Campo Grande-MS, 18/07/2007 - Peço desculpas pela utilização do termo chulo no título. Não costumo usar palavras deste tipo nos textos que escrevo mas, hoje, como exceção, me vi obrigado a ser um pouco mais agressivo do que de costume, inclusive comigo mesmo: ?SOMOS UM POVINHO DE M E R D A?.

O acidente com o avião da TAM, com mais de 200 vítimas, em Congonhas, nos leva à conclusão de que os administradores que escolhemos, os governantes que conservamos no poder tudo podem, tudo fazem porque restamos inertes, congelados, aceitamos qualquer coisa.

Dez meses atrás ocorreu o maior desastre aéreo no Brasil. Investigações, prisão de pilotos estrangeiros, reclamação de operadores de vôo, insegurança do Presidente que, primeiramente, ficou do lado dos operadores, depois, pressionado pelos comandos militares, ?virou a casaca? e ficou contra os operadores, ?apagão aéreo?, ameaça de CPI, o diabo. Mas nada atingia o ?Teflon?, nada ?gruda? no Chefe Maior porque temos vergonha de admitir que escolhemos um porcaria para dirigir nossa ?Casa?.

E a vida continua. O sistema de controle do trafego aéreo não funciona, os vôos atrasam, os operadores de vôo gritam dizendo que vão se revoltar, o sistema é considerado arcaico, as pistas de pouso e decolagem são dadas como impróprias para as novas aeronaves (mais rápidas e mais pesadas) porem ninguém assume nenhuma responsabilidade. Os pilotos, devido à crise de emprego, aceitam voar de qualquer maneira pondo em risco suas vidas e de centenas de passageiros. O sindicato dos aeronautas nada reclama para evitar ?problemas? com seus filiados. O Planalto, que se mostrou imprestável para tudo, descobriu a forma de resolver todas as demandas: a ameaça.

Quando uma montadora de automóveis resolve aproveitar uma expressão ridícula de uma Ministra mais ridícula ainda ? a Exma. Sra. Relaxando e Gozando ? a Presidência da República pede para ?tirar do ar? a propaganda. E, pasmem, a seção responsável pela propaganda da empresa automobilística faz a vontade do Presidente porque, na verdade, ninguém quer brigar com alguém que, ao ficar nervoso e ser contrariado, usa de todos os métodos baixos conhecidos para prejudicar seu oponente (vide o caso do repórter do New York Times, o Jabor, o Boris Casoy e outros casos).

Em determinado momento alguém identifica como um dos problemas aeronáuticos a pista do aeroporto de Congonhas que produz aquaplanagem quando em dias de chuva. Resolvem consertar a pista. Gastam milhões de reais. Antes de terminar totalmente a obra, para agradar ao Presidente (da República, da Infraero, do diabo que o carregue...) a pista é liberada. Com a primeira chuva um avião de pequeno porte (da empresa Pantanal) derrapa e acaba no canteiro, sem vítimas. A imagem passa em todos os canais de televisão, os presidentes tomam conhecimento (também o Ministro da Aeronáutica, da Justiça, da ?tonga da mironga do cabuletê?) ? demonstração inequívoca de que a pista não está em condições de uso e tráfego.

Deus, que é brasileiro, mandou um recado. Mas ninguém quer ver, quer ouvir e, na verdade, todos nós temos medo de falar. Só conseguimos nos expressar ?em multidão? quando não seremos identificados. Aí vaiamos. Mas ?de cara limpa? o brasileiro é covarde e diz amém a tudo e a todos (a todos que mandam alguma coisa neste País).

No dia seguinte, a tragédia. Ninguém quis ouvir Deus. Foi batido o recorde anterior mas, como estamos em época de PAN, ainda será capaz de alguém imaginar a hipótese de dar uma medalha de ouro para o Lula, prata para o Ministro da Aeronáutica e bronze para o responsável pela Infraero ? todos foram vencedores, conseguiram o intento, ganharam o direito ao pódio.

E quem são os perdedores desta competição macabra? Os parentes das vítimas que serão obrigados a viver e conviver com a realidade: nada fizeram, não agiram e perderam pais, filhos, mães, irmãos, entes queridos.

Enquanto isso nós, que não tivemos nenhum parente neste vôo, vamos esperando nossa vez quando algum amigo, pessoa da família morrer nas estradas esburacadas, nas enchentes urbanas, por alguma bala perdida ou outro fator qualquer que venha a ocorrer por inércia do Governo. Aí vamos chorar, reclamar na frente das câmeras, rezar o Pai Nosso no enterro e enfiar para baixo da terra o caixão com a vítima do sistema, devidamente coberta com a bandeira do Brasil e/ou do time de futebol amado. Mas fazer alguma coisa nem pensar ? só ?relaxar e gozar?.

E afinal, somos ou não somos UM POVINHO DE M E R D A?