Sobre a matéria "Estudantes arrombam ônibus contra tarifa", caderno Cotidiano, 25/11,

1. As portas dos ônibus não foram "arrombadas". As portas traseiras de alguns ônibus foram "abertas", para que os usuários e as usuárias pudessem entrar sem pagar a tarifa, e depois fecharam sozinhas, uma vez que seu mecanismo é automático. O transporte coletivo não pode ser uma mercadoria apenas para quem pode pagar por ele, mas um serviço público de verdade. A abertura de portas foi um ato de desobediência civil, não de vandalismo.

2. Não é possível o tal do Guaxinim ser uma das lideranças do movimento, porque este é um movimento horizontal, sem hierarquia. O ato foi organizado pela Frente de Luta Contra o Aumento, que reúne grupos estudantis paulistanos e movimentos sociais diversos em torno de um objetivo comum: barrar o aumento. A afirmação de que 9 lideranças de um tal Instituto do Motim Libertário teriam se deslocado de Florianópolis para comandar o ato é tão ridícula quanto dizer que o rapaz estudava arte contemporânea na UFSC (onde não existe graduação em arte). O Movimento Passe Livre (MPL), que integra a frente paulistana e que foi o grande catalisador dos protestos em Florianópolis não foi sequer citado na matéria.

3. O Terminal Parque Dom Pedro é um espaço público, disponível para uso da população. Quem "invadiu" o terminal foi a Polícia Militar, com bombas, tiros de bala de borracha e abuso de poder. Uma senhora que esperava seu ônibus em fila passou mal com o gás lacrimogênio. Uma estudante foi espancada, outros dois estudantes tentaram socorrê-la e foram igualmente espancados. Diversas pessoas foram feridas e apresentaram queixas. O uso excessivo de violência policial só mostra que os governos são contra a população. Recomendo fortemente a matéria sobre o ato publicada no Centro de Mídia Independente (www.midiaindependente.org), que contém fotos e vídeos que deixam bem claro que se tratava de um protesto pacífico. Há fotos de feridos em  http://www.midiaindependente.org/pt/blue/2006/11/366508.shtml

4. A ênfase dada à vestimenta de alguns manifestantes e a afirmação de que havia estudantes com um lenço no rosto para "parecer o subcomandante Marcos" é de uma superficialidade inacreditável. Os zapatistas usam lenços em seus rostos como forma de dizer "não sou eu, somos nós". Que sua luta é também a luta de outros povos, de outros movimentos. No caso do transporte coletivo, estão acontecendo lutas contra o aumento das tarifas de ônibus - e contra a existência de tarifas de ônibus - em diversos países. E esses protestos vão continuar crescendo enquanto a atual lógica do sistema de Transporte não for alterada. O Transporte não pode ser lucro de uns poucos empresários, mas um direito de toda a população.

5. O tom da matéria é irônico, como se os estudantes e as estudantes fossem ingênuos ao exigir transporte gratuito para o conjunto da população. Ocorre que toda pessoa tem garantido seu direito de ir e vir, que é a liberdade de ir, vir, ficar, parar e deslocar-se de um ponto a outro. É o que dizem tanto a Constituição Federal (art. 5.0 XV) quanto uma série de tratados internacionais (Declaração Universal dos Direitos Humanos da ONU, art. 13; Pacto de São José de Costa Rica, art. 22). É violação dos nossos direitos existir uma tarifa de R$ 2,00 para ir e outra para vir. Uma tarifa de R$ 2,30 ou um aumento de 15%, acima da inflação, é mais que violação, é uma tremenda cara de pau. Como dizia o cartaz de uma manifestante: "quem faz a lei não pega ônibus".

Graziela Kunsch
artista

 http://www.midiaindependente.org/pt/blue/2006/11/366505.shtml
Frente de Luta Contra o Aumento realiza ato em São Paulo

---> agradeço a atenção e peço para publicarem esta e outras eventuais respostas à matéria referenciada. Precisamos começar a debater o transporte público, que é sempre um tema secundário.