No dia 13 de julho, tem início os Jogos Panamericanos 2007, no Rio de Janeiro. Um grande espetáculo midiático vem sendo armado, desde o ano passado, em torno da realização do evento, com direito a eleição do nome do mascote dos Jogos e muitos minutos diários nos telejornais mais vistos do Brasil.

Mas, ao contrário do que se quer promover, os Jogos Panamericanos não têm trazido só festa e esporte para a cidade. Os problemas que envolvem a realização do Pan são inúmeros e estão menos ligados ao atraso das obras do que à vida cotidiana dos moradores e moradoras de favelas e comunidades pobres da cidade.

Para a construção de estádios e vilas olímpicas, inúmeras pequenas comunidades pobres foram despejadas, sem nenhum tipo de indenização ou garantia de moradia em outro local. Como se não bastasse, as próprias condições de trabalho para os que construíram ou reformaram os estádios eram péssimas, chegando a gerar paralisações e mesmo ameaça de greve em uma das obras, no Estádio João Havelange, no Engenho Novo.

O gasto para a realização do Pan foi mais de dez vezes superior ao previsto inicialmente. Em fevereiro, com as obras bastante atrasadas ainda, esse gasto já estava estimado em 1,5 bilhões de reais. Mas, para a aceleração das obras, certamente estes gastos cresceram. Hoje já estão previstos R$562 milhões somente para o gasto em segurança.

Este assunto tem sido o mais importante, não apenas para os organizadores do evento, mas principalmente para aqueles que tem sentido na pele estes investimentos: os moradores/as de favelas e movimentos sociais. Desde o início do ano, as operações da Polícia Militar tem se intensificado, com o auxílio ainda da Força Nacional de Segurança, que veio especialmente para o Panamericano. Um exemplo - não o único, mas o que mais tem ocupado os noticiários - é o caso do Complexo do Alemão (veja mais I e II III), onde as aulas das escolas da região foram paralisadas e mais de 20 pessoas já morreram. Mas ao contrário do que a mídia corporativa propaga, o cerco ao local não intimida o tráfico, e "sem prisões ou apreensões de armas ou drogas, o que se conseguiu até agora foi vitimar moradores, atingidos pelas chamadas 'balas perdidas'".

Sérgio Cabral, apesar de ter se comprometido em acabar com o Caveirão - símbolo desta política de enfrentamento nas favelas -, não só não cumpriu como anunciou a compra de outros veículos e ainda pediu a presença do Exército durante a realização dos Jogos. Não contente com isso, ainda fez uma viagem a Colômbia, país reconhecidamente violador de direitos humanos, para "aprender" como eles combatem o tráfico de drogas em Bogotá.

As operações da Polícia Militar, longe de estar diminuindo o tráfico de drogas e armas, só tem causado terror e mortes. É o que diz os dados do próprio Instituto de Segurança Pública do Rio, órgão ligado a Secretaria de Segurança do Estado. Enquanto o número de apreensões de drogas e armas diminuiu, o número de policiais mortos e de autos de resistência (nome dado aos casos de vítimas dos policiais) aumentou sensivelmente. Até mesmo o número de prisões diminuiu. Isto pode indicar o quanto as operações da Polícia Militar estão com ordens de atirar para matar.

Movimentos como a Campanha Contra o Caveirão e a Rede de Comunidades e Movimentos contra a Violência não tem deixado cair no esquecimento esta política de extermínio dos pobres promovida pelo governo do Estado. Em março, foi realizada uma Plenária da Campanha contra o Caveirão, que procurou ampliar a Campanha, envolvendo mais movimentos e grupos. A Plenária já está dando resultados, com atividades da comissão de comunicação, que está realizando um vídeo e vinhetas para rádios livres e comunitárias, e a ampliação da Campanha, com a formação de núcleos descentralizados, procurando envolver mais gente.

A Rede Contra a Violência lançou um documento sobre as políticas de segurança públicas envolvidas no Panamericano. Este documento foi lançado também na Europa, na ocasião das manifestações contra a reunião dos oito países mais ricos do mundo, o G8 (veja fotos). Depois das manifestações, um companheiro e uma companheira continuaram ainda na Europa, divulgando o documento e realizando atividades que denunciem a política de extermínio e terror aos pobres instaurada no Rio de Janeiro.

Como se a situação já não fosse trágica o suficiente, durante os Jogos o Rio de Janeiro estará sob estado de exceção. Isso significa que nenhuma manifestação pública poderá ser feita sem o aval da Agência Brasileira de Inteligência (Abin) e da Senasp (Secretaria Nacional de Segurança Pública). Além disso, agentes secretos de diversos países (incluindo a CIA, dos Estados Unidos) estarão auxiliando nesta tarefa. A própria Abin afirmou que organizadores "profissionais" de manifestações podem ser monitorados todo o tempo.

O presidente Lula chegou a afirmar que o que está sendo aplicado no Rio de Janeiro pode servir de modelo para a aplicação em outras cidades do Brasil. O que nos resta, então, é não deixar que este "modelo" se espalhe, e reverter o quadro que está se instalando no Rio.