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| | Doença ocidental e cristianismo Por Oriel 27/02/2009 às 11:40 Por uma superação da ideologia platônica-cristã, para além do bem e do mal. Temos visto uma diminuição pelo interesse no cristianismo nas últimas gerações, mas se fizermos uma análise mais profunda, vemos que o cristianismo está lá com todos os seus símbolos mais básicos, apenas transvestidos com outras máscaras. Parece estranho ouvir que vivemos em uma sociedade cristã, pois todos sabemos que a sociedade moderna ocidental tem seus valores máximos fetichizados sob a forma do consumo, pois nossas igrejas são os shopping centers, nossas orações são os jingles repetidos pela televisão tão exaustivamente como mantras hindus, ou como ave-marias em um terço católico. Mesmo entre ateus e agnósticos temos visto o cristianismo impregnado em seus discursos, principalmente sob a forma de dualidades do tipo bem-mal ou sob a crença em alguma verdade absoluta, que é alcançada por algum indíviduo privilegiado.
O cristianismo é a ideologia do sofrimento, da martirização, da negação da vida, do autoritarismo, do julgamento e da remissão dos pecados. Quantos de nós, assim como cristãos, não estamos sempre dividindo nossos companheiros entre pecadores e não pecadores? Se algum deles peca, imediatamente cortamos nossos laços interpessoais, e o colocamos na lista de pecadores, aqueles que devemos manter distância, para que possamos preservar nossa "pureza espiritual".
Modestamente, penso que o dualismo reducionista, a divisão binária, só funciona bem para a lógica booleana e a subsequente construção de computadores através de sinais digitais.. E não para a organização social humana! Não estamos tão presos a ideologias dogmáticas quanto os cristãos medievais, reduzindo e classificando friamente de forma absoluta e binária, ao invés de pensar e sentir com o coração? Porquê não dar um espaço para a espontaneidade e a auto-crítica?
>>Adicione um comentário Olá
Acho que há um ano atrás eu concordaria com este texto. Mas depois de estudar sobre religião eu acho que ele tem algumas brechas.
A começar a dualidade platônica não é entre o bem e o mal, e na verdade Platão não era exatamente um dualista, e afinal ele é pré-cristão, então o erro não seria do cristianismo. Quem instaura a dualidade como a conhecemos hoje é Descartes, mas o cristianismo original não é cartesiano. Quando criticamos o dualismo estamos criticando a idéia de que há duas realidades distintas no universo. Se é tudo é uma coisa só, tudo pode ser explicado por um só método. De qualquer forma a ciência ganha, e embora a física quântica use um pouco de dualidade, o resto da ciência quantitativa se apóia no oposto.
Negar o dualismo não pode ser igual a negar toda e qualquer bifurcação. Algumas coisas simplesmente têm dois lados, como uma moeda. Claro, há um dualismo no cristianismo, mas ele não leva às conclusões do autor. O dualismo é que Deus é absolutamente diferente do mundo físico, e logo não pode alcançado pelo homem com ciência, por exemplo, como o deísmo afirma.
Não acho que este dualismo deva ser rejeitado a priori, o que não justifica o dualismo que o autor critica, é claro.
É o cristianismo que está transvestido de modernidade, ou a modernidade que está transvestida de cristianismo? Há alguns anos atrás houve um surto de cristianismo no Brasil, de neopentecostalismo principalmente, apoiado por expansão do poder midiático das igrejas. Mas é algo muito diferente do que era o cristianismo original, talvez até oposto, segundo muitos teólogos e sociólogos da religião.
Eu concordo que essas igrejas se tornaram comércios. E mesmo os ateus e agnósticos se tornaram sim muito parecidos com estes religiosos, porque no fundo todos estão atrás de dinheiro e poder.
Mas, dizer que não existe verdade absoluta acaba servindo hoje em dia para afirmar que não há verdade de forma alguma, estabelecendo uma relatividade absoluta. Isso também não funciona.
No trecho "O cristianismo é a ideologia do sofrimento, da martirização, da negação da vida, do autoritarismo, do julgamento e da remissão dos pecados", eu observaria algumas coisas. Cristianismo não é procurar o sofrimento, mas entender que todos vamos sofrer, e saber aprender com isso. Sacrifício é uma parte importante da vida, que nossa sociedade, exatamente pode ser uma sociedade do prazer, do descompromisso e da desconfiança (por ser também do sadismo e da exploração), não aceita. Agora negação da vida? Só é negação da vida se você reduz a vida ao caráter meramente biológico dela, ignorando seu significado para além da ciência. Autoritarismo? Também acho que não, embora a autoridade seja sim um valor para o cristianismo, não é autoridade forçada. Julgamento e remissão dos pecados também tem seu sentido para o cristianismo, mas isso não justifica qualquer julgamento, apenas o julgamento divino.
Um cristão não pode dividir as pessoas em pecadores e não pecadores, por conta própria. Só Deus pode fazer isso, e a princípio somos todos pecadores, e nem por isso devemos ser impecáveis, apenas evitar o pecado. A Bíblia não diz que deve-se cortar os laços com quem peca, se este estiver disposto a reconhecer seu erro e mudar. Auto-crítica não é isso também?
Um amigo antropólogo que estuda indígenas brasileiros me falou uma vez de uma sociedade indígena onde tudo, absolutamente tudo, era dividido em dois. Me esqueci o nome das duas palavras, mas funcionava assim, todas as pessoas e coisas são do tipo A ou do tipo B, elas herdam isso de nascença, pela herança paterna ou materna, não me lembro, e a pessoa de um tipo não pode casar com uma pessoa do mesmo tipo, e assim por diante. Eles tem um dualismo, mas não entre bem e mal.
Mas a teologia cristã na verdade nega o dualismo bem/mal, diretamente. Segundo alguns teólogos, o bem é a única coisa que existe, e o mal representa a falta de bem, como frio é falta de calor. A falta absoluta de bem anula a si mesma. Isso é só um exemplo.
Grande parte dos falsos dualismos que são defendidos hoje não tem origem cristã. Então eu acho que seu texto poderia ficar melhor, sem essas associações precipitadas. Quer criticar o dualismo? Pode criticar. Quer criticar o cristianismo? Pode criticar. Quer criticar as duas coisas ao mesmo tempo? Isso é bem mais complicado.
Abraços
Janos  | Creio que Juno matou a parada!Jesus cristo pregou a vida em abundancia, e seu ponto de partida e' de um pai amoroso que se sacrifica pelo seu filho.O verdadeiro cristâo da' a vida pelas geracoes futuras!Misericordia e piedade para aqueles que se arrependem de seus erros!  | Talvez o meu commentário não acrescente nada. Mas também me sinto na obrigação de dizer que sofrimento, martirização,negação da vida e autoritarismo, pode ter muito a ver com os ensinamentos de religiões, igrejas ou pregadores, mas nada tem a ver com o cristianismo puro e autêntico. Sobre o julgamento, manter distância dos outros, isso é justamente o oposto dos ensinamentos de Cristo, que diz que devemos amar a todos, e todos inclui também nossos inimigos. O verdadeiro cristão não é aquele que não peca, mas aquele que reconhece os seus pecados. E aliás, sobre ateus e agnósticos, acredito que tanto estes como também punks, índios, prostitutas, moradores de rua, têm em geral valores cristãos que hoje faltam, talvez, na maior parte dos que hoje se dizem cristãos.  | Primeiramente, desculpe pelas generalizações. Esse é um tema que dá muito pano pra manga, e abordá-lo com um texto tão curto acaba por prejudicar algumas das idéias que pretendi expor.
Quero deixar claro que quando falo em cristianismo, estou me referindo à ideologia disseminada pelo império romano, o cristianismo que conhecemos hoje. Estou ciente de que o cristianismo primitivo tinha um caráter diferenciado, tendendo para o libertário, com influências do gnosticismo e do misticismo oriental. Concordo que o dualismo pregado no cristianismo não tem origem cristã. Pensadores cristãos como Santo Agostinho organizaram a "ideologia cristã" com uma base forte em Platão. Mas convenhamos, o dualismo de Platão é por demais parecido com o da igreja católica, enquanto o primeiro criou a distinção entre "o mundo das idéias" e o "o mundo dos sentidos", o segundo se utilizou dessa mesma base, trocando apenas o "mundo das idéias" pelo "mundo dos espíritos". Tanto em Platão quando no cristianismo, existe a crença numa espécie de pureza do primeiro mundo, divino, intocável pelos humanos, enquanto o "mundo dos sentidos" é considerado sujo, pecaminoso, etc.
Tudo bem, os dualismos constituem as bases para diversas religiões e filosofias, mesmo nos budistas ou em Schopenhauer, iremos encontrar essa distinção entre fenômeno e coisa em si, sendo sempre o mundo dos fenômenos desvalorizado e o da coisa em si aquilo que é intocável e imutável. Respeito essas crenças, mas acredito que o mundo dos opostos muitas vezes funcione como uma espécie de atração perigosa, assim como o próprio racionalismo desenfreado. Enquanto acreditamos em um dos lados, estamos sujeitos a atitudes dogmáticas e totalitárias, que frequentemente tem nos levado a abstrações rígidas e desumanas como Estado, Igreja, Poder. Não acredito que devamos sucumbir a um relativismo absoluto, mas acho que precisamos de boas doses de relativismo e de visão transdisciplinar para superar alguns dos maiores erros de nossa civilização. A coisa é tão profunda, que mesmo dentro do movimento anarquista, observamos várias pessoas pregando uma dicotomia. Por um lado, existiria o "anarquismo social" , do outro o "anarquismo individual ou de estilo de vida". Alguns defendem que o primeiro é o legítimo anarquismo, o verdadeiro caminho a ser atingido para alcançar a revolução social, outros acreditam o inverso. É tão difícil assim enxergar que dicotomias como indíviduo X coletivo nos levam a uma polarização onde os dois extremos acabam por ser incompletos? O ser humano não é nem um ser apenas individual, nem apenas um produto social, é ambos. Vários campos da ciência e filosofia tem aberto essa discussão, estudando conceitos aparentemente opostos como "parte X todo" ou "onda X partícula" ou ainda "corpo X mente". A conclusão está sempre tendendo para o seguinte:
a) A parte não pode ser eficientemente compreendida unicamente e isoladamente, e nem o todo. No fim das contas, segundo biólogos como Humberto Maturana em seus estudos de organismos vivos, o todo é mais do que a simples soma das partes e cada parte contém uma espécie de princípio do todo. Isso curiosamente pode se aplicar a relações parte-todo tão distintas como indíviduo-sociedade, organismo-corpo, átomo-molécula, molécula-célula.
b) Diversos físicos acreditaram que o nível mais fundamental da matéria se comporta como uma partícula, com propriedades físicas como massa e carga elétrica. Com o estudo da luz e a descoberta de que a velocidade e posição das partículas se comportam de forma não determinística, como uma onda de probabilidades, os cientistas passaram a acreditar que elétrons, mésons seriam ondas. Hoje se acredita que ambos sejam corretos, dependendo do referencial do observador.
c) Doenças como câncer não podem ser consideradas nem como sendo uma patalogia puramente corporal e nem como puramente mental. A medicina oriental há milênios desconhece a separação corpo-mente, e trabalha a cura a partir de uma perspectiva psicossomática.
Negação da vida e ideologia do sofrimento
Quando falo em negação da vida, isso se refere ao termo que Nietzsche trabalhou, o fato do cristianismo romano ter travado uma guerra contra os instintos humanos, contra o sexo, os prazeres, a alegria de viver, a espontaneidade. O prazer até é permitido em algum ponto, mas sob severas limitações. No fundo isso é uma consequência daquele velho dualismo de Platão, que enxerga o mundo dos sentidos (por acaso o mundo em que vivemos), como algo pecaminoso. Para entender o que quero dizer com ideologia do sofrimento, basta pensar no símbolo máximo do cristianismo. Um homem completamente ensaguentado, flagelado, pendurado numa cruz. Esse símbolo representa um ideal a ser atingido, a martirização.Trata-se de uma imagem que faz seus seguidores sentirem culpa, sentirem-se reponsabilizados pelo assassinato de seu santo. Não falo isso como um expectador que conhece vagamente a ideologia cristã. Fui educado por uma família rigidamente católica, inclusive por catequistas. Encarei dentro da família uma censura contra a diversão, a alegria e o sexo. Os únicos valores dignos são o trabalho, o sofrimento, o doar-se pelo próximo. E o mais fantástico, é que o essencial na defesa desses conceitos é a imagem. Mesmo os mais ferrenhos luteranos, vangloriando a imagem do trabalho, no fundo é sempre possível perceber que eles não amam tanto assim trabalhar. Eles amam a imagem do trabalho. Assim como tantas pessoas não amam tanto assim doar-se ao próximo, mas estão fascinadas pela imagem que passam aos outros e principalmente a imagem que passam para Deus, que estará julgando no purgatório *. Uma vida baseada na repressão e em castrações, segundo Wilhelm Reich, causa diversas "sequelas" no âmbito social/político. Não é por acaso que na ficção de George Orwell, 1984, o sexo e os instintos são mantidos em controle, para que a sociedade possa dedicar todo o esforço ao estado e à obediência cega.
Diversos pensadores dialético-materialistas como Bakunin, defenderam que o que impossibilita os cristãos de lutarem por um "mundo terreno" mais justo, é a crença de que as injustiças sociais são naturais, e não podem ser combatidas. Para muitos cristãos, a revolução irá acontecer, mas no momento da morte, quando será possível encontrar o paraíso utópico, a vida eterna prometida por Cristo. Por isso que religiões mais fundamentalistas como os testemunhas de jeová ou os adventistas, adotam um compromisso de afastamento ou de serem "neutros" nos assuntos políticos "mundanos".
É um desafio criticar tanto o cristianismo como o dualismo de uma única vez, mas ao contrário do que foi colocado, acho que os dois estão muito ligados, a não ser que se esteja falando de interpretações alternativas do ensinamento de Cristo, como levadas a cabo pelos gnósticos ** ou por Tolstoi. O dualismo rígido vem de Sócrates, passando por Platão e Aristóteles mas o cristianismo comprou a idéia. E hoje, diversos grupos que não possuem mais nenhuma ligação com o cristianismo continuam comprando essa idéia. O que enxergamos como resultado são as novas cruzadas da inquisição neoliberal, marxista ou tecnocrática, onde indíviduos são seduzidos pelo dualismo bem-mal, e sempre acreditam estar percorrendo o caminho do bem, enquanto todas as outras crenças e atitudes são o caminho do mal. Isso é um tremendo obstáculo para superarmos nossas diferenças e pudermos finalmente caminhar na estrada da pluralidade.
* Poderia-se ainda discutir que apenas o Deus do antigo testamento julga, e o Deus do novo testamento não parece mais julgar, em vez de um legislador e destruidor de cidades vingativo, Cristo ensinou que Ele agora é apenas puro amor. Mas o foco aqui não são as contradições da bíblia, que aparentemente foram ignoradas pelos cristãos romanos.
** Existe ainda uma interpretação que acredita que Jesus tenha tido vida sexual com Maria Madalena e que praticava yoga tantrico para atingir a "iluminação através do orgasmo cósmico".  | Eu concordo parcialmente com sua resposta, no sentido de que o que é chamado de cristianismo hoje em dia, ma maior parte das vezes chega a ser anti-cristão.
Porém, a repressão é apenas um dos lados com que o totalitarismo funciona, e foi bom você lembrar de Orwell, pois Huxley escreveu Admirável mundo novo como uma resposta ao 1984, e nele há uma distopia tão ou mais totalitária que a de Orwell, onde no entanto não há repressão, pelo contrário, há liberação sexual, de prazeres e vícios e o mote é: "Não negue-se nada". Acho que a sociedade hoje deixou de ser tão repressiva quanto ela era, e passou a se parecer mais com a distopia de Huxley, pelo motivo que ele mesmo alega: é mais eficiente. A capitalismo exige isso.
Eu sou luterano e eu não vejo o trabalho como algo valoroso por si só. Na nossa sociedade, o trabalho é alienante. Mas antes de conhecer essa perspectiva, eu também julgava conhecer muito bem o cristianismo, e também fui criado num lar católico. Frequentar a igreja não foi suficiente para que eu conhecesse a fé cristã.
Mas de qualquer forma parabéns pelo artigo e pela reflexão.
Abraço  | Extremamente interessante o texto, Oriel. Entretanto, eu vejo que talvez você poderia colocar outro termo quando usa o "cristianismo", pois aí torna-se demais abrangente. Por exemplo, tem o trecho do seu comentário: "basta pensar no símbolo máximo do cristianismo. Um homem completamente ensaguentado, flagelado, pendurado numa cruz. Esse símbolo representa um ideal a ser atingido, a martirização."
Ora, isso é um viés quase que exclusivo do catolicismo. Para protestantes (e suas ramificações, tais como batistas, pentecostais e afins), o "símbolo máximo", como você mesmo colocou, é a cruz vazia, um símbolo extremamente oposto do citado por você, pois simboliza a vitória da vida em cima da morte, do Cristo ressuscitado, mostrando que nós, homens e mulheres, não precisamos mais do sacrifício, pois alguém se sacrificou em nosso lugar e nos tirou a "escrita de dívida".
Outro ponto também que eu vejo passível de discussão, "Diversos pensadores dialético-materialistas como Bakunin, defenderam que o que impossibilita os cristãos de lutarem por um 'mundo terreno' mais justo, é a crença de que as injustiças sociais são naturais, e não podem ser combatidas. Para muitos cristãos, a revolução irá acontecer, mas no momento da morte, quando será possível encontrar o paraíso utópico, a vida eterna prometida por Cristo." E a teologia da libertação? Muitos a julgam morta, mas ela está extremamente presente, e não somente em meios católicos.
Compreendi seu ponto de vista, mas talvez, como eu já disse acima, devesse evitar a generalização com o termo "cristianismo", ele é por demais abrangente. É só pensar nos anarcocristãos, e toda a dicotomia e dualidade quase que cai por terra.
Abraço!  | Olá,
Vim comentar algo que deveria ter comentado muito tempo atrás. Sobre a resposta do "Oriel", que deu a impressão que o cristianismo só poderia ser válido se considerado de um ponto de vista místico, cósmico, gnóstico, quase deísta, etc... Isso seria negar o cristianismo como eu o conheço, e de forma alguma tem qualquer relação com o que eu estava dizendo no meu primeiro comentário.
Esta tendência de afirmar um cristianismo cósmico (como o de Leonardo Boff) ou que se relaciona ao misticismo oriental é também uma tendência moderna.
Não é o relativismo ou a transdisciplinaridade que irá "corrigir a civilização". Você ainda insiste em ver relação entre cristianismo e misérias humanas, tanto a repressão quanto o liberalismo. Eu vejo exatamente o oposto. Cada vez que se perde um valor do cristianismo primitivo, se cria um novo monstro.  | Felipe, valeu pelo comentário! Então, eu já escrevi aqui antes que com cristianismo me refiro essencialmente ao cristianismo romano, ou seja, católico. Mas com a reforma protestante, a questão do sacríficio não foi completamente extinta, pelo menos ao meu ver. As instituições cristãs formadas após isso inauguraram uma era de novos sacrifícios, especialmente com o sacrifício do trabalho. Como observa Weber, o lucro, que antes era pecaminoso para os católicos, passou a ser incentivado e visto pelos luteranos como um presente de Deus. Isso foi uma das faíscas que explodiu a revolução burguesa e a era capitalista do trabalho alienado.
Agora, temos outros casos como Tolstói, que contemplou o cristianismo de uma forma anárquica (lembrando São Franciso de Assis), rejeitando toda autoridade e os bens materiais, em troca de uma vida simples e comunitária. A teologia da libertação também associa o cristianismo com a luta social dos pobres, dos oprimidos. São exemplos notáveis, mas infelizmente excessões, que foram perseguidas e mal vistas pelas instituições católicas. Veja por exemplo o caso de Jon Sobrino, que foi perseguido pelo vaticano pois ele escreve que Jesus tinha como missão principal a emancipação social dos pobres, e deixa em segundo plano questões como a ressureição. O vaticano não está interessado em emancipação social, mas na preservação de uma tradição mitológica insustentável, que vem de um tempo monárquico.
Não sei qual a visão de todas as outras vertentes cristãs quanto a impossibilidade de justiça social devido ao pecado original, então foi um erro eu ter escrito cristianismo no lugar de catolicismo. Mas a tendência da maioria das chamadas igrejas evangélicas é continuar associando problemas sociais com a influência de lúcifer, o signo do mal que aflinge toda a humanidade. Para mudar o mundo, basta curva-se ao signo do bem (geralmente a cruz), seguir um livro e um pastor e esperar a volta de Cristo para que o reino dos céus liberte o ser humano do caos moderno. Pelo menos é o que dá a entender pelo marketing tele-evangélico que impregna os canais de televisão.
O signo do bem e do mal é importante, pois ele cria divisões de classe. Arriscaria dizer que esse signo é um tipo de arquétipo (no sentido de Jung) que vem antes da guerra de classes descrita por Marx. Por exemplo, as castas semi-escravas na Índia são vistas como inferiores por sua impureza, que está sempre associada ao signo do mal. Outro exemplo foi Hitler, que acreditava que precisava defender sua nação e a raça ariana, pois encontrou nela o sedutor signo do bem. O ser humano busca conforto em um signo pré-estabelecido de bem, e busca escravizar, humilhar, perseguir o signo do mal. É normal configurarmos as coisas em pares de opostos, sendo que a própria natureza age assim, mas não podemos ficar cegos por esse dualismo, pois ele quem criou o racismo, o machismo e tantos outros males. Precisamos reconhecer a beleza que existe na diferença..
Aqui, acabo voltando ao objetivo do texto original, que foi de apenas realizar uma crítica contra o dogma dualista do bem e do mal, mas inevitavelmente os tentáculos desse dogma adentram-se para diversos outros campos, para além da religião.
abraços  | Janos, não sei se seria realmente uma tendência moderna ver o cristianismo antigo como "quase deísta". Estamos falando sobre coisas que aconteceram há mais de 1500 anos, então não há muita certeza aqui sobre esses fatos do cristianismo primitivo. Estudiosos do gnosticismo (como Stephan Hoeller) dizem que o cristianismo no início tinha uma orientação bastante diferente, que Jesus teria sido iniciado em tradições herméticas orientais e ocidentais (no período que a bíblia relata pouco sobre ele, dos 15 aos 30 anos) e que muita coisa se perdeu com a seleção dos primeiros evangelhos e com a exclusão dos chamados Evangelhos de Nag Hammadi. Mas uma coisa que é muito lógico afirmar é que o cristianismo era muito forte, e que tinha um caráter misterioso de converter muitas pessoas rapidamente. Mesmo perseguidos, os cristão se multiplicarem, até chegar à conversão do império romano.
Você teria fontes interessantes sobre os fatos do cristianismo primitivo para recomendar? Gostaria de aprender mais sobre isso, principalmente no que diz respeito ao comunalismo cristão..
abraços  | Você tem razão. Quando eu disse "tendência moderna", eu tinha em mente um processo muito mais antigo que a modernidade histórica. Acho que Frank Viola tem um livro sobre a influência do paganismo no cristianismo, mas não sei se é uma boa fonte. Para te dar uma boa fonte, eu mesmo teria que estudar mais. Mas pelo que eu sei, acho muito complicada essa relação com o gnosticismo.
Pode-se levar em consideração que o que realmente se espalhou rápido não foi exatamente o cristianismo de Cristo.
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