A comunidade de Mazatlán Villa de Flores é a cabeceira do município de mesmo nome, o que significa que sedia os poderes políticos e administrativos do município. Localizada a 1200 metros acima do nível do mar e protegida do frio por uma longa e imponente cadeia de montanhas (Serra Norte Oaxaqueña), a vila abriga também os encontros regulares (geralmente, a cada oito dias) da Assembléia Comunitária, composta por líderes indígenas das 64 comunidades que compõem o município.
Trata-se, portanto, de uma região relativamente isolada, de onde viaja-se pelo menos 3 horas atravessando montanhas para se chegar ao centro urbano mais próximo. Contudo, o isolamento nao é apenas geográfico, como também político e cultural. Historicamente, os poderes estatal e federal fingem nao ver as necessidades desse povo de origen mazateca, cuja língua, tradições e visão de mundo próprias o estigmatizaram diante do domínio colonizador. Desse modo, como tem ocorrido com todos os povos originários mundo afora, a homogeneização lingüística e cultural imposta pelos Estados modernos destrói ou marginaliza populações singulares em seu modo de vida.
Mazatlán não é exceção nesse contexto. Um exemplo claro do choque entre organizações sócio-políticas tão distintas se dá, como dissemos, no campo da política. O povo mazateco tradicionalmente organiza sua sociabilidade por meio dos "usos e costumes" - ou, para usar uma expressao mais atual e políticamente correta, pela normatividade dos povos originários. Isso significa que suas autoridades são eleitas a partir de deliberações da Assembléia Comunitária, que conta hoje com aproximadamente 300 pessoas. Tais autoridades geralmente não pertecem a partidos políticos, governam por tres anos não renováveis, devem pertencer ao povo mazateco, etc. Entre suas principias atribuições estão o cumprimento dos compromissos assumidos com a Assembléia Comunitária - ou seja, honrar com a palavra dada - reivindicar recursos e melhorias junto aos demais poderes constituídos da Nação e organizar e fortalecer os lacos de solidariedade comunitária, entre eles o servico do TEQUIO, isto é, a prestação, mensal ou semanal, conforme o caso ou necessidade, de algum tipo de serviço à comunidade.
A política oficial atua de maneiras diversas contra esse tipo de organização tradicional. A mais visível se dá através da "infiltração" de atores ligados às estruturas burocráticas estatais (sistema de partidos) impondo, por exemplo, que todos os candidatos devem pertencer a um partido político. Porém, a forma menos visível de dominação política e, por isso mesmo, talvez a mais poderosa, se dá por meio da oferta de servicos públicos estatais, sobretudo por meio da educação. Os profesores mazatecos, formados em instituições educacionais mexicanas localizadas em grandes centros urbanos, adquirem e assumem como seus diversos valores da cultura ocidental, em geral conflitantes com a visão de mundo indígena. Entre eles, podemos citar a valorização unilateral do espanhol e o desprezo pelas "línguas menores", ou seja, as línguas dos povos originários. A doutrinação é tao forte, que muitos jovens mazatecos não falam mais o idioma, ou mesmo tem vergonha dele.
Nao é demais lembrar que a língua nao é apenas um conjunto de palavras, destinada a nominar as coisas e seres ao nosso redor. Mais que isso, expressa visões de mundo que constituem o "mundo da vida" (para usar um termo habermasiano), ou seja, o nao expresso de cada palavra.
Pois é nesse contexto de perda da identidade mazateca que surge, em Janeiro de 2003, a Rádio Nnandia, palavra que poderia ser aproximada ao nosso sentido de "um lugar onde nos reunimos". Era, então, uma experiencia de rádio livre, para a qual inexistia uma permissão de funcionamento expedida pela Secretaria de Comunicações e Transportes do México. A idéia surgiu em agosto de 2002 como produto de um projeto comunitário educacional de construção de um Bachillerato (relativo ao nosso ensino médio) em Mazatlán, não só para que os jovens nao precisassem sair de sua comunidade para continuar com seus estudos, como para que pudessem desenvolver conhecimentos ligados à vida no campo (habilidades técnicas em agricultura, melhoria de cultivos, ecologia, etc.).
Neste sentido, a rádio foi a idéia encontrada pela comunidade para que os estudantes pusessem imediatamente em prática os conhecimentos adquiridos e, por outro lado, tivessem um canal de difusao desse benefícios para o povo, constituindo assim uma conexao direta entre ensino e prática social. Ocorre que durante o primeiro tempo de seu funcionamento, a rádio foi adquirindo proporções maiores que estrapolavam os limites do projeto educacional originário: pessoas de outras comunidades corriam à radio para mandar recados, divulgar a perda de algum animal, anunciar eventos comunitários, etc.
Foi em 2006, porém, que a rádio começou a representar um verdadeiro perigo para os poderes dominantes do Estado de Oaxaca. Em uma primeira ocasião, durante o pleito eleitoral nacional de junho de 2006, os condutores e condutoras de Nnandia começaram a explicar, em mazateco, as propostas de campanha de cada candidato. O resultado foi que, pela primeira vez em muitos anos, o PRI - Partido Revolucionário Institucional - perdeu as eleições em Mazatlán para o candidato de oposição, ou seja, do PRD - Partido da Revolução Democrática. Isso quer dizer que desta vez boa parte da população que não compreende bem o espanhol pôde entender, comparar e avaliar as diferentes propostas políticas em disputa e, a partir disso, dar ser voto com consciência. Em um segundo momento, a partir de 14 de junho de 2006, a rádio começa a retransmitir, em tempo real, os fortes acontecimentos que se desenrolavam na capital do Estado de Oaxaca, com os enfrentamentos entre o Governo de Ulises Ruiz - PRI - e a APPO - Assembléia Popular dos Povos de Oaxaca -, que resultou em muita violência, prisões arbitrárias, perseguições e 26 mortes.
Assim, o que significou o rompimento do isolamento informativo da região, converteu-se também em pretexto para que as forcas governamentais, através de seus "testas de ferro" locais, tomassem e fechassem a rádio, sob um pretexto juridico qualquer ? nesse caso, o fato de Nnandia não possuir a autorização para que a comunidade se apropriasse desse bem coletivo que é o ar. Por razões estratégicas, a Assembléia Comunitária resolveu nao reagir às provocações dos invasores, o que significa, não responder com igual violencia à tomada da rádio. O conflito tomou o caminho legal, de modo que a pendência segue na Justica.
Passados um ano e seis meses do fechamento da rádio, Nnandia renasceu no dia 23 de fevereiro de 2008, após um intenso trabalho dos líderes comunitários em conseguir recursos econômicos e situação jurídica segura, no sentido de fechar toda e qualquer brecha que pudesse ser eventualmente usada pela "tropa de choque priista", como é conhecida pelos mesmos. Este esforco foi realizado junto a AMARC - Associação Mundial de Rádios Comunitárias - e a RRCM-AC - Rede de Rádios Comunitárias do México - Associacao Civil - em um movimento de institucionalização ou legalização como rádio comunitária, bem como de fortalecimento político garantido pelo prestigio mundial da AMARC.
Hôje, a experiencia de caminhar pelas ruas de Mazatlán significa a oportunidade de vivenciar um pouco do orgulho do povo em ter sua própria rádio, em escutar sua língua originária em um espaço aberto de comunicação. Muitos homens e mulheres do campo "sentem-se importantes" ao serem saudados, alguns nominalmente, pelos locutores e locutoras de Nnandia. Outros correm até o local provisório de transmissão ? Comunidade Rancho Nuevo - para pedir canções e mandar recados para compadres e comadres, em mazateco e/ou espanhol.
Mais que resgate do orgullo e da auto-estima, os mazatecos vivenciam um processo de reencontro com sua identidade, ao mesmo tempo em que se lancam ao desenvolvimento de sua formacao politica popular, como podemos perceber na fala de um dos principias idealizadores e voluntários da rádio, Melquíades Rosas Blanco:
"A rádio tem nos ajudado a reinventar conceitos, ou melhor, a recolocá-los (com relação ao espanhol). Por exemplo, a palavra governo, em mazateco, remete a algo sagrado: chacun. A rádio, porém, diz: não, o governo nao é sagrado, é um servidor público... Entao, a rádio serve para ajudar a frear os processos de colonização, que seguem ocorrendo no México contra os povos indígenas, sobretudo através do instrumento de homogeneização, que é a educação."


