LOS ANGELES, 5 set (AFP) - Várias jovens voluptuosas tiram a roupa sob o olhar atento de um homem musculoso e bronzeado. Por trás desta cena existe uma indústria que movimenta anualmente mais de 60 bilhões de dólares em todo o mundo, alimentada pela demanda crescente dos consumidores de sexo em domicílio.

Com "atendimento personalizado", a indústria pornográfica vende sexo a milhões de pessoas pela TV e pela Internet, ferramentas que transformaram um dos negócios mais antigos e desprezados do mundo em um dos mais sólidos e rentáveis da atualidade.

Em quartos de hotéis luxuosos, em casa ou no escritório. Em qualquer canto do planeta, seja pela Internet ou pela TV a cabo ou via satélite, o "cinema para adultos" está ao alcance de todos os interessados.

Trinta milhões de pessoas se conectam diariamente na rede mundial de computadores procurando imagens de sexo explícito em alguma das 260 milhões de páginas que oferecem pornografia, segundo um estudo da empresa de pesquisas sobre a Internet N2H2.

Em todo o mundo, 250 milhões de pessoas são consumidoras dos produtos e serviços desta indústria, que registra lucros da ordem de 60 bilhões de dólares ao ano, segundo a revista Forbes.

Só nos Estados Unidos, os lucros estão avaliados entre 9 e 13 bilhões de dólares ao ano, segundo números extra-oficiais. Destes, cerca de 6 bilhões correspondem à venda de DVDs e fitas de vídeo.

Neste país, considerado a meca do pornô, os lucros com as vendas de sexo - que inclui cinema para adultos, serviço de acompanhantes, revistas, clubes noturnos e sex shops, entre outros - duplicam os dos principais canais de televisão do país.

No Brasil - o principal produtor de cinema para maiores da América Latina -, o setor tem um faturamento de 30 milhões de dólares ao ano, segundo a Associação Brasileira de Empresas do Mercado Erótico.

E este mercado está em franca expansão: depois da desvalorização do real, americanos e europeus vêm ao Brasil para rodar filmes mais baratos, atraídos por praias paradisíacas e mulheres belíssimas.

A demanda para este tipo de filmes cresceu tanto que famosas e luxuosas redes de hotéis mundiais, assim como canais de TV por assinatura e sites de entretenimento na Internet caíram na tentação de oferecer sexo explícito em sua programação.

"Somos um negócio de primeira ordem e ponto final", disse, categórico, Steven Hirsch, presidente dos estúdios Vivid, principal distribuidor de filmes de sexo explícito para grandes redes de entretenimento, como AOL Time Warner, AT&T e Direct TV.

- Sexo vende muito e as grandes empresas querem sua fatia do bolo

Os americanos gastam mais de dez bilhões de dólares por ano com pornografia, o mesmo que em ingressos para o cinema, segundo a revista especializada Adult Video News (AVN), a publicação mais respeitada do setor.

Nos Estados Unidos, os aluguéis de fitas de vídeo e DVDs com cenas de sexo explícito aumentaram de 450 milhões em 1992 para 800 milhões em 2002, quase o dobro numa única década.

"Em 2001, os americanos gastaram 465 milhões (de dólares) em filmes pornô 'pay per view' em suas casas e a maior parte deste dinheiro foi para gigantes do entretenimento, como AOL Time Warner e AT&T", disse Eric Schlosser no livro "Reefer Madness: Sex, Drugs and Cheap Labor in the American Black Market".

A demanda por pornografia é tão alta que até grandes corporações como AT&T, General Motors e as redes de hotéis Marriot foram em busca de sua parte no bolo e se tornaram sua principal distribuidora.

Nos Estados Unidos, o epicentro da indústria fica em Chatsworth, em San Fernando Valley (Los Angeles, noroeste), onde estão mais de 200 estúdios.

No vizinho México, a indústria pornográfica começa a emergir e os empresários do setor estão em busca de um mercado de cem milhões de pessoas, que até agora consome este tipo de produtos em versões pirata.

Os produtores querem investir milhões no setor, mas antes querem saber das possibilidades de filmar no país, onde a lei proíbe a produção de filmes pornográficos com atores locais. É que produzir filmes na América Latina tem suas vantagens, sobretudo econômicas.

No Brasil, por exemplo, se pode "fazer um filme de 90.000 dólares por trinta ou quarenta mil, o que torna possível fazer filmes espetaculares com um orçamento mais aceitável para a economia atual", explicou o diretor de cinema John T. Bone à revista AVN.

O Rio de Janeiro sedia a VSDA (Video Software Dealer's Association), que convoca milhares de participantes do mundo inteiro.

Já em Las Vegas, a "cidade do pecado", se realiza a Convenção Anual do Pornô, organizada pela AVN News, que reúne num único lugar a maioria dos estúdios que produzem e distribuem filmes de sexo, ao lado de proprietários de sex shops, empresários de televisão e, certamente, simpatizantes e curiosos.

Mais de 30 mil pessoas visitaram a Convenção no ano passado, da qual participaram 250 estúdios de todo o país, informou a revista AVN.

Mas a Convenção é conhecida especialmente porque durante a sua realização se celebra a entrega dos AVN Awards, uma espécie de Oscars da indústria pornô, que também têm sua versão européia: os "Hot D'Or Awards", celebrados anualmente em Cannes, França.

A próxima feira será celebrada entre 6 e 9 de janeiro.

- As estrelas pornô

Uma das maiores conquistas da indústria do sexo é que seus estrelas atraem a mesma atenção, interesse e dinheiro que as atrizes mais famosas de Hollywood.

É o caso de Jenna Jameson, estrela que - segundo a revista Rolling Stone - conseguiu transcender a indústria pornográfica e a quem a New York Magazine considera um ícone cultural.

"Minha ânsia de exibicionismo me transformou em estrela", disse Jameson, enquanto promovia o livro "How to Make Love Like a Porn Star: A Cautionary Tale" (Como fazer amor com uma estrela pornô), que já está na lista dos livros mais vendidos nos Estados Unidos.

Sob o crivo da "top do pornô" passam personagens como os atores Bruce Willis e Nicolas Cage, a modelo Cindy Crawford e o cantor Marylin Manson, entre outros.

O livro de Jameson, no qual ela revela os abusos e os sofrimentos pelos quais passou antes de se tornar a número um do mundo, é apenas um exemplo do estrondoso sucesso das autobiografias e guias de auto-ajuda escritas por estrelas pornô.

No Brasil, a veterana Rita Cadillac, dona do bumbum mais aplaudido do país, chegou à fama depois de ser chacrete e acabou caindo na tentação do mercado pornográfico para garantir uma boa aposentadoria.

"O sexo é o que vende nestes dias", explicou Judith Curr, de Atria Books e Washington Square Press, citada pelo jornal The New York Times.

Cada vez é mais comum ver as famosas atrizes do cinema para adultos dos estúdios Wicked, Vivid e VCA em livrarias, lojas de discos e boates da moda, acompanhadas de celebridades de Hollywood.

"Todos gostamos de ser admirados", explicou à AFP a atriz Kody Coxxy, de Sacramento.

Assim como a maioria, Coxxy começou na indústria atraída pela fama e pelo dinheiro.

Uma atriz de cinema pornô cobra entre 300 e 5.000 dólares por cada cena, com duração média de duas horas. O homem que a acompanha geralmente recebe a metade.

Já os atores que atuam em filmes da indústria pornográfica gay ganham entre 250 e 2.500 dólares.

A gama de salários "é ampla e depende da fama de um ator e das posições sexuais que estiver disposto a fazer", explicou Kernes, editor-chefe da AVN.

"Claro que se paga bem, 100 vezes mais do que ganha uma secretária, mas o preço é muito alto: é um trabalho fisicamente desgastante e que te marginaliza para sempre", continuou.

- O sexo está em todo lugar

A indústria pornográfica já superou barreiras culturais, sociais e religiosas e sua ousadia aparece na moda, na música ou na televisão.

"Olhe para Britney Spears dançando. Evidentemente ela pegou emprestadas muitas idéias da indústria pornográfica", disse Kernes.

A alusão à pornografia aparece em campanhas publicitárias de calças jeans, em clipes da MTV, em séries de TV tão populares como "Friends" (que dedicou todo um episódio ao setor), ou na música, como a capa do CD do popular grupo de rock Blink 182, na qual aparece a estrela de filmes para adultos Janine.

"Hoje, a pornografia está por toda parte. A encontro nos spams do meu computador, nas revistas, na vitrine da loja onde compro vinho. As estrelas pornô aparecem em programas de televisão, em pôsteres e dão entrevistas sobre quão libertador é a indústria pornô para as mulheres", analisou a ex-atriz pornô Traci Lords, em sua autobiografia "Underneath it all", que está nas listas dos livros mais lidos dos Estados Unidos.

As atrizes de cinema para adultos e os produtores dos estúdios dão palestras nas melhores universidades americanas, onde estudantes e professores debatem o fascínio despertado pela indústria. Muito além de informações sobre o negócio, estudantes e professores, bem como curiosos, querem saber de tudo.

Ao escrever a palavra "sex" (sexo em inglês) no site de buscas Google, o visitante terá 195 milhões de opções. A palavra "porn" (pornô) leva a 128 milhões de possibilidades.

O sexo levou ao desenvolvimento de novas tecnologias, como expôs Fred Lane em "Obscene Profits: The Entrepreneurs Of Pornography In the Cyber Age" (algo como Os benefícios da obscenidade: os empresários da pornografia na era da cibernética".

As razões para este apogeu do mercado do sexo são difíceis de explicar tanto para especialistas quanto para protagonistas da indústria. Alguns citam uma mudança no comportamento sexual das pessoas. Outros acreditam que a invasão do sexo na TV e na Internet ativou o interesse pela pornografia, antes relegada a salas de cinema.

- O outro lado da moeda

Mas nem tudo o que brilha é ouro e menos ainda na indústria pornográfica. Num mercado que se auto-regula, as autoridades sanitárias, preocupadas com o controle do vírus HIV/Aids, se debatem com os protagonistas do setor defendendo o uso do preservativo, que na maioria dos filmes não é obrigatório.

O impacto da indústria aumenta a preocupação e a indignação de muitos grupos conservadores e religiosos, que vêm a facilidade de um jovem ou até mesmo adolescente entrar na Internet com fortes cenas de sexo ou assista a um filme de alto conteúdo sexual no sofá de casa.

Segundo um estudo do site TenTop Reviews, crianças e adolescentes são os principais consumidores de pornografia.

A indústria parece não ter limites em muitos países do mundo e muitas vezes usa crianças para satisfazer a demanda de seus consumidores.

O negócio da pornografia infantil - fortemente condenado e perseguido por autoridades do mundo inteiro - gera 3 bilhões de dólares de lucro ao ano, segundo uma empresa de filtragem de mensagens na Internet.

"Nosso maior desafio neste momento são os problemas legais que podemos enfrentar", disse Steven Hirsch, em entrevista à AFP.

"Sobretudo num ano eleitoral. As eleições fazem nossa indústria cambalear", disse o presidente do Vivid.

A indústria pornô tem motivos para se preocupar. O presidente americano, George W. Bush (republicano), anunciou desde que assumiu o mandato, no início de 2001, que uma de suas prioridades é um controle mais duro da indústria do cinema pornô. Mas depois dos atentados de 11 de setembro e da guerra no Iraque, o tema ficou em segundo plano.

Num ano eleitoral, a questão voltou à agenda dos republicanos, que parecem decidido a sufocar este setor, agradando assim seu eleitorado mais conservador.