos poucos, hoje somos muitos. Mais de uma centena no coletivo. E muitos encontros, oficinas de rádio, criações de estúdios pelo Brasil afora, disseminação técnica. E tudo isso com muita desorganização. E cabos no bolso. A idéia e a prática de um movimento de rádios livres ganharam força nos últimos anos, e se há alguns anos atrás éramos experiências eletrônicas de baixo alcance, hoje somos a dificuldade de um coletivo extenso, a paciência do diálogo que é obrigado a valorizar o outro, a experiência da projeção pelo país afora, a criação de redes de comunicação além fronteiras e a inserção em algo que está sempre a se tornar, a ser o potencial da diversidade - aprendizado e o ensino de se comunicar. Os mais de 15 anos de existência como rádio muda nos ensina a fazer valer os espaços próprios, que valorizados, configuram um espaço coletivo que depende de uma vontade de fazer. Essa vontade temos que buscar na motivação real. É sacudir a poeira e fazer valer suas idéias. Questionadas e refletidas, são reavaliadas. O convencimento criado nos últimos anos nos deixa o recurso da valorização de todas as opiniões. O exagero do poder tem espaço. Mas a estrutura de organização livre que permite o poder, mina o poder no mesmo instante. A liberdade permite o combate a desigualdade de tomada de decisão. Mudamos e mantemos nossa unidade na comunicação. Nas ondas do ar, nas ondas das falas e nas pontas das músicas, a vida borbulha na rádio muda. E assim a morte, porque sem ela, não pode haver o nascimento do novo, a renovação e o respirar de novos ares. Novos ares radiofônicos. O novo que vem do velho, o velho que cria o novo.

