30.000 PESSOAS DEVEM PAGAR POR 30?

POBRE = BANDIDO?

Mais uma vez a população pobre sofre o estigma generalizado e preconceituoso da bandidagem. Cerca de trinta mil pessoas foram alvo de bombas de gás lacrimogênio e balas de borracha, atiradas indiscriminadamente contra o público do show do Racionais MC´s pela Polícia Militar e Batalhão de Choque, durante a Virada Cultural.

Ainda não posso acreditar no que vi e sofri, depois de passar algumas horas confraternizando com os manos na praça da Sé, entre jovens, idosos e crianças, moças e rapazes de todas as zonas da cidade. Estávamos tranquilos, cantando, quando a correria começou e bombas de gás começaram a explodir no meio da multidão!

A atuação da polícia foi sádica, perversa, nojenta!

Para quem chegou na praça durante o show da Nação Zumbi e viu a galera sobre bancas de jornais, postes e banheiros químicos, durante horas sem serem incomodadas pela polícia, ficou claro que a intenção era acabar com a festa na hora do show dos Racionais. Se o "motivo" do ataque foi o abuso da moçada, porque não os tiraram destes locais antes do show começar?

Porque o alvo eram os Racionais, que sistematicamente denunciam os abusos cometidos por estes bandidos fardados contra a massa da população que vive nas periferias, bandidos estes que invadem barracos de famílias, estorquem, espancam e matam centenas de jovens negros e pobres todos os anos. Quem é o crime organizado afinal?

O mais absurdo desta história é a reação do poder público, do Serra classificando a ação policial "de exemplar". Mas talvez tenha sido exemplar mesmo, exemplar de um sistema racista e assassino, que classifica toda a população pobre de "bandido", de "suspeito", e que a mantém confinada nas periferias para não ameaçar as classes privilegiadas, dignas de participarem da Virada Cultural sem levar bomba na cabeça.

E nós, classes privilegiadas, só temos uma mínima noção deste "sistema exemplar" quando nos prestamos a compartilhar espaço (nosso espaço?) com esta população que queríamos invisível, queríamos domada e amordaçada. Compartilhamos espaço, violência e discriminação, mas compartilhamos música e alegria até então, e eu não queria ter estado em outro lugar naquele momento.

Quem provocou a quebradeira e os saques foi a polícia, o ódio do estado sobre as 30.000 cabeças. Eu ví, eu respirei este ódio. Quando a praça de guerra já estava quase vazia e eu esperava por alguém em frente ao Corpo de Bombeiros com outras pessoas, já pronta para pular sobre o portão fechado enquanto as bombas explodiam cada vez mais perto, chegou uma tropa do Choque gritando para a gente "sair fora". Uma mulher disse que estava grávida ao policial, que gritou com ela "então você devia ter ficado em casa!".

Tivemos que correr para o meio do gás, a garganta fechando e os olhos ardendo, com a polícia atrás de nós. Quando chegamos na rua entre a praça e o Fórum João Mendes, outra tropa atirando bombas e uma multidão correndo em nossa direção. Entramos na rua a direita, seguindo sentido Pq. Dom Pedro. Corríamos sem ar e a galera começou a quebrar tudo, orelhões, cestas de lixo, vidros de carro. Se eu não tivesse tão preocupada em achar um lugar para me esconder eu tinha quebrado tudo também. Se eu não tivesse com tanto medo, se eu tivesse uma arma, talvez tivesse atirado na polícia.

Mas eu não ando armada porque eu não sou o alvo do sistema exemplar.

Quando eu consegui entrar em um estacionamento para esperar o tumulto passar, encontrei um menino de cerca de dez anos chorando muito. Seu nome é Eduardo, veio da zona sul, estava perdido dos amigos e com medo de voltar para casa. Levamos ele até o terminal Pq. Dom Pedro, ele não quis dinheiro para o ônibus, disse que "passava por baixo". Disse também que nunca mais iria em um show e que agora entendia, como todos devíamos entender, porque a molecada se juntava ao PCC. Dei um beijo e um abraço nele, disse para ele "ir com Deus". Mas eu não acredito em Deus...


RACISMO POLICIAL - QUEM POLICIA A POLÍCIA?