UMA CRÍTICA AO ANARQUISMO COMO CAOS
Murray Bookchin
Tradução e seleção: Felipe Corrêa
[...] O anarquismo de estilo de vida hoje encontra sua principal expressão [...]
no niilismo pós-modernista, no anti-racionalismo, no neoprimitivismo, na
antitecnologia, no ?terrorismo cultural? neo-situacionista, no misticismo, e na
?prática? da encenação das ?insurreições pessoais? foucaultianas.
Essas modernas e vaidosas posturas, quase todas resultado da moda yuppie, são
individualistas no importante sentido de que são antitéticas ao desenvolvimento
de organizações sérias, de uma política radical, de um movimento social
comprometido, de coerência teórica e de relevância programática. Mais voltada a
atingir a ?auto-realização? do que as mudanças sociais fundamentais, essa
tendência dentro dos anarquistas de estilo de vida é particularmente nociva, na
qual seu ?virar-se a si mesmo?, como Katinka Matson chamou, reivindica ser
política. [...] A bandeira negra, que os revolucionários defensores do
anarquismo social levantaram nas lutas insurrecionais na Ucrânia e Espanha,
torna-se agora um ?sarongue?[1] da moda, para deleite de chiques
pequeno-burgueses?
Um dos exemplos mais enfadonhos do anarquismo de estilo de vida é a T.A.Z. de
Hakim Bey (também conhecido como Peter Lamborn Wilson): A Zona Autônoma
Temporária, Anarquismo Ontológico, Terrorismo Poético[2], é uma jóia da New
Autonomy Series (sem escolha acidental da palavra aqui), publicada pelos
fortemente pós-modernistas Semiotext(e)/Autonomedia [...]. No meio de sua
invocação do ?Caos?, do ?Amor Louco?, das ?Crianças Selvagens?, do ?Paganismo?,
da ?Sabotagem Artística?, das ?Utopias Piratas?, da ?Magia Negra como Ação
Revolucionária?, do ?Crime? e da ?Bruxaria?, isso sem falar nos elogios ao
?marxismo-stirnerianismo?, o chamado à autonomia é levado a um grau tão absurdo
que aparentemente parodia uma ideologia auto-absorvida e auto-absorvente.
A T.A.Z. apresenta-se como um estado de espírito, um humor ardentemente
anti-racional e anticivilizador, no qual a desorganização é compreendida como
uma forma de arte. [...] Bey (seu pseudônimo é a palavra turca para ?chefe? ou
?príncipe?) não mede palavras sobre seu desprezo pela revolução social: ?Por que
diabos confrontar um ?poder? que perdeu todo seu significado e tornou-se uma
completa Simulação? Tais confrontações apenas resultarão em perigos e horrendos
espasmos de violência.? Poder entre aspas? Uma mera ?Simulação?? Se o que está
acontecendo na Bósnia com toda aquela potência de fogo for uma mera ?simulação?,
então, de fato, nós estamos vivendo em um mundo muito seguro e confortável! O
leitor preocupado com as patologias sociais da vida moderna que constantemente
se multiplicam pode confortar-se pelo pensamento olímpico de Bey quando diz que
?o realismo exige não apenas que desistamos de esperar pela ?revolução?, mas
também que desistamos de desejá-la?. Essa passagem nos chama para gozar a
serenidade do Nirvana? Ou uma nova ?Simulação? baudrillardiana? Ou, talvez, um
novo ?imaginário? castoriadiano?
Tendo eliminado o objetivo revolucionário clássico para a transformação da
sociedade, Bey zomba condescendentemente daqueles que outrora arriscaram tudo
por isso: ?O democrata, o socialista, a ideologia racional [...] não podem
escutar música e carecem totalmente de ritmo?. Realmente? O próprio Bey e seus
coroinhas dominam a fundo os versos e a música da Marselhesa e dançam
extaticamente os ritmos da Dança dos Marinheiros Russos de Gliere? Há uma
fatigante arrogância no repúdio que Bey tem pela rica cultura que foi criada
pelos revolucionários durante os últimos séculos, na verdade, por trabalhadores
comuns no período pré-rock?n?roll e pré-Woodstock.
Em verdade, deixe que qualquer um que adentre o mundo dos sonhos de Bey desista
de todo absurdo sobre o compromisso social. ?Um sonho democrático? Um sonho
socialista? Impossível?, entoa Bey com arrogante certeza. ?Em sonho, nada nos
governa, a não ser o amor ou a feitiçaria?. Assim são os sonhos de um novo
mundo, evocados por séculos de idealistas em grandes revoluções, magistralmente
reduzidas por Bey à sabedoria do seu mundo febril dos sonhos.
Da mesma forma que um anarquismo que é ?completamente coberto com o Humanismo
Ético, Pensamento Livre, Ateísmo Muscular e com a rude Lógica Cartesiana
Fundamentalista? ? esqueça isso! Bey não apenas utiliza-se, de uma só vez, da
tradição Iluminista na qual o anarquismo, o socialismo e o movimento
revolucionário estavam outrora radicados, mas também mistura maçãs como ?Lógica
Cartesiana Fundamentalista? com laranjas como ?Pensamento Livre? e ?Humanismo?,
como se fossem substituíveis mutuamente ou que necessariamente uma implicasse a
outra.
Apesar de o próprio Bey nunca hesitar em emitir fenomenais pronunciamentos e
trazer petulantes polêmicas, ele não tem paciência com ?os ideólogos defensores
do anarquismo e do libertarianismo[3]?. Proclamando que a ?anarquia não conhece
dogmas?, Bey, entretanto, afunda seus leitores em um severo dogma, se é que já
houve um: ?Anarquismo, em última análise, implica a anarquia ? e a anarquia é
caos?. Então assim disse o Senhor: ?Eu sou o que sou? ? e Moisés tremeu perante
o pronunciamento!
Na realidade, em um acesso de narcisismo maníaco, Bey determina que o soberano é
o que tudo tem, o gigantesco ?eu?, o grande ?eu?: ?cada um de nós é o mestre de
si mesmo, de suas próprias criações ? e tanto quanto puder alcançar?. Para Bey,
anarquistas e reis ? e os beys ? tornam-se indistinguíveis, visto que todos são
autarcas:
Nossas ações são justificadas por decreto e nossas relações são moldadas por
tratados estabelecidos com outros autarcas. Nós fazemos a lei para os nossos
próprios domínios ? e os grilhões da lei foram quebrados. No momento, talvez
sobrevivamos como meros fingidores ? mas mesmo assim, podemos aproveitar alguns
poucos instantes, uns poucos metros quadrados de realidade sobre a qual impomos
nosso absoluto desejo, nosso royaume[reino]. L?etat, c?est moi [O Estado sou
eu]... Se somos limitados por qualquer ética ou moralidade, elas devem ter sido
imaginadas por nós mesmos.
L?Etat, c?est moi? Junto a Bey, posso pensar em pelo menos duas pessoas neste
século que desfrutavam dessas impetuosas prerrogativas: Josef Stalin e Adolf
Hitler. A maioria do resto de nós mortais, sem distinção entre ricos e pobres,
compartilha, como colocou uma vez Anatole France, da proibição de se dormir sob
as pontes do Sena. Na realidade, se o On Authority [Sobre a Autoridade] de
Friedrich Engels, com sua defesa da hierarquia, representa uma forma burguesa de
socialismo, T.A.Z. e suas ramificações representam uma forma burguesa de
anarquismo. ?Não há transformação?, nos diz Bey, ?não há revolução, luta,
caminho; [se] você já é o seu próprio monarca ? sua inviolável liberdade aguarda
ser completada apenas pelo amor de outros monarcas: uma política do sonho,
indispensável como o azul do céu? ? palavras que poderiam ser inscritas na Bolsa
de Valores de Nova York, como uma crença ao egotismo e à indiferença social.
Certamente, essa visão não repelirá as butiques da ?cultura? capitalista, muito
mais do que barbas ou cabelos longos e o jeans repeliram o mundo empresarial da
alta moda. Infelizmente, muitas pessoas neste mundo ? e não ?simulações? ou
?sonhos? ? não têm nem mesmo a si mesmas, assim como os prisioneiros forçados ao
trabalho e as prisões podem atestar no mais concreto dos termos. Ninguém jamais
pairou fora do reino terrestre da miséria em ?uma política dos sonhos? exceto os
privilegiados pequenos burgueses, que devem achar os manifestos de Bey afáveis,
particularmente nos momentos de aborrecimento.
Para Bey, na realidade, mesmo as insurreições revolucionárias clássicas mostram
pouco mais do que uma euforia pessoal perfumada com as ?experiências-limite? de
Foucault. ?Uma revolta é como uma ?experiência máxima?? declara ele a nós.
Historicamente, ?alguns anarquistas [...] tomaram parte em muitos tipos de
revoltas e revoluções, mesmo naquelas comunistas e socialistas?, mas isso
aconteceu ?porque eles encontraram no próprio momento da insurreição o tipo de
liberdade que buscavam. Deste modo, enquanto o utopismo tem sempre falhado até
agora, os anarquistas individualistas ou existencialistas têm progredido, visto
que têm conseguido (ainda que brevemente) a realização de sua vontade de poder
na guerra?. O levante dos trabalhadores austríacos de fevereiro de 1934 e a
Guerra Civil Espanhola de 1936, posso afirmar, foram mais do que orgásticos
?momentos de insurreição?, mas foram implacáveis lutas levadas a cabo com
desesperada seriedade e magnífico ímpeto, todavia, apesar de todas as epifanias
estéticas.
Entretanto, a insurreição torna-se para Bey pouco mais que uma ?viagem?
psicodélica, enquanto o Super-Homem de Nietzsche, que Bey aprova, é um ?espírito
livre? que iria ?desdenhar da perda de tempo com agitações pelas reformas, com
protestos, com sonhos visionários, com todo tipo de ?martírio revolucionário??.
Presumivelmente, os sonhos estão corretos, contanto que não sejam ?visionários?
(ler: comprometidos socialmente); preferivelmente, Bey ?beberia vinho? e
atingiria a ?epifania privada?, o que sugere pouco mais do que masturbação
mental, libertada, na verdade, da coação da lógica cartesiana.
Não nos surpreenderia descobrir que Bey aprova as idéias de Max Stirner, que
?não se compromete com a metafísica, ainda que conceda ao Único (o Ego) um certo
poder absoluto?. Na verdade, Bey constata que existe um ?ingrediente faltante em
Stirner?: ?um conceito funcional de consciência não-ordinária?. Aparentemente,
Stirner é muito racionalista para Bey. ?O oriente, o oculto, as culturas tribais
possuem técnicas que podem ser ?apropriadas? à verdadeira moda anarquista. [...]
Precisamos de um tipo prático de ?anarquismo místico? [...] uma democratização
do xamanismo, embriagado e sereno?. Por esta razão, Bey chama seus discípulos a
tornarem-se ?feiticeiros? e sugere que utilizem a ?Maldição Malaia do Djinn
Negro?.
O que, afinal, é uma ?zona autônoma temporária?? ?A T.A.Z. é um tipo de rebelião
que não confronta o Estado diretamente, uma operação de guerrilha que libera uma
área (de terra, de tempo, de imaginação) e se dissolve para se refazer, em outro
lugar e outro momento, antes que o Estado possa esmagá-la?. Em uma T.A.Z.,
podemos ?realizar muitos dos nossos verdadeiros desejos, mesmo que apenas por
uma temporada, uma breve Utopia Pirata, uma zona livre no velho contínuo
Tempo/Espaço?. ?T.A.Z.s em potencial? incluem ?a ?reunião tribal? dos anos 60, o
conclave florestal de eco-sabotadores, o Beltane idílico dos neo-pagãos, as
conferências anarquistas, as festas gays?, isto sem falar nas ?casas noturnas,
banquetes? e nos ?piqueniques dos antigos libertários ? nada menos?. Como um
membro que fui da Libertarian League nos anos 1960, eu adoraria ver Bey e seus
discípulos aparecerem em um ?piquenique dos antigos libertários?!
A T.A.Z. é tão passageira, tão evanescente, tão inefável em contraste com o
Estado e a burguesia formidavelmente estáveis que ?assim que a T.A.Z. é nomeada
[...] ela deve desaparecer, ela vai desaparecer [...] e brotará novamente em
outro lugar?. A T.A.Z., de fato, não é uma revolta, mas sim uma simulação, uma
insurreição igualmente vivida na imaginação de um cérebro juvenil, uma retirada
segura para a irrealidade. Entretanto, Bey declama: ?Nós a recomendamos [a
T.A.Z.], pois ela pode fornecer a qualidade do enlevamento, sem necessariamente
[!] levar à violência e ao martírio?. Mais precisamente, como um happening de
Andy Warhol, a T.A.Z. é um evento passageiro, um orgasmo momentâneo, uma
expressão fugaz da ?força de vontade? que é, de fato, uma evidente impotência em
sua capacidade de deixar qualquer marca na personalidade, subjetividade ou mesmo
na auto-formação do indivíduo, e menos ainda em modificar eventos ou a
realidade.
Dada a evanescente qualidade de uma T.A.Z., os discípulos de Bey podem
aproveitar o privilégio passageiro de viver uma ?vida nômade?; visto que ??não
ter teto? pode, num certo sentido, ser uma virtude, uma aventura?. Infelizmente,
?não ter teto? pode ser uma ?aventura? quando se tem um confortável lar para
retornar, enquanto o nomadismo é a distinta luxúria daqueles que podem se dar ao
luxo de viver sem ganhar para seu sustento. A maioria dos sem-teto ?nômades?,
dos quais me lembro tão vivamente da época da Grande Depressão, sofriam em vidas
desesperadas de fome, doença e indignidade e era comum morrerem prematuramente ?
como ainda acontece, hoje, nas ruas da América urbana. Os poucos ?de tipo
cigano? que parecem gostar da ?vida na estrada? são idiossincráticos, na melhor
das hipóteses, e tragicamente neuróticos, na pior. Eu também não posso ignorar
outra ?insurreição? promovida por Bey: notavelmente, o ?analfabetismo
voluntário?. Embora ele promova isso como uma revolta contra o sistema
educacional, seu efeito mais desejado pode ser tornar suas prescrições de
ex-cátedra, inacessíveis a seus leitores.
Talvez não haja descrição melhor da mensagem de T.A.Z. do que aquela que foi
publicada na Whole Earth Review, em que o crítico enfatiza que o panfleto de Bey
está ?rapidamente se tornando a bíblia da contracultura dos anos 1990. [...]
Enquanto muitos dos conceitos de Bey têm afinidade com as doutrinas do
anarquismo?, Review declara a sua clientela de yuppies que ele
intencionalmente parte da usual retórica sobre derrubar o governo. Em vez disso,
ele prefere a natureza mercurial das ?revoltas?, o que ele acredita que
proporcione ?momentos de intensidade [que podem] dar forma e significado à
totalidade da vida?. Esses pequenos espaços de liberdade, ou zonas autônomas
temporárias possibilitam o indivíduo esquivar-se das esquemáticas grades do Big
Government e ocasionalmente viver em locais onde ele ou ela possa experimentar,
brevemente, a liberdade total. (Grifos meus)
Há uma palavra iídiche intraduzível para tudo isso: nebbich! Durante os anos
1960, o grupo de afinidades Up Against the Wall Motherfuckers propagou similar
confusão, desorganização e ?terrorismo cultural?, apenas para desaparecer da
cena política logo depois disso. Na realidade, alguns de seus membros entraram
para o mundo comercial, profissional e da classe média, que eles outrora
desprezavam. Este comportamento também não é exclusivamente americano. Assim
como um francês, ?veterano? do Maio-Junho de 1968, cinicamente colocou: ?Tivemos
nossa diversão em 68, e agora é hora de crescer?. O mesmo ciclo mortal que
circulou ?As?, repetiu-se durante uma revolta de jovens, altamente
individualista, em Zurich em 1984, apenas para acabar na criação do Needle Park,
um lugar para utilização de cocaína e crack, estabelecido pelos oficiais da
cidade, que permitia que jovens drogados destruíssem a si mesmos, legalmente.
A burguesia não tinha nada a temer com essas declamações de estilo de vida. Com
a sua aversão pelas instituições, organizações de massa, sua orientação
amplamente subcultural, sua decadência moral, sua celebração da transitoriedade
e sua rejeição de programas, esse tipo de anarquismo narcisista é socialmente
inócuo e, com freqüência, meramente uma válvula segura para o descontentamento
com a ordem social dominante. Com Bey, o anarquismo de estilo de vida foge de
toda militância social significativa e do firme compromisso com os projetos
duradouros e criativos, quando se dissolve nas queixas, no niilismo
pós-modernista e na confusão. O senso nietzschiano de superioridade elitista.
O preço que o anarquismo pagará se permitir que este absurdo substitua os ideais
libertários de um período anterior será enorme. O anarquismo egocêntrico de Bey,
com seu afastamento pós-modernista em direção à ?autonomia? individual, às
?experiências-limite? foucaultianas, e ao êxtase neo-situacionista, ameaça
tornar a palavra anarquismo política e socialmente inocente ? uma simples moda
para o gozo dos pequenos burgueses de todas as idades.
* Este artigo é um capítulo do livro Anarquismo Social ou Anarquismo de Estilo
de Vida: um abismo intransponível, a ser publicado em breve.
Notas:
[1] Pano usado como vestuário pelos habitantes da Malaia. (N. T.)
[2] Publicado no Brasil pela Conrad Editora. Adaptei, o máximo possível, as
citações de Bookchin à tradução brasileira. (N. T.)
[3] Com alguma expressividade nos EUA, o libertarianismo (ou libertarismo) é uma
filosofia política que defende o pensamento liberal clássico, reforçando valores
como a propriedade privada e as liberdades civis. É contra o Estado, mas não
contra o capitalismo e são os chamados ?libertários de direita?
norte-americanos, ou anarco-capitalistas. Não confundir libertarianismo com
libertário. (N. T.)
