Enquanto enterramos nossos mortos, os donos da Excelaire pressionam o embaixador brasileiro em Washington e exigem que Condoleeza Rice faça as gestões necessárias para que voltem aos EUA os pilotos do Legacy. O que preocupa é que sabemos como Rice e seus rapazes costumam resolver os problemas quando são contrariados...
Sharkey e o New York Times, os mentirosos, por certo estarão, enquanto isso, pensando em vender os direitos de suas fantasias etílicas a Hollywood. Afinal é lá que tudo se tranforma em dinheiro. Até mesmo carne humana.
O filme tratará de dois "heróis" que depois de cometerem um genocídio aéreo seguido de "uma cerveja" em uma base "secreta" junto a selvagens militares, são condenados a não mais que dois ou três anos de cadeia em um país de terceiro mundo, coberto por uma terrível selva tropical, talvez até mesmo habitado por perigosos canibais e onde crocodilos e tigres de bengala passeiam pelas ruas.
Então o embaixador yankee, outro "herói", entra em ação pressionando os investigadores terceiromundistas, cujo chefe se senta em uma escrivaninha que fica dentro de uma sala de vidro e onde todos os policiais tomam café em uma maldita xícara enorme e usam suspensórios. Serão tratados como cruéis e sangüinários latino-americanos.
O embaixador yankee, um cara alto, gordo, de bigode e levemente calvo, como todos os embaixadores de filmes de quinta categoria feitos em Hollywood, não obtem sucesso.
Ele exije (com toda a arrogância característica desses espécimes atrozes), em nome da liberdade e da democracia estadunidense, que desapareça do inquérito as afirmação de Sharkey e do NYT (os mentirosos) e as conclusões que dão conta que o transponder estava desligado, que foi religado imediatamente após o choque que causou o genocídio, que o Legacy (incrível: um avião do terceiro mundo salvou a vida do sinistro jornalista Sharkey), que os pilotos brincavam com o novo avião e viajavam a uma altura não autorizada pelas cruéis autoridades aéreas do país.
Diante do insucesso do embaixador e das pressões diplomáticas comandadas pelo corajoso presidente estadunidense (muito parecido com o Capitão América) ao ditador daquele país que fica no meio da selva, um milico yankee resolve chamar o Rambo e o MacGiver. Estarão comandando a operação em uma sala com centenas de computadores, um imenso telão com o mapa da América do Sul (que apresentará a Amazônia em lugar errado) e acompanhado de alguns gênios com aventais brancos.
Com um grampo de cabelo, um clip, um isqueiro sem gás e um elástico como aqueles que os caras usam para prender seus dólares conquistados com nosso suor e através da exploração de nossas riquezas naturais, MacGiver consegue sabotar todos os controles de fronteira e todos os computadores da Polícia Federal daquele país.
Já Rambo, o demente que derrotou (no seu filme, claro) sozinho o Vietnã depois da surra histórica que os EUA levaram de meia dúzia de vietcongues decididos a não vender suas dignidades, destrói - no novo filme - as Forças Armadas (tanques, aviões, submarinos, aviões de combate) do país que mantém os "heróis" presos, os quais talvez estejam "tomando cerveja" como menciona o sórdido Mr. Sharkey em seu artigo oblíqüo no NYT.
Depois de destruir tudo o que encontra pela frente, o réptil do Rambo e o inventivo MacGiver resgatam os pobres heróis que desligaram o tranponder durante o vôo e os levam, são e salvos, à "terra da liberdade, da democracia e da livre iniciativa". Afinal, eles têm mamãe, filhinhos, cachorrinhos, tataruga, papagaios (traficados e seqüestrados de nossas selvas), esposas e vovós à sua espera no aeroporto John Fitzgerald Kennedy. Os 154 mortos não os tinham...
De quebra, levam presos uns três generais, o juiz que condenou os pilotos pela morte de 154 pessoas e - incrível - o presidente déspota daquele país, assim como seqüestraram Manuel Noriega, presidente do Panamá durante a invasão àquele país. Todos são enviados à Guantánamo para doces e prazerosas sessões de tortura comandadas pela CIA junto a perigosos mendigos famintos capturados nos desertos do Afganistão, seqüestrados dentro de seu país e classificados como "perigosos terroristas".
Para terminar, Rambo (apesar de seu cérebro reconhecidamente microscópico e deficiente) descobre um depósito de armas de destruição em massa, como aquelas que eles NÃO encontraram no Iraque. A Bolsa de Nova Iorque finamente dá um salto. E com a volta dos dois pilotos, o McDonald´s não deixa de vender dois sanduíches a menos por dia.
Para quê se preocupar com aqueles que vivem abaixo em países de terceiro mundo?
