Em 1778, quando o Brasil ainda era uma colônia, o padre Manuel Ribeiro Rocha publicou ?Etíope resgatado, empenhado, sustentado, corrigido, instruído e libertado?, um dos primeiros registros em livro dois dos maiores mitos sobre a escravidão: 1) O ?mito da escravidão benevolente?, que dizia ser o Brasil um lugar de escravidão ?light?, onde cativos seriam relativamente bem tratados e 2) o ?mito da escravidão redentora?, que, complementando o mito anterior, alegava ser o tráfico negreiro um ?resgate? dos africanos de seu ?bárbaro continente? e sua ?escravidão do diabo?, para serem educados em uma nova terra civilizada, com Justiça e religião cristã. O impressionante é que muito desses discursos apologéticos pró-escravistas vem sendo ainda repetidos por algumas pessoas e inclusive historiadores dos dias atuais.

O imenso continente africano possui uma vasta e complexa história. Com base nos conhecimentos científicos atuais, sabemos que a África é o berço da raça humana, onde foram encontrados os fósseis humanos mais antigos. Grupos multiétnicos conviveram naquele continente há milênios. O fato de sua população ser majoritariamente de cor negra quando da chegada dos portugueses na região não a homogeneíza em relação à cultura, linguagem, costumes, organização social, etc. A África deve ser entendida como um continente repleto de diferentes etnias e nações e não com apenas uma.

Em sua diversidade, havia ali os mais variados povos, desde aqueles que viviam da coleta, caça, pesca, pastoreio, nomadismo, do artesanato, etc., aos mais ostentosos reinos agrários, como o do Kongo, ao sul do rio Zaire. No século 16, o império de Songaí estendia-se do litoral do atual Senegal aos territórios do Níger, controlando um rico comércio internacional. No Sudão, Tombuctu se destacava como uma de suas principais cidades, possuindo bibliotecas e escolas nas quais viajantes vinham de várias partes do continente ou mesmo do exterior para estudar ou lecionar o Alcorão. Conheciam a metalurgia há mais de dois mil anos, trabalhavam o cobre, o couro, a madeira, o marfim, a argila, o sal, o vinho, etc. Algumas de suas atividades artesanais eram orientadas para fins comerciais, pois os excedentes não consumidos localmente permitiam praticas mercantis regionais e internacionais.

O Kongo se tornou um dos mais fortes desses reinos. Seu poder e influência estendiam-se sobre as demais províncias. Sua moeda era o nzimbo, um caramujo encontrado apenas nas águas de Luanda, uma unidade de valor tão forte e difundida que os portugueses só a conseguiriam substituir no séc. 18. A liderança política central nomeava as lideranças distritais, tornando-os seus conselheiros e representantes locais. Mas o rei, denominado manikongo, não transmitia hereditariamente seu poder. Todos os vários descendentes masculinos do fundador de uma dinastia tinham direito a tal posto. Os pretendentes eram escolhidos por um colégio de eleitores, mas, obviamente, o poder era assumido por quem dispusesse melhor da força das armas, como em muitos outros lugares do mundo.

Havia uma hierarquia social, exploradores e explorados, e até formas de escravidão na África antes da chegada do europeu. E escravidão é escravidão, a forma mais brutal de exploração que a humanidade já conheceu, não importando onde e como se deu (e em alguns lugares ainda se dá). Porém, a escravidão na África não pode ser confundida com aquela que os afro-brasileiros conheceram nas Américas ou no Brasil. Na África, o cativeiro era situação restrita a poucos indivíduos, uma atividade marginal e de pouca importância social ou econômica. Cativos africanos não eram vistos como coisa ou tratados como os únicos destinados ao trabalho em suas aldeias. Trabalhavam lado a lado com os demais membros das famílias que os incorporavam. Não representavam a base de uma pirâmide social rígida. A escravidão africana não era uma atividade institucionalizada sob um modo de produção divisor de classes sociais distintas. Cativo africano possuía status social subalternizado, porém mutável. Não podia ser vendido, a não ser em casos extraordinários. Participava efetivamente de seu grupo familiar. O excedente por ele produzido era delimitado consuetudinariamente. Sua condição não era transmitida hereditariamente ad eternum. Em duas ou três gerações, seus descendentes evoluíam à cidadania plena, em igualdade aos demais descendentes de seu escravizador. Uma ou mais famílias extensas constituíam uma comunidade aldeã de agricultores e artesãos. Diversas aldeias podiam formar uma pequena chefia, e esta o embrião de um Estado de pequeno, médio ou grande porte, onde até mesmo um outrora filho ou neto de cativo podia se tornar uma liderança política respeitada.

Um novo capítulo se abriu para a história da África quando em 1482 o manikongo Nzinga Kavu foi informado de que estranhas naves se aproximavam do porto do Zaire. Eram as embarcações de Diogo Cão, procurando estabelecer entrepostos marítimos para o rico comércio das Índias. Eram os primeiros europeus a trazer as mais exóticas mercadorias e as oferecer em troca dos produtos locais. Também passaram a exigir homens e mulheres para levar em seus navios cada vez mais constantes e abarrotados. É certo que antes da chegada dos portugueses já existia também um (raquítico) tráfico de africanos escravizados aos reinos árabes e ao Mediterrâneo. Mas o comércio de carne humana em proporções jamais conhecidas na África foi introduzido por nações mercantilistas européias como Holanda, França, Inglaterra e sobretudo Portugal, sendo responsável por interferência e transformação radicais no mais que milenar processo histórico pelo qual vinham passando aqueles povos.

Não se sabe ao certo quantos cativos teriam sido trazidos para as Américas. Se aceita hoje algo entre 13 e 14 milhões. Em números redondos, estima-se ter chegado à América espanhola cerca de 2,5 milhões. Na Anglo-América, 500 mil. No Caribe britânico, 2 milhões. No francês, 1,6 milhão. No holandês, 500 mil. No minúsculo Caribe dinamarquês, 28 mil. Na Europa, incluindo Portugal, Açores, Ilhas Canárias, etc., 200 mil. No Brasil, a maior colônia escravista do mundo moderno, 5 ou 6 milhões. Tamanha foi a brutalidade do tráfico, o desespero e resistência do africano diante dele que, em todo seu processo de captura, submissão, deslocamento do interior ao litoral, adestramento violento e travessia nos horríveis navios negreiros, que estima-se terem morrido no mínimo três africanos para cada um que na América desembarcou.

E eles não vieram às colônias escravistas para serem educados, civilizados e conhecer a ?verdadeira? religião, mas sim para trabalhar do nascer ao pôr-do-sol, transformados de belos e fortes homens e mulheres africanos em trapos humanos.

Hemerson Ferreira, Professor Mestre em História.  hemersonfer@bol.com.br