A notícia é uma mercadoria e, como tal, para que seja bem vendida no mercado respectivo, tem que ter boa aceitação. Boa aceitação seria, pois, o seu ajuste às necessidades e interesses dos potenciais consumidores.
Quem são os consumidores das notícias? Geralmente pessoas que tem um certo grau de conhecimento. Entretanto, a aquisição de um certo grau de conhecimento pressupõe uma situação econômico financeira relativamente elevada. Nas famílias de baixa renda, as famílias assistem a novelas, filmes, programas humorísticos, etc. Nos horários de telejornais, entretanto, ou os televisores são desligados ou muda-se para um canal que esteja passando uma novela. Nos horários de telejornais, os índices de audiências das emissoras baixam absurdamente, porque as notícias veiculadas não dizem respeito ás classes baixas. Talvez as emissoras aleguem que não veiculam notícias que interessam aos pobres porque eles desligam os seus aparelhos de televisão nos horários de telejornais, o que tornaria o caso um círculo vicioso.
Assim, as notícias refletem as necessidades, interesses e as conveniências das classes economicamente privilegiadas. Os fatos que a mídia corporativa noticia são os fatos que interessam às classes médias e altas. Por exemplo, desde o disastre aéreo a globo vem veiculando a crise da aviação civil. De lá pra cá já aconteceram muitos acidentes automobilísticos mas raramente um deles é veiculado, já que as pessoas envolvidas nesses acidentes são mais desafortunadas. O assassinato do Coronel Ubiratan teve mais repercussão na mídia corporativa do que o assassinato dos 111 presos do Carandiru.
Desde que começou a crise na aviação civil, as mídias corporativas vem dando ampla cobertura ao caso, noticiando indignadamente, a todo momento, a indignação dos passageiros. Quanto aos usuários de transportes coletivos de São Paulo, que lutam contra o aumento abusivo das tarifas a mídia corporativa quando não ignora o movimento, dá cobertura só dos pontos negativos, colhendo apenas imagens de vândalos infiltradas no movimento, com a finalidade de desacreditar os ditos movimentos, pois essas são as notícias que os empresários dos transportes querem ouvir. Assim, a mídia corporativa acaba apoiando e defendendo os privilégios de meia dúzia de empresários em detrimento dos direitos de milhões de pessoas que precisam usar transportes coletivos, diga-se de passagem, de má-qualidade, todos os dias.
Liberdade de imprensa é, pois, para mídia corporativa, a liberdade de selecionar os fatos que lhes convêm noticiar, o ângulo do qual o fato vai ser noticiado, os fatos que serão ignorados, etc.
