O governo de São Paulo incentivará frequentadores de bares e restaurantes a denunciarem estabelecimentos que estejam descumprindo a ridícula e fascistóide lei antifumo, a partir de sua entrada em vigor no mês de agosto.

Quem quiser atuar como alcaguete voluntário, precisará lastrear suas acusações com provas (fotos, vídeos) ou depoimentos de testemunhas. Nada se paga, mas é exigido serviço completo.

Além de desperdiçar seu tempo, desempenhará papel que até a Bíblia caracteriza como indigno. E vai estar estimulando a indústria das multas, como se o cidadão já não estivesse sendo tributado além do suportável, há muito tempo.

Há uma legislação sensata, que discrimina espaços para fumantes e não-fumantes. Ir além disto é não só um exagero, como um oportunismo: não passa de uma daquelas cruzadas engana-trouxas a que administradores recorrem para fingirem estar fazendo algo quando faltam recursos para realizações realmente relevantes e necessárias.

Basta haver queda na atividade econômica e na arrecadação para os governos lançarem essas medidas que garantem espaço no noticiário a um custo irrisório. Quando termina a época de vacas magras, a espuma vai para o ralo e se retomam os projetos sérios.

Numa cidade tão poluída, não é crível que o fumo passivo, sozinho, traga consequências tão terríveis como, p. ex., a concentração absurdamente alta do enxofre no diesel, que mata 3 mil pessoas por ano na capital paulistana, segundo Oded Grajew, do Movimento Nossa São Paulo.

Ademais, o disk-cigarro de Serra servirá como incentivo para as pessoas de mentalidade repressiva, que passam a vida querendo limitar direitos alheios.

Não-fumantes costumam ser histericamente antifumantes. Consideram-se agredidos por qualquer fumacinha que alguém exale no outro quarteirão. E por pirraça, vão mesmo agir como os Judas dos donos de bares e restaurantes, que serão obrigados a cobrar mais ou reduzir custos (com prejuízo da qualidade) para compensarem o desembolsado com as multas.

Portanto, quem dedurar, estará prejudicando não só o proprietário do estabelecimento, como também seus usuários.

O que mais me deixa pasmo é a contribuição dada por um antigo militante de esquerda para tornar-se cada cidadão um delator em potencial. O que ele quer estimular, o advento de uma sociedade policialesca como a do 1984 orwelliano, com os filhos espionando os pais para denunciá-los às autoridades?

Em tempo: não sou nem nunca fui fumante.