Com bases estabelecidas em pontos estratégicos, policiais controlaram por vários dias o fluxo de pessoas nas comunidades, estabelecendo toques que recolher e impedindo o trabalho de muitas. A mando ou por obra de oficiais, o abastecimento de água e energia foi cortado em várias regiões, assim como o serviço de telefonia. Tudo sem qualquer justificativa. O Caveirão foi utilizado em diversos ataques e circula pelas ruas o tempo todo em franca ameaça à população.

Segundo relatos de moradores, policiais atiram indiscriminadamente contra grupos inteiros de pessoas sob a alegação de identificar entre elas suspeitos de pertencimento ao tráfico de drogas. A população afirma ser muito maior o número de mortos, mas que o medo de parentes e amigos de vítimas impede o registro de muitas informações. Várias pessoas afirmam ter visto oficiais recolherem cadáveres das ruas sem nenhum procedimento pericial.

A polícia registrou as mortes dois traficantes e quatro moradores, todos atingidos em supostas trocas de tiros entre policiais e criminosos. O estado de exceção promovido no local não foi registrado nem divulgado pela imprensa comercial. Moradoras/es do Complexo afirmam que os meios de comunicação não iam àquelas comunidades desde o assassinato do jornalista Tim Lopes por traficantes da região.

REAÇÃO

Depois de alguns pequenos protestos no interior das comunidades, a população do Complexo do Alemão se organizou para denunciar os fatos ocorridos nos últimos dias ao restante da população do Rio e do país. Em uma reunião realizada na sexta-feira (20) com integrantes de várias entidades de direitos humanos, os primeiros relatos foram registrados para a composição de um dossiê sobre o caso.

Uma coletiva de imprensa foi convocada pela população para esta terça-feira (24) numa tentativa de tornar conhecido o que está sendo vivido na região. Mais de trezentas pessoas compareceram à reunião para ouvir, dar depoimentos e assinar documentos contra o tratamento cruel que recebem do Estado, que varia apenas entre a omissão e o massacre.

O clima de medo ainda era grande, mas o de indignação era maior. Várias faixas estendidas por moradores, que dizem serem tratados sempre como criminosos, reivindicavam reconhecimento de seu direito à vida e a cidadania. Os relatos revelam o terror imposto à população, ameaçada não apenas nas ruas, mas também dentro de suas casas e locais de trabalho.

Na segunda-feira (23) alguns destacamentos foram retirados das comunidades, mas muitos carros da polícia ainda podem ser vistos circulando pelas ruas. Apesar de o comando do BOPE declarar o fim da ocupação, moradores afirmam que ainda há bases no local. Nenhuma grande apreensão de drogas ou armas foi feita durante a ocupação.



Chamado para coletiva:
 http://www.midiaindependente.org/pt/blue/2006/10/362907.shtml

Em breve:
Áudios da coletiva