Anotações sobre a inauguração de uma ponte.

A inauguração da Ponte Espraida, ou Ponte Otavio Frias Filho, em São Paulo aconteceu no último sábado em São Paulo em meio a protestos.

A inauguração da ponte sobre o rio Pinheiros, na zona sul de São Paulo, foi marcada por protestos. É que a ponte, apesar de ser muito imponente e sofisticada, traz na sua construção a marca classista da elite paulistana que, com seu poder de influenciar os órgãos públicos, dita como deve ser a cara da cidade.

Aparentemente inaugurar uma ponte não é nada de mais e talvez seja por isto que uma massa de populares deslumbrados com a grandiosidade da construção tenha ido prestigiar as autoridades presentes. Autoridades como o governador José Serra, o prefeito Gilberto Kassab, o representante da igreja católica, o Padre Marcelo Rossi e o Senador Eduardo Suplicy, quem sempre educado cedeu entrevistas a todos. Deste ultimo há de ser questionada a postura, pois muitas vezes demonstrou sua preocupação com a população excluída das cidades e do país inteiro e aparece num evento tão elitizado, não para protestar, mais para marcar presença. Bem, a política tem seus segredos e julgar aqui seria talvez cometer uma injustiça.

Algumas das performances que movem as autoridades públicas precisam ser pontuadas. A primeira é a postura midíatica que, neste caso, rodeia a inauguração da ponte com sua grandiosidade, a segunda é o próprio nome dado à ponte, Otavio Frias Filho, proprietário da Folha de São Paulo falecido recentemente. Esses dois itens que fazem a junção dos órgãos públicos com a grande imprensa, que parece andar de mãos dadas em prol de um projeto desenvolvimentista e que coloca a massa da população a mercê de projetos de poucos empresários, empreiteiras e políticos corruptos.

Voltando aos protestos da inauguração da ponte, o que chama a atenção é ver a população anestesiada ao redor dos políticos situacionistas e do fascínio ao que um projeto arquitetônico remete. Por tanto, a atitude de poucos ao protestar parece ser uma saída para dizer que as grandes obras arquitetônicas não são lugar para o abrigo de todos, basta olharmos do lado da ponte e ver a favela que foi empurrada e por pouco extinta, deixando famílias sem teto e mais, sem cidade. Esta massa de pessoas que assistem, aceitando passivamente o discurso empolgado do prefeito Gilberto Kassab, sabe que a cidade não é de todos. Os desprovidos de uma consciência crítica não vêm que e a cidade desde sua origem tem a cerne da divisão clara e desproporcional entre ricos e pobres. Uma vantagem não pode ser retirada do projeto arquitetônico da ponte espraiada, como também se chama esse monumento à segregação: dela podemos ver, desde o alto a separação da favela e dos empreendimentos imobiliários de alto padrão.

Isaumir Nascimento