A candidatura "cybervereador" nasceu de um projeto acadêmico, em 1999, na Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ). Após ser premiado com uma pesquisa sobre as conexões entre o crime organizado e a Rede mundial de computadores ( "A Rede do Mal", 1997), resolvi pesquisar sobre democracia digital e as possibilidades de uma mandato mediado por computador. Na época o índice de conectividade era cerca de 30% do que hoje. Levei a proposta ao Partido Verde no inicio de 1999 e encontrei apoio para a idéia.

A idéia parte do conceito de candidatura coletiva "em rede", formulada em um documento que divulguei em maio de 1999. Reuni cerca de 10 pessoas de áreas diferentes e começamos a nos reunir em uma biblioteca pública. Com o interesse da mídia - o caderno de informática do jornal O Globo em 23 de agosto de 1999 publica a matéria "PV lança candidatura de vereador virtual". O Jornal do Brasil anunciava em outubro "Cybervereador enfrentará urnas". Nos meses seguintes uma série de entrevistas em TV e jornais faz da candidatura a de maior espaço na mídia para as eleições do ano 2000. Em janeiro de 2000 a Revista Época publica a matéria "Todos por um na Câmara", em março é a vez do Estado de São Paulo com "Idéia de candidatura coletiva alastra-se pelo país "refletindo a apresentação de candidatura similares em sete cidades brasileiras. Na reportagem do Estadão o cientista político João Trajano Sento-Sé, da UERJ diz que a idéia - embora difícil de ser aplicada - poderá ter o mérito de deslocar a esfera descisória para fora das casas legislativas. Cláudio Lembo, atual Governador de São Paulo saiu ao ataque: "o voto tem que ser idividual" afirmou na mesma matéria do Estadão. Em uma entrevista a Márcia Peltier, em rede nacional para o Jornal da Band, ficou claro que a candidatura seria a mais criatoiva e importante para o PV a nível nacional, mesmo sem o apoio do único Deputado Federal, Fernando Gabeira, na época comprometido com outras candidaturas do partido.

Embora fosse claro que a candidatura do cybervereador tinha um imenso potencial, a direção do PV no Rio decidiu apostar suas fichas em outra candidatura, dedicando a maior parte do tempo da TV a quem tinha mais recursos financeiros. Nossa captação de recursos e estrutura de campanha - que não era profissional e formada por voluntários - começou a rachar ainda em junho, pressionados pelo massacre do poder econômico na propaganda eleitoral daquele ano. Realizadas as eleições o erro da direção do PV ficou claro: a concentração de forças e tempo de TV em um candidato sem expressão política desmobilizou todas as outras candidaturas e acabou gerando desistências e brigas internas. Eu mesmo fui quase processado pelo grupo dominante do partido, por enviar um e-mail de alerta e indignação sobre a estratégia que nos levou a todos a derrota. Nesse ano, o PV não elegeu nenhum vereador.

A nível nacional as candidaturas inspiradas ou usando o nome cybervereador tiveram juntas cerca de sete mil votos nas cidades de Guarulhos, Rio, São Paulo e Florianópolis. No Rio tivemos menos de mil votos e ficamos muito decepcionados com os abusos do poder econômicoq ue inviabilizaram o projeto. Comoa lei eleitoral fechou a mídia três meses antes, só tiveram chances os candidatos milionários que cobriram a cidade de out-doors. Alguns gastaram mais de 2 milhões de dólares e mesmo assim não conseguiram vencer. Nós tivemos um orçamento de apenas mil dólares e poucas doações de material. Concentrei meus esforços em e-mails e no IRC, mas na época não tinhamos os hoje poderosos sites de relacionamento e nem comunicadores em tempo real. Não existia banda larga na maioria das casas e empresas e o acesso discado nos impedia de criar peças como vídeos e outras forma de publicidade.

Embora eleitoralmente um fracasso, a candidatura cyberveredor foi um êxito político, elogiada por parlamentares, jornalistas, professores e pesquisadores em democracia digital.

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