Durante esses três dias, fomos acolhidos pelo Conselho Nacional de Seringueiros, pelo Comitê Chico Mendes, pela Central Única dos Trabalhadores (CUT), pela Federação dos Trabalhadores Rurais do Acre (FETACRE) e pelo Grupo de Trabalho da Amazônia, que compuseram o comitê local organizador do Seminário. Agradecemos aos governos e organizações não-governamentais que colaboraram com recursos para a infra-estrutura do Seminário. Foram três dias de muito debate, mesas esclarecedoras e elaboração coletiva.

No debate sobre a Amazônia, pudemos perceber toda a diversidade de experiências de luta em sua defesa e toda a riqueza desta região, submetida secularmente à espoliação de elites dominantes gananciosas e descompromissadas com nossos povos originários e as futuras gerações. Com certeza não demos conta de toda uma agenda amazônica ainda a ser criada a partir das lutas dos movimentos sociais, mas avançamos em vários elementos de compreensão da realidade e de ação comum.

Percebemos que essa agenda amazônica a partir dos movimentos sociais é urgente e necessária, para se contrapor à crescente depredação de nossos recursos naturais, à candente destruição de nossas florestas, ao avanço de mega-projetos ditos ?de desenvolvimento? com fortíssimos impactos ambientais e sociais negativos e aos sinais de pressão das grandes potências capitalistas sobre nosso subsolo, nossa biodiversidade, nossas terras, águas, territórios e nossas culturas.

Vimos também sinais de esperança de que essa realidade pode ser mudada, de que uma outra Amazônia e um outro mundo são possíveis com a luta dos nossos povos. Conhecemos experiências de mobilização e organização popular, de participação popular em políticas públicas inovadoras promovidas por governos comprometidos com os interesses dos povos da floresta, de novas formas de organização dos territórios, da economia e das comunidades locais. Estabelecemos um diálogo com governos progressistas do Brasil e da Bolívia, preservando a capacidade critica e a autonomia de nossos movimentos, com o mesmo afinco que combatemos o governo neoliberal do Peru e de estados e departamentos que assumem claramente posturas oficiais de militarização e criminalização dos movimentos sociais.

Identificamos quatro grandes áreas de prioridade para os Movimentos Sociais da região amazônica, que assumimos como compromissos para o futuro de nossas organizações:
1. Fortalecer a organização e a integração dos movimentos sociais na região amazônica, superando o atual quadro de fragmentação e isolamento, de modo a permitir uma maior participação dos movimentos no debate das grandes alternativas para a Amazônia;
2. Garantir a autonomia dos movimentos sociais em relação a governos e partidos;
3. Engajar todos os movimentos sociais na luta pelos direitos humanos individuais e coletivos na região amazônica, rejeitando a militarização e a criminalização dos movimentos e fortalecendo a solidariedade internacional com as vítimas destes processos;
4. Desenvolver esforços crescentes de formação política e qualificação técnica dos movimentos sociais da região, ampliando nossa comunicação a nível regional para a troca de experiências e estímulo à solidariedade.

No que diz respeito à relação dos movimentos sociais com os Governos da região amazônica (federais, estaduais ou departamentais e municipais), identificamos também quatro desafios e compromissos:
1. Lutar por crescente democracia participativa em nossos países e no plano regional, para que a participação popular, o controle social das políticas públicas e a transparência sejam características de todos os governos da região.
2. Lutar por um compromisso dos governos da região em integrar suas ações e órgãos nos planos nacional e internacional, para fortalecer o desenvolvimento sustentável, com prioridade para o fortalecimento das comunidades e do desenvolvimento local sustentável, canalizando para tanto recursos para financiamento de projetos sustentáveis, educação, desenvolvimento cientifico e tecnológico e defesa do conhecimento das comunidades tradicionais.
3. Lutar pela garantia do direito à terra e sua redistribuição, através de programas de reforma agrária, crédito e assistência para a agricultura familiar e extrativismo, defesa da biodiversidade dos diferentes territórios e regularização fundiária no campo e nas cidades.
4. Lutar contra as ameaças ambientais e sociais representadas pelas mudanças climáticas e por mega-projetos de infra-estrutura derivados de um modelo de desenvolvimento excludente e centralizado.

Chegamos à conclusão que é fundamental continuar o esforço de reflexão iniciado neste seminário, em particular no que diz respeito a sete grandes temas para as quais a elaboração dos movimentos sociais é fundamental na construção de uma agenda popular em defesa da Amazônia:
1. a região andino-amazônica no contexto mundial e regional;
2. os direitos culturais, territoriais e sobre o conhecimento dos povos indígenas;
3. a militarização da região e a criminalização dos movimentos sociais amazônicos;
4. os mega-projetos de infra-estrutura e seu impacto ambiental e social na destruição da Amazônia;
5. as mudanças climáticas e seu impacto na definição de políticas ditas ?de desenvolvimento? para a região amazônica
6. o narcotráfico, o tráfico de pessoas e a exploração sexual de mulheres, crianças e adolescentes na região amazônica;
7. as migrações e condições de vida dos povos migrantes e nômades nas fronteiras de nossos países, bem como dos refugiados e das refugiadas por razões políticas e econômicas.

Para dar conta dessas questões, nos propomos a manter e ampliar nossa articulação, assumindo espaços importantes como os representados pelo MAP ? que reúne frentes de luta de Madre de Dios, Acre e Pando - e especialmente pelo Fórum Social Mundial. Saudamos a realização do Fórum Social Mundial em nossa região amazônica. Defendemos um protagonismo fundamental dos povos da floresta e de suas organizações, em aliança com os movimentos sociais urbanos amazônicos, na definição de uma agenda amazônica para o FSM e na condução do Fórum Pan-Amazônico.

Para tanto, assumimos como nossa agenda a agenda da organização de encontros sem fronteiras, da participação na Assembléia dos Movimentos Sociais da Amazônia, da ampliação e fortalecimento dos comitês locais preparatórios do Fórum Pan-Amazônico e do Fórum Social Mundial e da organização de um novo seminário da articulação nascida neste Seminário Trinacional de Rio Branco, a realizar-se em Belém do Pará, durante o Fórum Social Mundial.

Dedicamos esse seminário à memória de Chico Mendes, nos vinte anos de seu bárbaro assassinato, e a de todos os companheiros e todas as companheiras que foram e são diariamente massacrados pela exploração capitalista da Amazônia. Seu sangue e sacrifício são estímulos à luta por uma Amazônia livre de exploração, dominação e opressão, luta que reafirmamos como a nossa luta e de nossos movimentos e povos ao final deste Seminário.

Rio Branco, 20 de julho de 2008.