Redes de Guerra - Henrique Antoun
http://leonildoc.orgfree.com/rede.htm Tudo isto reforça a constatação da profunda mudança introduzida nas relações sociais e na base organizacional das comunidades através do acesso do indivíduo comum às tecnologias informacionais da comunicação (TIC) e comunicações mediadas por computador (CMC). Mostra, também, que o EZLN é diferente do movimento Zapatista, além de mostrar o desenvolvimento do movimento como uma poderosa convergência de diferentes redes (ONGs, indígenas, guerrilheiros, hackers, estudantes, intelectuais, etc) construindo uma comunidade que partilha uma agenda comum de reivindicações e ação e experimenta em sua própria construção modos democráticos de produção e tomada de decisão.
Se olharmos para este movimento na perspectiva da luta política, ele se revela muito mais forte e adequado para conduzir uma guerra assimétrica contra o estado e as empresas porque estes últimos ainda estão embaraçados com o modo de organizar e institucionalizar suas relações através das hierarquias e mercados.
Analisada na perspectiva da construção social, a comunidade virtual do movimento Zapatista é uma comunidade real montada na esfera pública global do ciberespaço, capaz de construir a participação atual em ações comuns na vida de seus participantes e na vida cívica da sociedade civil mundial ? o que afasta as objeções de Fernback e Thompson quanto a realidade das comunidades virtuais.
Na perspectiva do capital social e do engajamento cívico ? objeções de Putnam ? ela nada deixa a desejar enquanto comunidade através das manifestações que promove pelo mundo, os congressos e encontros realizados em Chiapas e a marcha para a capital do México integrando grande parte de seus membros em uma caminhada cívica ao longo da região de Chiapas.
Mas o mais importante dado é o fato da dicotomia Jihad/Macmundo desaparecer no interior da organização e prática da comunidade virtual do Movimento Zapatista. A experiência desta comunidade não é a de um mundo destroçado, ameaçado de dissolução pelo totalitarismo homogeneizante ou tribalismo desagregador.
A globalização transformou a informação em uma arma e o estado, global ou local, está sempre envolto, pós-modernamente, nas guerras de informação.
A ciberguerra, teorizada pela RAND logo após a Guerra do Golfo, revela a emergência de uma guerra imanente e absoluta, coextensiva à existência do Império com suas armas espaciais e tecnologias de destruição em massa. A guerra tornou-se algo tão ordinário na esfera imperial que as forças armadas dos EUA reduziram as tropas do exército, de 790 mil para 480 mil homens nos últimos dez anos, ao mesmo tempo em que empresas privadas passaram a vender operações de guerra ? ciberguerra, guerra em rede, infoguerra ? para os estados e as corporações.
O vasto material, produzido nos últimos 10 anos pelas pesquisas da RAND e demais intelectuais ligados ao Departamento de Defesa norte-americano, não deixam margem para dúvidas: vivemos em guerra permanente ? mesmo os negócios tornaram-se operações especializadas de guerra ? e as armas usadas a maior parte do tempo são as notícias que os jornais, rádios, televisões e revistas despejam sobre as populações em seu bombardeio incessante e a capacidade de comunicação, controle e comando do ciberespaço.
O movimento Zapatista percebeu com clareza a atual condição quando anunciou aos quatro ventos que a quarta guerra mundial havia começado. A suprema ironia é que parte dos inimigos atuais do império ? fundamentalistas, traficantes e etnonacionalistas ? são os antigos aliados da guerra-fria, armados e enriquecidos pela luta anti-comunista através das operações encobertas do Departamento de Defesa norte-americano.
Mas através das comunidades virtuais do ciberespaço a multidão está armada e as redes, que sempre construiu para lutar contra o poder político burguês, tornaram-se poderosas redes de guerra, paralisando o uso das armas de aniquilação do poder global e rompendo com sua cadeia de medo orquestrada pela mídia oficial usando da contra-informação.
A comunidade virtual é uma rede de guerra lutando contra os Estados global e locais, mas seu combate se desenvolve através de sua própria construção como um modo surpreendente de inventar valores e práticas democráticas no seu interior, utilizando as tecnologias informacionais de comunicação (TIC) e a comunicação mediada por computador (CMC).
