À meia-noite a praça da Sé estava tomada de pessoas de diferentes classes, idades e cores. Atraso de quase duas horas para o começo do show dos Racionais MC's que estava marcado para às 3hrs, um início de tumulto e a polícia teve o que queria. Treinada para desrespeitar primeiro, agredir depois e matar no final (a ordem dos fatores não é essa a depender do perfil da vítima), encontrou um motivo para demonstrar sua força. Os Racionais são um dos maiores e mais respeitados grupos do Brasil. São odiados pela polícia, claro. São narradores do que acontece na periferia de São Paulo e, conseqüentemente, denunciantes do sistema de violência que a polícia mantém contra a enorme maioria da população, negros e pobres sem acesso a direitos. Passeatas, protestos, shows e qualquer tipo de manifestação depende da autorização dos donos da cidade, a Polícia Militar. A polícia militar faz parte de um amplo grupo criminoso - que conta com a polícia metropolitana, grupos especiais e polícia civil - e está sob o controle da Secretaria de Segurança Pública. O centro de São Paulo, usual reduto de chacinas de moradores de rua cometidas pela polícia pública e privada, estava tomado pela população, a polícia nada poderia fazer, mas deu um jeito e fez. A grande mídia repetiu o nome Racionais MC's para todos os lados, a Globo News, por exemplo, narrou que "o tumulto começou quando o grupo cantava uma música com referências a polícia militar". Algo bastante diferente dos apelos pelo bom senso e racionalidade que se vê o vocalista do grupo, Mano Brown, dizendo durante a confusão. O tom de que pretos e pobres não sabem se divertir e são um bando de maloqueiros está sendo difundido em massa pela mídia corporativa. Imagens das câmeras de segurança (aquelas que nunca filmam as agressões policiais) dão "outros ângulos do tumulto", segundo a Globo. Para a Rede "PMs com uniformes de patrulhamento, formando um cordão de proteção na frente das lojas, logo depois uma parte do público se vira contra os policiais e começa a provocá-los, os PMs se afastam, o grupo sobe numa banca de jornal". De fato, o ângulo revela que a polícia serve exclusivamente à proteção da propriedade privada, de que em minoria recua, de que em maioria e armada pode acabar com a festa numa praça pública e que para conter um grupo vândalos, está disposta a aterrorizar 30 mil pessoas, empunhando armas, atirando balas de borracha e jogando bombas de gás lacrimogêneo de forma generalizada. A PM de São Paulo não tem comando e é absolutamente despreparada para lidar com a população que deveria proteger. Sente-se parte de uma outra esfera, de uma seita particular com regras próprias, não é uma instituição pública de repressão e controle, mas sim uma instituição de julgamento sumário. Decide que aquele é suspeito, agride; que aquele é desordeiro, espanca; que aquele é bandido, mata; que aquele é doutor, favorece. A nota da Secretária Estadual de Segurança, como sempre, não diz nada. A nota "PM contém tumulto e depredações na Praça da Sé", não cita os disparos de balas de borracha indiscriminados à curta distância, nem a atitude irresponsável de colocar milhares de pessoas para correr desesperadas pelas ruas. Se a prefeitura da cidade mostrou pela terceira vez que é possível um evento cultural variado durante 24 horas, se a população mostrou que está disposta a ocupar as ruas, a PM mostrou que cultiva regras e ações próprias e violentas, e assim pretende continuar. PM X Povo no show dos Racionais - Relação de Vídeos