SÃO PAULO ? Na quinta-feira (30), mesmo dia em que a prefeitura e o governo de São Paulo anunciaram o reajuste na tarifa do transporte público paulistano, mais de 2 mil pessoas foram às ruas do centro da cidade para protestar. O ato começou às 17h, pacificamente, apesar da numerosa presença da Polícia Militar. Ao todo, foram 35 homens, duas viaturas, uma base comunitária móvel, 10 motos e um helicóptero mobilizados para controlar o protesto.

Os terminais de ônibus da região foram vigiados de perto por policiais da Cavalaria, prontos para confrontar os manifestantes que para lá se dirigissem. Felizmente, o protesto passou longe destas áreas, detendo-se por alguns minutos em frente ao prédio da Prefeitura e da Câmara Municipal, depois de uma caminhada pelo centro da cidade.

O protesto também foi acompanhado de perto pelos grandes meios de comunicação, como a Folha de São Paulo, Estado de S. Paulo, a TV Globo e o SBT. Entretanto, pouca importância foi dada aos estudantes. A reportagem da Folha Online publicada na sexta-feira informa que havia "cerca de 200 pessoas em frente a Câmara de São Paulo", enquanto o número era dez vezes maior, de acordo com dados da organização do ato. O jornal Estadão segue a mesma linha, ao divulgar a presença de apenas 300 pessoas na manifestação.

A população mostrou-se simpática ao protesto em diversos momentos. As pessoas acenavam das janelas e jogavam papel picado sobre os manifestantes. Um transeunte ouvido pela Carta Maior, de nome Antônio Carlos Silva, disse estar desempregado e ter três filhos. "Já é difícil criá-los, e agora vou gastar mais ainda pra eles irem à escola", lamenta Silva, que se refere a um suposto aumento contínuo da passagem. "Ouvi os manifestantes dizerem que a tarifa cresceu 400% em 12 anos. Não sei se é verdade, mas se for, é um absurdo".

Na avaliação da Frente de Luta Contra o Aumento, que convocou o protesto, foi um dia vitorioso. "Acho que o ato foi positivo. Conseguimos divulgar bem e panfletar bem", afirma o estudante de História da USP Lucas Monteiro, que atuou na organização do protesto. Ele, que faz parte do Movimento Passe Livre (MPL) e integra a Frente de Luta, espera que a população da cidade tome consciência de que o aumento é abusivo e tem que ser barrado.

Monteiro encara o transporte público como um direito. "Sendo assim, não há sentido ele ter que ser pago mediante tarifa. Porque assim você onera o usuário, que geralmente é a parcela mais pobre da população", diz ele. "A sociedade como um todo é que tem que pagar pelo transporte público, principalmente a parcela mais rica da população".

Também no protesto, o vereador do PSOL Carlos Giannazi marchou ao lado dos estudantes. "Nós tentamos barrar o aumento de todas as formas na Câmara dos Vereadores, porque ele é abusivo e está acima da inflação", afirma o vereador. Ele reclama do desrespeito da Prefeitura com relação à Lei Orgânica do município, que garante que as planilhas de custo-base do transporte público têm que ser enviadas a todos os vereadores. "Nunca recebi a planilha e outros vereadores também. Há uma irregularidade judicial que precisa de investigação", afirma Giannazi.

Os estudantes criticaram os "interesses eleitoreiros" do prefeito Gilberto Kassab, que quer evitar reajustes no transporte público em 2008 e assim garantir sua reeleição. Outro criticado é o governador eleito José Serra (PSDB-SP), que será politicamente beneficiado com o reajuste, porque não terá que adotar tal medida impopular durante os primeiros anos de sua gestão.

"Amanhã vai ser maior", gritavam vários estudantes, referindo-se a outro protesto contra o aumento das passagens, programado para acontecer nos arredores da prefeitura de São Paulo, no fim da tarde de sexta-feira (01).

Três pedidos de ação judicial foram encaminhados ao Ministério Público para barrar o aumento da passagem. Todos foram negados. As entidades que moveram as ações jurídicas são a UNE (União Nacional dos Estudantes), a Ubes (União Brasileira dos Estudantes Secundaristas) e a CUT (Central Ùnica dos Trabalhadores). A UNE e a CUT prometem recorrer.

Opinião pública
A opinião pública rejeita de forma quase unânime o aumento das tarifas do transporte. Em um bate-papo organizado pela Folha, o repórter Alencar Izidoro, que escreve reportagens sobre a cidade de São Paulo, critica tanto o governo quanto a prefeitura por terem tomado "decisões visivelmente desencontradas" sobre o aumento. Ele chama de "muito discutíveis" os benefícios indiretos que podem ser gerados com o reajuste, como a garantia de renovação de frota. "A princípio, eles [os usuários] só perdem".

O novo valor das passagens anunciado pelo prefeito Gilberto Kassab e pelo governador Cláudio Lembo, ambos pefelistas, é de R$ 2,30 ? um valor 15% maior do que o atual, no caso dos ônibus, que custam R$ 2,00. No caso do metrô e do trem, que custam R$ 2,10, esse novo valor é 9,5% maior do que o atual.

Para a coordenadora do Dieese, Cornélia Nogueira Porto, o reajuste do transporte público é abusivo e ?sem necessidade?. Ela explica que em dez anos - de janeiro de 1997 até o dia de ontem - o transporte público foi reajustado em 187,5%. Já os bens e serviços livres, que não estão sob cobrança direta do poder público, subiram apenas 78%.

Cornélia explica que a população pobre será a mais afetada. "Os que têm uma faixa de renda de até R$ 400 sentirão o impacto do aumento. O transporte público responde por 7,6% dos gastos das famílias nessa faixa", explica a especialista, que no Dieese é responsável pelo cálculo do Índice do Custo de Vida (ICV).