(continuação)

"(...)Em cidades como Tefé, os bairros mais recentes, aqueles habitados por ribeirinhos e indígenas e seus descendentes, são vistos como "pobres". Quando alguém diz que é uma "favela", aspira a uma cidade em que esses bairros não existam. Não se referem apenas às dificuldades que estas populações sofrem com saneamento, educação, emprego e segurança, mas ao gosto artístico, arquitetônico, aos saberes e mitos do mundo rural. É todo um mundo mágico da floresta dentro da cidade que precisa desaparecer, como se os moradores da cidade necessitassem apagar as marcas do próprio passado, dos ancestrais que de alguma forma culpam pela "derrota" para as forças da modernidade.

Estes grupos e localidades urbanas são vistas como "pobres" porque teriam menos acesso aos serviços e rendas da cidade, mas contam com vantagens tipicamente rurais: caçam, pescam, roçam e possuem importantes redes de solidariedade. A cidade tende a destruir estes "bons modos", e em troca oferece a posição subalterna em seu próprio modo de ser inspirado nas grandes urbes capitalistas.

O mundo urbano ataca estas populações sobretudo violando a sua juventude: seus meninos e meninas são tratados como "bandido" e "prostitutas", independentemente de participar ou não de gangues e do comércio do amor. Se for menino, é "galeroso", se menina, "prostituta", merecendo por isso toda sorte de humilhações, negligências, desprezos, espancamentos, estupros e, por fim, a punição pelos pecados de toda a sociedade urbana.

Garotas de todos os grupos sociais vão a festas e se divertem, mas as meninas do interior é que são as "quengas" ou "putas". Meninos de todos os grupos sociais gostam de brigas, mas os que trazem costumes do interior e seus descendentes é que são os "galerosos", e precisam ser eliminados para se acabar com o crime. São como Cristo, pagando pelos pecados de todos.

O preconceito pesa tanto que até destrói famílias, jogando pais e mães contra filhos e filhas, e a auto-estima da meninada, que passa ao desprezo de si mesma e à auto-destruição. A violência generalizada é sacramentada com a violência do próprio Estado que, através de prisão, tortura ou reprovação escolar, sela a superioridade imperial, colonial, da cidade sobre a floresta.

É assim que alguns meninos e meninas, sem outras perspectivas, acabam mesmo empurrados para a autodefesa das gangues ou a sobrevivência na venda dos próprios corpos. Porém, a juventude também tem outras táticas: grupos de dança, hip-hop, bandas de rock, grafite, capoeira, artesanato, teatro, jornais alternativos, movimentos indígenas, skate, rádios livres... a própria juventude vem criando alternativas para se fazer escutar, para ser os/as autores/as de sua experiência coletiva, dançarinos/as da cidade polifônica onde um dia em festa poderão caber todos e todas.

É esta juventude que faz ecoar suas vozes entrelaçadas na Flor da Palavra e Rock na Rua deste domingo, 7 de junho de 2009, na rua 7 de setembro, revivendo o tradicional espaço do rock underground de Tefé (AM). O espaço e o tempo deste evento é seu: traga e mostre sua arte, sua palavra!"