Completando um mês e uma semana de existência, o Acampamento João Cândido, mais recente ocupação do Movimento dos Trabalhadores Sem-Teto (MTST), já conta com aproximadamente 3000 famílias, cerca de 10 mil pessoas, morando, trabalhando, estudando, brincando, cozinhando, fazendo rap e se divertindo em seu terreno de mais de um milhão de metros quadrados.
Localizado na divisa de Itapecerica da Serra com São Paulo, extremo-sul da zona metropolitana da capital (região com alto déficit habitacional), o latifúndio urbano de área equivalente a 100 hectares, estava desocupado há décadas. Longe de cumprir sua função social, a área servia apenas para aumentar a criminalidade na região. Hoje é o lar de milhares de pessoas e tem mais habitantes que várias cidades brasileiras.
Pessoas sofredoras e lutadoras, que encaram com alegria as dificuldades de viver sob uma lona, na esperança de conseguir uma moradia própria. É como diz o rap de Caruru, morador do 'Morro do Osso': "O povo unido, só querendo moradia".
Organização
Com tantos moradores, a Ocupação se organiza em grupos, que têm tarefas coletivas. O acampamento João Cândido conta com 34 grupos, cada um com um número de famílias entre 50 e 100. Esses grupos escolhem dois coordenadores cada, que cuidam da disciplina e da infra-estrutura do grupo, além de passarem a fazer parte da Coordenação Geral de toda a Ocupação.
As decisões dentro do grupo são tomadas coletivamente em reuniões periódicas. É como conta Wellington, coordenador do G11: "As organizações são coletivas. São levantadas pautas e decididas entre o povo. Havendo intenções diferenciadas quem vence é a maioria". São atribuições internas dos grupos a manutenção de cozinhas e banheiros coletivos, os cuidados com a higiene e limpeza do grupo, as questões de disciplina entre os moradores e todas as outras questões relativas à infra-estrutura. Ainda dentro dos grupos são discutidas pautas referentes a todo o Acampamento.
Além das reuniões de grupo, há também as reuniões da Coordenação do Acampamento e a Assembléia Geral da Ocupação, onde são decididos temas mais gerais e passados informes a todos os moradores.
Estruturas Coletivas
Nos primeiros dias de sua existência a Ocupação contava com uma cozinha coletiva em seu barracão-sede, que naquele momento dava conta de alimentar seus primeiros moradores. Hoje, 35 dias depois, mais de 30 cozinhas coletivas estão em plena atividade, alimentando as cerca de 10 mil pessoas.
Graças a doações externas, mas principalmente às doações e do esforço dos próprios moradores, as cozinhas trazem cardápios com várias opções de pratos. Flávio Capeta, cozinheiro do G2 explica: "Comemos do bom e do melhor, porque 'nóis batalha'. Lenha a gente pega uma equipe. Água pega outra equipe. E assim, com esforços e doações conseguimos todas as coisas. Porque aqui não tem nenhum preguiçoso, a única coisa que falta aqui é a casa". No sábado o cardápio do G2 trazias as opções de arroz, feijão, polenta, maionese e sardinha. Em outra cozinha, a do G9 estava sendo preparado frango enspoado. No G32 costela e o tradicional prato nordestino Baião de Dois. Cozinheiro do G32, Piauí brinca: "A única briga é pra ver quem vai lavar a louça.(risos)"
Além das cozinhas diversos banheiros coletivos também estão em atividade. Entretanto, Tonho, da Infra-estrutura do acampamento, aponta algumas dificuldades: "Ainda não temos água potável aqui dentro, portanto considero esse um dos principais obstáculos. A prefeitura tinha se comprometido a trazer um caminhão-pipa todo dia para abastecer o acampamento porém não estão cumprindo. Eles trazem quando querem". Ainda segundo Tonho, a retirada do lixo, é outro compromisso que a prefeitura está cumprindo de forma incompleta.
Para ele, além desses problemas com água e lixo, existem algum problemas estruturais de maior porte e mais difíceis de resolver na ocupação: aponta, por exemplo, a ausência de uma farmácia e uma biblioteca no Acampamento. Mas com o tempo e muito esforço coletivo, tudo vai se ajeitando aos poucos.
Estudante
Nem só de trabalho vive a ocupação. "JoJo", 17 anos, morador do G2 e estudante, é aluno em uma escola que fica "a uns 4 pontos de ônibus da ocupação". Cursa o primeiro ano do ensino médio e divide seu tempo entre a escola e o acampamento: "Tamo aí todo dia, eu só saio daqui pra ir pra escola e logo que acaba eu já volto". Jojo conta como é seu dia na ocupação: "À tarde eu faço as lições de casa e ajudo também a pegar água, lenha. E estamos aí né, organizamos os barracos pra ficar tudo direitinho. E também vamos ali no campinho, jogar um futebol né? Tem a hora do estudo, do trabalho e da diversão".
Morro do Osso
Um local de intensa atividade cultural no Acampamento é o Grupo 9, também conhecido como "Morro do Osso". Na maioria das lonas, ao lado da numeração do barraco, há um desenho de um osso. Segundo o rapper Caruru, o nome surgiu devido às dificuldades que os moradores têm que superar, que segundo ele "é osso". Ele comenta como os moradores superam a falta de água, luz e o desconforto de viver apenas com um colchão sob uma lona: "Estamos firmes e fortes, lutando contra a sorte, o 'Morro do Osso' tem a comunidade, tem o banheiro, tem os mutirões, tem a recreação infantil, tem o respeito às leis, todo mundo faz o que precisa".
Ali, além dos rappers que fazem "beatbox" e inventam músicas na hora, outro morador faz mágica com um baralho de cartas comum. E ainda ensina o truque aos vistiantes da ocupação.
Perspectivas
Agora, 35 dias após a ocupação, com a organização e as estruturas coletivas se consolidando e uma intensa atividade cultural efervescendo, o Movimento planeja os próximos passos da luta por moradia. A ameaça de despejo está suspensa até o dia 7 de maio, mas o Movimento já planeja uma jornada de lutas para estender esse prazo. Desde o começo da Ocupação, marchas e atos estão servindo para chamar a atenção da sociedade e pressionar o poder público para uma solução definitiva para o caso. E enquanto a solução não vier, a luta continua.
Links da cobertura de 21/04
Fotos 1 | Fotos 2 | Áudios e Entrevistas
Rap free-style do rapper "Caruru" sobre a Ocupação
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