Como já citei, o mito da caverna foi uma metáfora que Platão utilizou para demonstrar em seu diálogo, através de Sócrates, o quanto os cidadãos estavam presos às crendices e superstições. Sinteticamente ? e reelaborando ? o mito conta que haviam três homens dentro de uma caverna. Ambos estavam virados para o fundo dela. Nasceram e cresceram assim. Ficavam contemplando a escuridão e apenas um feche de luz lhes era possível enxergar. Contudo, certo dia, um destes, voltou-se para o outro lado e quase que cegado pela claridade vista lá do fundo, foi acostumando seus olhos até que conseguira, aos poucos, sair da caverna. Vislumbrado com tantas cores, com a natureza e a quantidade de coisas diferentes que havia fora da caverna, voltou para contar aos seus amigos. Mas, ambos não acreditaram nele e revoltos com tanta mentira, o mataram!
Platão divide o mundo em duas realidades: a sensível, que se percebe através dos sentidos e a inteligível (ou mundo das idéias). O mundo dos conceitos é onde está toda a verdade e o mundo sensível é apenas uma cópia imperfeita dele. O Bem é a verdade maior e abaixo dele estão as verdades absolutas, fixas, eternas e imutáveis. Para ele, as cadeiras, por exemplo, que sentamos diariamente, são apenas cópias imperfeitas Da Cadeira. Ou seja, apesar de todos os modelos de cadeiras do mundo apresentarem diferenças, existe a cadeira, que congrega em si as características das quais foram copiadas as cadeiras sensíveis. E é assim com tudo o que percebemos no mundo.
É perfeitamente possível relacionar a filosofia platônica, sobretudo o mito da caverna com nossa realidade atual. Para constar, nossa sociedade contemporânea é constituída basicamente do cristianismo e do capitalismo, e o mundo, portanto, numa visão cristã, está dividido em mundo das idéias (céu) e mundo sensível (cotidiano) - o inferno cristão, que parece ter sido tirado da idéia de mundo sensível de Platão, veio depois, vamos desconsiderá-lo aqui -. E numa visão capitalista, o mundo das idéias, ou ideal, parece ser a satisfação de todas as necessidades financeiras e o mundo sensível, sua privação.
A partir desta leitura, posso fazer uma reflexão extremamente proveitosa. Apesar do cristianismo estar muito forte ainda hoje e ter muita influência, inclusive política e midiática, vou deixá-lo de lado também, afim de focar-me em nossa prioridade, no momento: o capitalismo x mídia.
Na verdade, a idéia que trarei de capitalismo seria mais apropriada se chamado de modernidade, pois não estarei me referindo apenas ao sistema financeiro, mas todas suas conseqüências e influências. Quando surgiu, o capitalismo se opôs radicalmente à Idade Média e propunha elevar a humanidade a um patamar superior, melhorá-la, dando acesso ao suprimento das necessidades básicas a todos os seres humanos. Mas, como bem sabemos, não foi o que aconteceu. Nunca houve tantas barbáries na história do ocidente, tampouco tanta exclusão social e degradação humana e do ambiente. Hoje, sei que se ele continuar desenvolvendo-se trará nossa extinção.
Todavia, grande parte das pessoas do mundo todo, não estão muito preocupadas com isso, ou sequer se deram conta do tamanho do problema para todos nós. Isso graças, em grande parte à mídia. Voltando à metáfora da caverna, o capitalismo utiliza-se dos grandes meios de comunicação para poder criar e perpetuar a caverna para a grande massa. De que forma? Uma das formas mais conhecidas é criando necessidades, tidas como essenciais e depois, vendendo suas soluções. Ou seja, hoje é necessidade básica ter computador com acesso à internet. Quem não o tem, está excluído da sociedade, de forma que até o emprego fica difícil conseguir e sendo assim, sem emprego, sem dinheiro pra poder sanar suas necessidades, indigno de participar do convívio social. E o que já não me surpreende é a relevância do mito, por exemplo: hoje existe muita informação denunciando a alienação que causam as novelas (e afins), criando realidades paralelas e preocupações alheias; sobre a forma que os políticos também se utilizam da mídia para esconder a usurpação do poder , as corrupções, etc. Mas, as pessoas, em geral, cotidianamente matam estas informações, escolhendo ainda o fundo da caverna. Será que por uma pré-disposição a serem enganadas? Por mero comodismo? Não nos é possível saber ainda. Talvez, com o capitalismo continuando a desenvolver-se, com ajuda da mídia, surgirá outra ou outras espécies (até advindas da nossa, quem sabe?) e que dirão: como aqueles humanos conseguiram ficar tanto tempo dentro da caverna?