Maior desmatamento do Nordeste acontece no Piauí

Os ambientalistas do Piauí estão assustados com o projeto Energia Verde que, asseguram tratar-se do maior desmatamento em andamento no Nordeste. O projeto está localizado entre os municípios de Curimatá, Redenção do Gurguéia e Morro Cabeça no Tempo. No primeiro momento estão transformando em carvão vegetal 77.947 hectares de Caatinga Arbórea, um dos biomas mais ricos e vulneráveis do país. O total do projeto é de 114.755.

A área é na Serra Vermelha, no condomínio Chapadão do Gurguéia. Segundo o ambientalista Francisco Soares, a região aparece entre os 900 locais considerados prioritários para biodiversidade brasileira, de acordo com relatório recente do Ministério do Meio Ambiente.

A empresa responsável pelo projeto é a JB Carbon S/A, de propriedade do carioca João Batista Fernandes, que teve licenciamento ambiental da Secretaria do Meio Ambiente e Ibama.

Existem fortes indícios de que as terras foram griladas. Encontra-se em andamento no Interpi três ações discriminatórias contestando a origem da terra, entretanto, o Interpi interpretou que o Ministério Público Estadual deferiu em favor da JB e o projeto foi liberado.


Bichos morrem a toda hora

A área do projeto está localizada a uma altitude de 700 metros acima do nível do mar. Inicialmente foi autorizado pelo o Ibama o desmate de seis mil hectares. No local onde hoje está ocorrendo à retirada das árvores da Caatinga se testemunha também sucessivas mortes de animais silvestres.

A atividade carvoeira é desenvolvida com a mão de obra de mais de mil homens que usam motoserras para descortinar o manto verde. A madeira é queimada em mais de 300 fornos que funcionam dia e noite.

O trabalho começou em agosto passado e já deixou seqüelas em muitos homens. "Ninguém agüenta esse serviço por muito tempo. Não se consegue arrancar uma tarefa por dia, como quer a empresa", se queixa Edson Pereira, um baiano de 21 anos que chegou ali há menos de um mês atraído pela possibilidade de ganhar cerca de 600 reais ao mês. Desiludido, já sabe que no máximo vai conseguir ganhar 400, por isso, pretende abandonar o trabalho o quanto antes.

As dificuldades impostas pela vegetação, um tanto sinuosa, aliada a alimentação precária, impedem um bom rendimento desses homens que são obrigados a limitar sua produção diária. Os empecilhos têm provocado uma rotatividade de trabalhadores impressionante. "Estou há 15 dias aqui mais já quero ir embora. Se é de ganhar pouco sofrendo desse jeito, prefiro voltar nem que seja para passar fome", disse Adelino Oliveira, 30, outro baiano que acorda às 5h da manhã e passa o dia manuseando uma moto-serra. "No final do dia essa coisa, (referindo-se ao instrumento de trabalho), está pesando mais de 30 quilos", afirmou e disse ainda que a alimentação é precária. "Tem dia que ninguém consegue comer. No lanche, as vezes mandam somente cuscuz ou biscoito".

O outro colega seu, também da Bahia, Estado onde os chamados "gatos" estão recrutando trabalhadores, Raulino Santos, enquanto trabalhava quase mutila o "jacarezinho do mato ou pitoco", um raro réptil que só existe nessa região. Já morto, o carvoeiro exibe o bicho e revela que diariamente na atividade mata dezenas de animais.

Descoberta cientifica na Serra Vermelha

Numa rápida visita ao local do projeto localizamos uma tartaruga de aspecto diferente. Obedecendo aos critérios de preservação, o animal foi enviado ao professor de Zoologia da USP, Hussan Zaer, que afirmou ser o bicho completamente desconhecido da ciência. Zaer, que é doutor em répteis, está de malas prontas para desembarcar na Serra Vermelha a fim de estudar o bicho e descobrir outros que, segundo ele, certamente existem. "Uma região como aquela, ainda totalmente desconhecida da ciência, certamente vamos realizar grandes pesquisas", aposta.

O Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Curimatá também está preocupado com as conseqüências do projeto. "Temos certeza que serão muitos os estragos que esse desmatamento vai deixar na natureza", disse o Secretário de Políticas Agrícola do Sindicato, Elias Ribeiro da Silva.

Segundo ele, os brejos e as lagoas dos baixões, que são alimentadas com a água que vem da Serra Vermelha, já começam a secar. "Já apelamos para tudo quanto foi órgão responsável para nós dar uma explicação sobre esse projeto e nada", conta Elias que foi localizado pela reportagem no Instituto de Terras do Piauí-Interpi, buscando informações sobre a origem da Serra Vermelha, que diz ter certeza, pertencer ao Estado e União.

Ali Elias ficou sabendo que os 114.755 mil hectares foram registrados em nome de 37 proprietários que formaram o Chapadão do Gurguéia. De acordo com o procurador do Interpi, Marlon Reis Filho, em 2005 foram abertas três ações discriminatórias para investigar a origem da terra que, segundo ele, tem fortes indícios de serem griladas.

Outro segmento da sociedade que também demonstra preocupação com o Energia Verde, são os engenheiros agrônomos. De acordo com o presidente do Sindicato dos Engenheiros Agrônomos do Piaui, Avelar Amorim, a maior preocupação é quanto à localização do projeto que se encontra em área de recarga, ou seja, recebe água da chuva e alimenta os recursos hídricos.

Segundo o presidente da Associação da categoria, Avelar Amorim, foi muito precipitado a liberação das licenças de instalação e desmatamento pela Secretaria do Meio Ambiente e Ibama. "Além de a área ser de recarga, está na Caatinga, um bioma fragilizado e ameaçado e onde a maioria da flora e da fauna ainda é desconhecida", disse o agrônomo, completando que a maioria das árvores da Caatinga leva décadas para se desenvolverem.


Entidades lançam campanha

Devido ao maior crime ambiental da história do Piaui, que vem acontecendo na Serra Vermelha, os ecologistas do Estado, através da Fundação Rio Parnaíba, em parceria com a Fundação Museu do Homem Americano, Fundação Cultural Raízes do Piauí, Fundação Nogueira Tapety, Sindicato dos Jornalistas do Piauí, Fundação Velho Monge, ONG Nova Consciência, Federação dos Trabalhadores na Agricultura, Fórum do Semi-Árido e Rede Ambiental do Piaui, criaram a campanha "SOS Serra Vermelha".

O Ministério do Meio Ambiente e o Governo do Piauí autorizaram o maior desmatamento do Nordeste, nas chapadas da Serra Vermelha, uma área de alta biodiversidade, onde fica a última floresta nativa do semi-árido brasileiro, com elementos da Caatinga, Cerrado e Mata Atlântica. São 78 mil hectares de florestas que estão virando carvão, com a finalidade de alimentar as siderúrgicas nacionais.

Além de provocar a destruição das florestas naturais e de espécies animais e vegetais, a produção do carvão lança muitos poluentes na atmosfera. O processo de fabricação ainda é primitivo e apenas 30% a 40% da madeira queimada vira carvão. Assim como as cinzas, quase todo o resto é poluição, principalmente gás carbônico, um dos vilões do aquecimento global.

A campanha quer, além de sensibilizar a população brasileira sobre o caso Serra Vermelha, orientar as pessoas a enviarem e-mails ou ligar para a linha verde do Ibama:  linhaverde.sede@ibama.gov.br pedindo a criação de uma unidade de conservação e a paralisação do projeto Energia Verde. Também estão sendo recolhidas assinaturas para um abaixo assinado que será protocolado na sede do Ibama, em Brasília.

Um site:  http://serravermelha.blog.terra.com.br/ foi criado especialmente para apoiar a campanha, e relatos com dados e fotos sobre a destruição dessa importante região nordestina. O material está sendo enviado para os principais veículos de comunicação do Brasil e do exterior, que já estão publicando uma série de matérias sobre o projeto.

O objetivo é mobilizar centenas de pessoas e coletar assinaturas em defesa da Serra Vermelha. Maiores informações: 86 - 3213.2939.


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O futuro da região depende da sua participação

DADOS SOBRE A SERRA VERMELHA

O que é a Serra Vermelha? - É uma grande chapada, no Sul do Piauí, totalmente preservada pela última floresta do semi-árido brasileiro, com elementos da Caatinga, Cerrado e da Mata Atlântica. Segundo os pesquisadores da USP, o lugar abriga uma das maiores biodiversidades do interior nordestino.

Onde fica? - No Sul do Piauí, na zona rural dos municípios de Morro Cabeça no Tempo, Curimatá e Redenção do Gurguéia.

O que é o projeto Energia Verde? - É um dos maiores projetos de Manejo Florestal, em volume de biomassa, do mundo. A meta é produzir 4 bilhões de toneladas de carvão vegetal em 13 anos. Para isso, 78 mil hectares de matas nativas serão cortadas. www.jbcarbon.com

Quem aprova? - O Ministério do Meio Ambiente, através do Ibama, e o Governo do Estado do Piauí, que aprovou o projeto na Secretaria Estadual do Meio Ambiente e ainda concedeu isenção fiscal para o grupo carioca que explora o local.

Qual a importância da Serra Vermelha? - Apontada pelo Ministério do Meio Ambiente como uma das 900 áreas prioritárias para conservação da biodiversidade brasileira, o lugar tem fauna e flora ainda desconhecidas pela ciência.

Sua cobertura vegetal exerce importante papel na recarga dos aqüíferos e do lençol freático do Vale do Gurguéia. Várias nascentes estão na chapada da Serra Vermelha, entre elas a do rio Rangel. Decisão unânime do Conselho Nacional do Meio Ambiente diz que a região deveria formar o Parque Nacional da Serra Vermelha.