Reconsiderando o freeganismo.

Temos refletido sobre o freeganismo em relação ao que nós defendemos: a destruição da civilização. Temos sentido alguns desconfortos em relação ao que tem significado o freeganismo, sobre suas limitações e 'utilidades'.

Para nós, freeganismo tem significado a proposta de uma 'postura' frente a atual situação de deterioração em que encontramos o planeta neste processo de 10.000 anos de civilização. Esta 'postura' é resumidamente a não participação na manutenção deste sistema, e a adoção de um conjunto de estratégias visando a construção da autonomia baseada no respeito ao planeta e a seus habitantes. Freeganismo, obviamente, é também uma maneira prática de ficarmos cada vez menos dependentes do sistema. Resumindo, o freeganismo é uma prática de negação do sistema e oferece valiosas propostas para este fim. Porém o freeganismo não tem significado um ataque direto ao sistema.

Sentimos afinidades com o freeganismo como estratégia porque como anarquistas-vegans adicionado ao fato de que no Brasil aparentemente existem mais vegans do que anarquistas (pelo menos o veganismo tem sido mais expressivo e a maioria das manifestações anarquistas que observamos tem sido de cunho anarco-esquerdistas e liberais)(1), encontramos no freeganismo uma abordagem muito interessante para levantar a questão de que contra esta máquina que destrói o planeta e seus habitantes não é o suficiente uma opção alimentar ou a cada 2 anos nos dedicarmos a uma campanha pelo voto-nulo e divulgarmos folhetos sobre democracia-direta e/ou sobre as maravilhas da auto-gestão - é necessário não dar suporte a este sistema, encontrar maneiras de nos tornarmos cada vez menos dependentes dele e construir a nossa autonomia numa atmosfera de apoio-mútuo.
Neste sentido o freeganismo foi muito importante para despertar esta sensibilidade por aqui no Brasil, e com relativo sucesso.
Mas o que tem nos incomodado em relação ao freeganismo como uma força anticivilização é que ele constitui uma abordagem parcial e limitada.
Como a proposta freegan surgiu do veganismo (anarquista), o freeganismo ainda carrega algumas limitações do veganismo. O veganismo nada mais é do que uma opção alimentar e de consumo que se abstém de produtos de origem animal e testados em animais; o freeganismo é a mesma coisa mas vai um pouco além, ele visa boicotar tudo aquilo que acarreta em custos ambientais, animais e humanos. O problema é que embora isto seja um importante passo contra toda esta rede de crueladade, esse passo não é o suficiente. Somos anarquistas e acreditamos que a construção da autonomia é um ferramenta fundamental para criarmos uma atmosfera de ajuda-mútua e autonomia, mas acreditamos também que o ataque direto contra as estruturas da civilização é também fundamental para destruí-la. Uma estratégia complementa a outra. O freeganismo aborda apenas a construção da autonomia, e não achamos interessante abordagens parciais. De que adianta construirmos uma atmosfera de autonomia enquanto a máquina de morte chamada civilização continua a se espalhar pelo globo, de forma cada vez mais profunda e intensa? É preciso atacar.

Outra limitação do veganismo que o freeganismo carrega é a questão do consumo de animais. Na natureza tudo e todos são alimentos, e querer que humanos se alimentem apenas de vegetais é uma forma de opressão e de delimitar a experiência humana. Obviamente somos contra a brutalidade contra os animais, mas exitem muitos exemplos de de coletores-caçadores modernos que de uma maneira muito respeitosa caçam os animais, consideram os animais seus iguais. Dados antropológicos indicam que a dieta paleolítica é constituida de até 80% de vegetais, e dos 20% restantes de carne, boa parte é constituida de restos de animais caçados por outros predadores.
Mais uma vez caindo nas abordagens parciais o freeganismo não aborda o problema da domesticação. Mesmo como anarquistas-vegans acreditamos que a maior crueldade contra a vida é a domesticação, cuja prática impede os animais de uma vida livre e íntegra sequestrando gerações ou espécies inteiras da natureza, submetendo-os a uma vida alienada e artificial. Outra crueldade contra a vida dos animais e contra a terra que achamos extremamente importante denunciar é a sociedade de massas e o industrialismo, que com seu impacto ambiental devastador prejudica ecossistemas inteiros.
Isso aqui não é um defesa da caça ou da alimentação carnívora. Defendemos o retorno ao selvagem, mas entendemos que adotar a caça como fonte de alimento acarretaria em mais estresse aos animais selvagens que ainda sobrevivem ao impacto da civilização tecno-industrial. Aliás, acreditamos ser possível uma vida baseada na terra e vegan.

Outro problema com o freeganismo: o termo "freegan".
Freegan é um termo criado com duas palavras em inglês: "vegan" e "free". Queremos propor a construção da autonomia, queremos denunciar que a propria civilização é inimiga da vida.
Sem contar o problema da perda de tempo em sempre termos que traduzir e explicar o termo freegan aqui no Brasil, a questão é que temos que propror a construção da autonomia, mas se formos usar por exemplo o "conjunto de estratégias freegans" teremos que explicar o termo "freegan" e sua origem, e ao mesmo tempo daríamos um nome, um termo para uma prática que pode tomar várias formas em vários lugares.
Queremos simplesmente propror a construção da autonomia contra a mega-máquina, e mostrar que existem estratégias ou um conjunto de estratégias que podem ser usadas nessa construção da autonomia. Não queremos ter que traduzir e explicar o que significa um termo que foi criado para isso, é extremamente problemático colocarmos termos para isso.

Entre as estratégias freegans (ops, para a construção da autonomia) gostaríamos de adicionar mais uma: a não colaboração com a mídia.
Alguns freegans americanos(2) e de outros países têm constantemente participado de entrevistas e reportagens sobre o freeganismo ou sobre o dumpster diving (coleta de alimentos descartados como lixo). Como anarquistas isso é inaceitável, pois a mídia não é, nunca foi e nunca será a nossa amiga. A mídia é nossa inimiga. O Estado é a administração de toda a destruição do mundo, e a mídia é seu propagandista e hipnotizador. Portanto se queremos criar a autonomia e destruir a máquina, não colaborar com a mídia e sabotá-la é uma estratégia indispensavél.

Uma outra estratégia que propomos aqui contra a civilização e para a construção da autonomia é obviamente a não colaboração com o Estado. Isso pode ser resumido principalmente em duas pequenas iniciativas (dentre muitas): a desobediência ao serviço militar obrigatório e o não-voto. Ambas as iniciativas obviamente acarretam em retaliações da parte do Estado, e entre as retaliações, por exemplo, está a impossibilidade de se matricular em universidades, o que leva a outra estratégia para a construção da autonomia e destruição da máquina que é a autonomia em compartilhar o conhecimento da experiencia humana.
Resumindo, as retaliações do Estado contra aqueles que não se sujeitam as suas imposições são na verdade o ponto fraco do Estado. Quanto menos pessoas colaborarem com o Estado, quanto mais desacreditado o Estado estiver frente a autonomia e ao apoio-mútuo das comunidades e dos indivíduos, mais o Estado estará fragil aos nossos ataques e assim a realidade anarquista pode ser experimentada.

O freeganismo foi importante para nós, pois como uma perspectiva vegan e anarquista, nos forneceu um olhar e uma prática que vai além do protestos estéreis e das opções de consumo, é o nosso dia-a-dia que constrói uma realidade e uma luta anti-estado, contra a domestição e a destruição da vida.

E apesar de apartir de agora não 'utilizarmos' mais o "freeganismo" como uma proposta de autonomia, ainda defendemos e praticamos as estratégias propostas no freeganismo.

Pela autonomia! Pela anarquia! Pela destruição da civilização!

Eduardo e Sofia
Erva Daninha - Iniciativa anti-civlização

notas:
(1) Isso é o que tem se resumido o anarquismo no brasil durante muito tempo, porém sentimos que isto está mudando radicalmente.
(2) Adam weissem , um dos mais entusiastas do freeganismo, deu uma entrevista para uma rede brasileira de televisão, e na reportagem Adam foi apresentado como o líder do movimento freegan. Sabemos que Adam, que é anarquista, não gostaria de ser chamado de líder - mas a mídia é a mídia.

material e sites relacionado:

Destruir a civilização? - Willful Disobedience
Contra a civilização - THUG
Construindo a autonomia Destruindo a Maquina - erva daninha

sites : ervadaninha.co.nr / freegan.info / wildroots.org


Saiu o primeiro número do Erva Daninha - Publicação Anarquista
Anti-civlização.
40 paginas, formato brochura, xerox

Neste primero :
"Dicionário niilista: Feral" - John Zerzan;
"Devolta aos nossos sentidos: nos libertando da armadilha do medo" -
Derrick Jensen;
"Construindo a nossa autonomia, Destruindo a Maquina" ;
"Por Que Civilização?"- THUG;
"Contra o Militarismo";
"A Natureza Como Espetáculo: A Imagem da Natureza Selvagem vs.o Selvagem"
- Feral Faun;
"Revolução vs Reforma";
"É Hora de Desorganizar" - Kevin Tucker;
"Jogue intensamente! Nossas vidas estão em jogo! A Prática Anarquista como
um Jogo de Subversão" - Wolfi Landstreicher;
"Nascidos Naturalmente para Matar" - Sky Hiatt;
"Maximalismo Anarquista/Anarquismo Maximalista" - John Moore;
"Anarca-herbalismo" - Laurel Luddite;
"Atinja Aonde Dói" - Ted Kaczinsky;
Noticias de ações pelo mundo, seção sobre autonomia (fogão a lenha, ervas
daninhas, cultivo de plantas, captação de água, etc), e por ai vai...

3 reais, pelo correio
Erva Daninha - caixa postal 52 cep 09510-970
São caetano do Sul - SP

ervadaninha.co.nr - ervadaninha(a)riseup.net

Pela destruição da civilização!
pela anarquia! pelo selvagem!