Modelo editorial colaborativo

O modelo editorial colaborativo é uma forma coletiva de fazer e distribuir livros, dentro da lógica de cooperação mútua.

Índice

* 1 Editoras convencionais
* 2 Modelo editorial colaborativo
* 3 Confecção artesanal de livros
* 4 Vantagens de um modelo distribuído
* 5 Sugestões de funcionamento
* 6 Direitos autorais
* 7 Ver também
* 8 Assuntos relacionados
* 9 Mais informações

Editoras convencionais

A função de uma editora é confeccionar o livro-objeto e distribuí-lo aos possíveis leitores. Usando um modelo de negócios que se baseia na produção em massa de um mesmo objeto, as editoras normalmente fazem livros em tiragens de até 30 mil exemplares. Não é lucrativo optar por tiragens muito baixas, já que as editoras usam métodos de Impressão offset, cujos custos só tornam-se viáveis a partir de 200 unidades.

Acontece que o livro não é um bem de aceitação previsível, no que é comum as editoras terem prejuízos razoáveis com devoluções, já que a maioria das compras são feitas em regime de consignação. Desta forma, os autores desconhecidos são deixados de lado, em prol dos já consagrados (que possuem mais chances de sucesso nas vendas, pois possuem público cativo), além do que as perdas com os títulos de aceitação ruim são repartidos entre os de melhores vendagens, elevando os preços de todos.

Dentre as muitas conseqüências deste tipo de modelo podem ser mencionadas:

* Dificuldades de acesso dos autores desconhecidos ao mercado, pela relutância das editoras em arriscar um nome novo e pelo custo alto de publicação independente.
* Alto custo dos livros como um todo, chegando a ser proibitivo.
* Pouca personalização do produto acabado.
* Conteúdo generalizado, que não foca as necessidades reais do leitor, mas as características comuns de um grupo muito grande de pessoas.

No entanto, confeccionar um livro em casa é tão simples e barato que não precisamos de indústrias para fazê-lo com qualidade. Se unirmos pessoas que sabem fazer livros, distribuídas geograficamente, podemos fazer tudo o que uma editora faz e ainda conseguir muitas vantagens, como inclusão social e conteúdo personalizado.

Modelo editorial colaborativo

Partindo do pressuposto de que existam pessoas espalhadas pelo país que sabem encadernar, e que existam escritores interessados em público, a única coisa que devemos fazer é criar uma forma de intercâmbio entre estas pessoas, e se possível entre elas e os leitores.

Uma editora colaborativa é um conceito, não uma instituição. Assim, não existe apenas uma única forma de associar-se para fazê-la existir. A idéia básica é que os escritores criem conteúdo, repassem para os encadernadores, e estes, confeccionando o livro-objeto de forma artesanal o enviam ao leitor. Basta então criar a estrutura que permitirá esta união, ou seja, o elo que permitirá:

* Que o leitor possa solicitar os livros que quer ler, pagando um preço justo por ele.

* Que o encadernador tenha acesso À obra do autor, de forma que possa imprimi-la e enviá-la ao leitor, recebendo sua parte pelo trabalho exercido.

* Que autor e encadernador possam criar uma relação sadia de cooperação, onde o autor escreve e envia seus livros para os encadernadores, e recebe sua parte a título de direitos autorais.

O processo é simples: o cliente solicita o livro, o encadernador o recebe no formato bruto do autor, imprime, encaderna e envia ao leitor. O leitor paga, e o montante é então repartido entre autor e encadernador.

Confecção artesanal de livros

A encadernação de um livro, no formato tradicional, pode ser feita simplesmente prendendo as folhas e passando cola. O material pode ser impresso por computador em impressoras laser (melhor resultado), ou simplesmente a partir de cópias "xerox" de um original (pior resultado). As processadores de texto tradicionais, como OpenOffice.org e Microsoft Word estão preparadas para fazer o trabalho de editoração no computador, sem maiores problemas. O procedimento é simples:

1) O autor cria o conteúdo

2) O texto é digitado (digitalizado se for imagem) e arrumado via processador de texto

3) O material é impresso em impressora laser ou jato de tinta

4) As folhas são cortadas, via tesoura (pior resultado), estilete e régua (resultado razoável, mas não use mais que dez folhas por vez) ou guilhotina (excelente)

5) As páginas são coladas com cola comum (preferível cola quente)

6) A capa é colada no conjunto

O custo é acessível o maquinário varia de uma tesoura (cópias via "xerox") a um computador com impressora laser (cujo custo está ficando cada vez mais acessível). O mais importante é que neste método o custo por exemplar é "plano", ou seja, tanto faz um ou um milhão de exemplares, que o custo final é o mesmo. Desta forma,pode-se criar livro a livro, dando margem para extrema personalização do material.

Vantagens de um modelo distribuído

Já que os livros são feitos um a um, existem diversas vantagens neste modelo:

* Não há necessidade de estoque, e não há risco de encalhe, pois a produção pode ser feita por demanda.

* Alta personalização do exemplar, podendo inclusive o conteúdo ser personalizado.

* Investimento pequeno.

* Já que o risco é baixo (só fabrica o que será vendido) o custo torna-se acessível para qualquer um, ou seja: livros mais baratos para o consumidor.

* Modelo mais inclusivo de produção do material.

* Os participantes estão junto da comunidade (moram onde comercializam), fazem parte dela e sabem quais suas necessidades, podendo supri-la em termos de informação.

Sugestões de funcionamento

* Catálogos: produza um catálogo com as obras dos autores. Deve conter no mínimo o título da obra, o nome do autor, uma breve descrição e o telefone de contato. Em anexo segue uma lista de encadernadores, contendo os preços de encadernação por página, os preços das capas, formas de pagamento, contato, área que atende. Uma breve descrição de como funciona o serviço pode ser acrescentada, para que os leitores não tenham dúvidas de como comprar.

* Feiras: um exemplar de cada livro é exposto em banca ou stands, ou em cartazes afixados pelo local. O leitor escolhe o livro e ali mesmo fecha as negociações. A forma de encontrar os encadernadores deve ser acertada previamente, e pode ser através de indicação do autor, em um local específico da feira ou outro. Importante que o processo seja o mais rápido e desburocratizado possível, para que o cliente não fique chateado com o atendimento.

* Internet: um site de comércio eletrônico, contendo um espaço para contatar o autor e um espaço para contatar os encadernadores. Opcionalmente, um espaço para publicação de e-book. É necessário uma ferramenta de busca de obras e de encadernadores. O cliente simplesmente acessa a página, usa a ferramenta de busca para encontrar o livro, e depois para encontrar os encadernadores mais próximos de sua residência. Os negócios podem se consolidar por e-mail ou através de ferramentas disponíveis no site. A entrega é feita por correios ou outro sistema de entregas qualquer.

* Trocas: Os autores trocam obras entre si e vendem cada qual a obra do outro em sua região, em um sistema cooperativo. Os pagamentos dos direitos autorais são acertados previamente entre as partes.

* Associação formal: Os autores institucionalizam uma parceria formando uma ong, associação ou cooperativa, e negociam através desta com pontos de venda a distribuição do livro, podendo ou não criar um selo próprio.

Direitos autorais

É fato que a tecnologia evolui, mas as formas de interagir com ela não acompanham esta evolução; um modelo novo requer novas formas de uso, que tendem a surgir com o tempo. Dentro da perspectiva de distribuição coletiva os mecanismos tradicionais de proteção e licenciamento de direitos autorais não são eficientes, porque foram criados para funcionar em um contexto de editoras tradicionais. A tradição nos ensina a criar e utilizar meios de controle a fim de assegurar interesses. No entanto, quando tratamos de modelos com alta independência entre si, distribuídos geograficamente em uma área abrangente, as formas tradicionais tornam-se custosas, quando não impossíveis. Não é tão fácil fiscalizar o que um encadernador está fazendo quando se encontra a kilômetros de distância do autor. Ao invés disto, é aconselhável utilizar novas técnicas de licenciamento ou novas estruturas de arrecadação.

O Software livre nos presenteou com um modelo de trabalho coletivo revolucionário ao permitir que pessoas com mentalidades diferentes trabalhassem juntas, quando ao mesmo tempo garantia a manutenção dos interesses individuais e protegia a resultante contra apropriação indevida. A partir de então toda a produção intelectual pôde ficar a disposição da humanidade, sem correr o risco de tornar-se novamente propriedade privada. Isto significou a radicalização do conceito de Domínio público, e elevou o trabalho a um outro estágio de coletividade.

Produtos criados sob a lógica de livre distribuição e comércio(como as licenciadas sob GNU-FDL ou algumas variações da Creative Commons) não necessitam de estruturas que protejam os direitos autorais.

Há no entanto um grupo significativo de autores que preferem ganhar pelo seu trabalho, no mínimo quando o uso da obra envolve algum tipo de lucro. É o caso por exemplo dos autores que licenciam em copyright (qualquer cópia requer autorização e pagamento ao autor, independente do objetivo) e no copyleft tradicional (onde o usuário pode copiar sem pedir autorização ao autor, desde que sem fins lucrativos). Nestes casos, é necessário criar novas formas de ganhar pela obra ou fontes arrecadadoras que garantam o pagamento dos direitos autorais e fiscalizem o uso da obra em uma determinada área geográfica.

Uma saída para o autor não precisar se preocupar com a quantidade de cópias seria licenciar suas obras baseando-se nos modelos de franquia: a licença é concedida a um valor fixo por período (tarifa plana, independente da quantidade de vendas) para um grupo seleto de parceiros, que detêm exclusividade de comércio para uma determinada área geográfica. Isto permite a cobrança de taxas e facilita a fiscalização, uma vez que apenas poucas empresas ou indivíduos terão direitos de comercializar os trabalhos. Estes, por sua vez, fazem o policiamento da obra dentro de suas áreas, e trabalham para inibir o uso não autorizado.

Nos casos em que o autor prefere cobrar pelo livro vendido uma sujestão é utilizar as instituições que representam a classe, como associações de autores e academias de letras dos municípios. O modelo de funcionamento geral seria assim:

1. A entidade de classe age como fonte arrecadadora, e se responsabiliza por fiscalizar o uso das obras dentro de sua área de atuação.
2. O autor fecha contrato com a entidade, e a entidade licencia a obra para os encadernadores.
3. A entidade arrecadadora utiliza uma marca nos livros, que pode ser um selo de autenticidade ou nos casos mais simples um carimbo com assinatura na folha de rosto. Nenhum encadernador poderá imprimir um livro licenciado para a entidade sem que exista uma marca indicando a permissão (obviamente, os livros que não estão licenciados a entidade não se aplicam a esta regra).
4. Quando houver solicitação do cliente, o encadernador solicita a entidade arrecadadora uma quantidade de livros e recebe a marca (selo de autenticidade ou outro) para cada um deles. Os direitos autorais são pagos no ato e a entidade repassa os valores conforme acertado com o autor.
5. O encadernador então poderá imprimir e comercializar os livros, inserindo a marca de autenticidade para comprovar que os direitos do autor foram pagos.

A vantagem deste tipo de estrutura é que é descentralizada, e pode inclusive policiar o uso da obra em outras instâncias, como por exemplo exigindo a inscrição "DISTRIBUIÇÃO GRATUITA" para obras em copyleft que não tenham fim comercial, coibindo modificações em obras livres mas com esta restrição etc. Outra vantagem é que autores de qualquer lugar do país podem ter uma forma confiável de negociar seus livros, com total liberdade de escolher a licensa de uso, tendo a garantia de que receberão os valores devidos sem prejudicar os direitos de livre cópia e/ou comércio quando for o caso.

Veja aqui como fazer um livro artesanal capaz de competir com os das editoras tradicionais:

 http://www.youtube.com/watch?v=yqTbKBeiKpM

Mais informações, mail-me:  anarcovirus@ig.com.br