Assim como nos tribunais e igrejas, as universidades também possuem alguns rituais próprios, linguajares específicos, burocracia interna e demais costumes. Alguns experientes historiadores conhecedores desses ritos, os ironizam e até nos ensinam o caminho das pedras de como se fazer um trabalho acadêmico que agrade aos sacerdotes deste ilustre meio.

Para vencermos, devemos levar em consideração alguns pontos fundamentais em um trabalho acadêmico: em primeiro lugar, as citações. Cite bastante, pois isso fará parecermos eruditos, profundos conhecedores do que tratamos (mesmo que na verdade tenhamos lido muito pouco sobre os autores citados). Mas não devemos citar qualquer um. A moda muda nas academias e por isso devemos citar apenas os autores mais em voga, mesmo que, em alguns casos, nada ou quase nada tenham de fato a contribuir com nosso trabalho.

Ao lado das citações, vem o vocabulário rebuscado, lembrando sempre que se trata de Ensino Superior, logo sejamos pedantes. Discursos rebuscados causam boa impressão, geram admiração, ainda que sejam semi ou totalmente incompreensíveis. O bacana é falar difícil, de forma quase ininteligível. Deve-se sempre complicar, jamais simplificar. Obscurecer, trazendo mais dúvidas que esclarecimentos. Aliás, esclarecimento hoje em dia é coisa démodé, iluminista. Sejamos atuais, pós-modernos!

Ao invés de bomba, devemos dizer artefatos que explodem. No lugar de capitalismo, economia de mercado. Jamais deve ser mencionado o termo imperialismo e sim globalização. Nações ou países periféricos, de jeito nenhum! Digamos países em desenvolvimento ou emergentes. Solilóquio no lugar de choque ou confronto. Viés ao invés de escolha ou caminho. Frases simples devem ser transformadas para parecerem mais impressionantes. Ao invés de se escrever que os pobres devem ter seu direito respeitado, digamos o discurso multicultural, como ser desconstrutor da exclusão, postula o resgate da cidadania dos povos de rua.

Conceitos, então, só os do momento: o olhar, desconstruir (desconstrua tudo), o imaginário, simbólico (nada é real, tudo é imaginação ou símbolo), alteridade (que significa diferença, no jargão academicista), cotidiano (indispensável), polissêmico, multicultural, inusitado, etc. Nunca utilize classes, luta de classes, modo de produção, exploração, infra-estrutura, proletários, entre outros atualmente mal vistos.

Bastidores da história

As obras historiográficas são filhas de seu tempo. Mesmo dedicando-se a estudar o passado (distante ou recente), historiadores produzem e reproduzem em seus trabalhos as questões políticas, sociais, econômicas e culturais de suas épocas. Aliás, são as condições históricas de seu tempo que os fazem buscar no passado explicações para elas. As ideologias vigentes em determinado período acabam, de uma forma ou outra, atravessando consciente, semi-consciente ou inconscientemente os textos dos historiadores.
Desde o final da escravidão no Brasil, em 1888, tudo que conhecemos hoje sobre a sua história devemos sobretudo a pesquisadores como Nina Rodrigues, Manuel Querino, Gilberto Freyre, Caio Prado Júnior, Artur Ramos, Édison Carneiro, Benjamin Péret, Clóvis Moura, Florestan Fernandes, Fernando Henrique Cardoso, Emília Viotti da Costa, Ciro Flamarion Cardoso, Jacob Gorender, Kátia Mattoso, João José Reis, Eduardo Silva, Sidney Chalhoub, entre outros, com suas diferentes metodologias, posições e contribuições. Há vários outros importantes historiadores da escravidão, mas em menor ou maior grau foram influenciados por estes acima citados.

O século 20 iniciou-se sob a herança do neo-colonialismo e imperialismo mundial do século 19, com seus mitos racistas e científico-positivistas. No seu desenrolar, foi também a era das grandes guerras mundiais, do socialismo soviético, da social-democracia, do stalinismo, nazi-fascismo, keynesianismo, da guerra fria e do neoliberalismo. No plano nacional, foi palco da república oligárquica, da era Vargas, do desenvolvimentismo e industrialização dos anos 1930-50, da ditadura militar e também, em seu final, do neoliberalismo. Obviamente, tais condições exerceram forte influência nos historiadores, que não deixaram de sentir seus efeitos e registrá-los de alguma forma em seus textos.

Admirável mundo velho

A trajetória dos estudos sobre a escravidão no Brasil no século 20 passou por diferentes fases, recebendo avanços e superações importantes, sobretudo desde os anos 1930 aos 1970. Contudo, a história da escravidão sofreu uma relativa restauração historiográfica nos anos 1980 e início dos 1990, que rearranjou e trouxe de volta alguns mitos que, então, pareciam enterrados. Ainda que as novas condições de pesquisa, maior número de cursos de pós-graduação, fim da ditadura e novas tecnologias tivessem proporcionado maior facilidade aos historiadores, a vitória de um conservadorismo surgido no fim do século 20 exerceu seus influxos significativos sobre o mundo acadêmico.

Se no campo político as grandes propostas de transformação mundial foram derrotadas e com isso enorme parcela de intelectuais passou a defender apenas propostas parciais e nunca estruturais de ação, no campo historiográfico, a reboque desta guinada, a leitura sistêmica, classista e profunda da história foi rejeitada e substituída por visões de mundo mais fragmentadas, romanceadas, superficiais, contemplativas, subjetivistas, culturalistas e acomodadas.

Apesar das aparências, o debate acadêmico, em geral, e sobre a escravidão, em específico, não significou apenas vaidades pessoais de escolas ou correntes históricas umas contra as outras. Resultou (e resultam) de visões de mundo distintas e antagônicas, que por sua vez surgem da realidade concreta das lutas políticas e sociais.

A vitória mundial do neoliberalismo nas últimas décadas do século 20 avançou e pressionou o mundo do trabalho, fazendo-o recuar objetivamente e, assim, também influenciou as produções daqueles que diziam representá-lo. De forma não absoluta, mas hegemônica, os anos 1980 foram marcados pelo ressurgimento de posições políticas reformistas, no plano político, e suavizadoras dos conflitos sociais, no plano acadêmico, minimizando a opressão dos grupos dominantes e a resistência dos subalternizados. Ressurgiu assim uma historiografia que passou a enfatizar acordos e acomodações entre exploradores e explorados. Foi assim que a escravidão voltou a ser tratada não mais como um sistema socioeconômico, mas como uma espécie de pacto entre indivíduos.

Já os defensores da escravidão desde o século 17, 18 e 19 costumavam dizer que o fim do cativeiro traria mais agruras que benefícios aos seus explorados. Nos anos 1930, o antropólogo Gilberto Freyre, em seu Casa grande & senzala , mostrou quase uma melancolia saudosista dos tempos de ouro de uma escravidão familiar-patriarcal que infelizmente findara.

O Brasil, nas teses do célebre sociólogo, tornar-se-ia pior depois da abolição, mais ou menos como defendiam os escravistas nos debates parlamentares contra os abolicionistas. Por incrível que pareça, alguns livros atuais fazem apologias muito aproximadas a estas. Trabalhadores escravizados voltaram a ser apresentados com certo conjunto de características, direitos jurídicos, trabalhistas, familiares, alimentares, etc., de dar inveja nos trabalhadores assalariados atuais.

Em uma leitura reinventada do passado, alguns historiadores reapresentam a escravidão de forma quase lúdica, onde cativos trabalhariam pouco e festejariam bastante, comeriam bem, se casariam com freqüência, defendiam-se nos tribunais e delegacias de polícia, negociavam as condições de seu trabalho, habitariam senzalas floridas e que só não tinham janelas por sua própria escolha, acatada pelo sinhô generoso e respeitador de suas vontades.

Por trás do debate acadêmico o que vem sendo disputado é algo muito mais profundo: o caráter da nossa formação social nacional (passada e presente). A mensagem que a dita nova historiografia da escravidão hegemônica até hoje deixou foi de que se a escravidão no Brasil era um período de relativa paz, de negociações, acomodações e até de conciliação entre explorados e exploradores, o que pensarmos dos tempos vigentes, democráticos, de trabalho assalariado e com direitos garantidos? Por que trabalhadores atuais deveriam se organizar para lutar pelo fim de sua exploração se desde o tempo da escravidão as negociações sempre foram possíveis e até melhores que atos de extremismo ou radicalismo?

Uma história enforcada

No ano de 2008, na 36ª Feira do Livro de Pelotas (Rio Grande do Sul), foi apresentado o livro de Caiuá Al-Alam, A negra forca da Princesa, extraído de sua dissertação de mestrado defendida na Universidade Vale do Rio dos Sinos (Unisinos), em São Leopoldo, em março de 2007. O objetivo central desta obra foi tratar das práticas da Justiça na então cidade de São Francisco de Paula (antigo nome de Pelotas), entre os anos de 1830 e 1857. Para realizá-lo, o autor apoiou-se em aproximadamente 160 livros e artigos diversos, processos-crimes, jornais, correspondências e demais documentos administrativos do período.

O tema de A negra forca... ainda é chocante para muitos leitores atuais, desconhecedores da violência do sistema escravista em nosso passado. Desconhecimento, aliás, muito ajudado pela assinalada historiografia restauradora do final do século 20, que, como vimos, abrandou a violência da escravidão que vinha sendo elucidada desde o início do século 20. É difícil imaginar que gerações que conviveram mais de perto com a escravidão se chocassem diante de informações sobre aquele tempo, uma vez que o conheciam. A forca em Pelotas era penalidade destinada a sujeitos das classes subalternizadas, sobretudo trabalhadores negros escravizados.

Al-Alam dedicou seu trabalho, entre outros, aos homens e mulheres invisíveis na sociedade e na história. Um jornal local intitulou a matéria que apresentava seu livro como Uma forca negra, olhar sobre os invisíveis . Acontece que, em se tratando dos escravizados, em Pelotas ou em qualquer lugar onde a escravidão existiu no Brasil, isto é uma contradição. Aliás, o trabalho de Al-Alam está repleto de contradições: por todo o período escravista e em praticamente todo o território brasileiro, colonial e imperial, o número de trabalhadores escravizados oscilava entre 30% a 40% da população em geral. Somados os negros e mestiços libertos, esse número subia para uma imensa maioria da população. Em Pelotas, em especial, o número de trabalhadores escravizados algumas vezes chegou a ser maior que a média nacional, ultrapassando 50% da população, sem falar nos ex-cativos e seus descendentes.

Ou seja, quem eram os invisíveis nesta história? Mesmo se Al-Alam estivesse chamando apenas os condenados à forca da Pelotas de invisíveis, seria um equívoco, pois, como ele mesmo constatou, antes de serem dependurados nas forcas instaladas nas praças centrais ou no cemitério da cidade, para chamar a atenção, os condenados tinham que circular por vários pontos da cidade até chegarem à ela, vestidos de toga branca, cercados por homens carregando bumbos e todo um aparato policial a cavalo. Ao saírem da prisão, faziam uma primeira parada na Igreja, onde uma missa encomendava suas almas. Aos olhos da população previamente informada pelos jornais, o cortejo seguia pelo centro da cidade até o cadafalso, onde cativos criminosos eram enforcados para servir de exemplo aos demais. Diante de tamanha demonstração de poder, nem os cegos deixariam de vê-los. De forma alguma seriam invisíveis ou a finalidade de suas mortes perderia todo o sentido.

Teoria e prática

As contradições de Al-Alam derivam sobretudo do conjunto de conceituações teórico-metodológicas que ele assumiu e se alinhou. Basta verificarmos suas posições em relação à História. Para ele, a História seria ?como um jogo de interpretações? pertencente ao gênero das narrações e compartilhando dos mesmos métodos da Literatura, construídas através de ficções verbais descobertas e, se preciso, inventadas, distinguindo-se da Literatura apenas por depender de arquivos.

Ao invés de destacar que também na História há um debate acirrado de posições distintas, uma vez que esta ciência nunca se encontrou isolada dos demais embates da nossa sociedade, Al-Alam diz que a própria História, em si, seria apenas ?uma disputa de poder? onde os olhares são livres, desconexos, subjetivos e individualmente direcionados ?para aquilo que achamos mais interessante?. Seguindo o relativismo pós-moderno, afirma que ?O que é importante para nós, pode não ser para outro?. E se posiciona produzindo e reproduzindo as citações e vocabulários que a academia atualmente exige: ?Estes ?mestres e artesões?, como chamou Ricoeur, são herdeiros desse mesmo passado que de certa forma perpetua-se e os afeta. O presente trabalho se apresenta assim, como interpretações de acontecimentos do passado que nos parecem importantes para compreender, por exemplo, a construção da cidade de Pelotas, as permanências desse passado nos dias de hoje, assim como as suas descontinuidades?. Pedante e confuso? É justamente esse o objetivo.

A opção teórico-metodológica de Al-Alam vai além da auto-intitulada Nova História. É ainda mais radical, elogiando e alinhando-se à chamada Micro-História, a qual define não como tendência, escola ou disciplina, mas sim uma prática historiográfica com um caráter extremamente empírico, ou seja, uma espécie de neopositivismo. Usa o exemplo da Medicina para defender que o estudo da História deveria se reduzir à escala de observação microscópica. Para a Micro-História, quase tudo é amplo demais, e por isso os recortes temporais e espaciais devem ser reduzidos ao mínimo, como em um neorococó. Trabalhadores, por exemplo, é categoria muito ampla. A Micro-História, assim, prefere abordar sub-categorias dentre os trabalhadores, como os excluídos: mendigos, prostitutas, bêbados, doentes, loucos, infelizes, boêmios, poetas, etc, sempre isolados e descontextualizados. Já que Al-Alam recorreu à Saúde, lembremos que entre seus profissionais existem os Enfermeiros e os Técnicos em Enfermagem. Os primeiros têm o dever de refletir mais sobre suas atividades, elaborando teses a respeito de suas práticas para melhorá-las. Já os Técnicos, mais executam as funções que lhes são delegadas. Assim, os micro-historiadores parecem querer que nos tornemos apenas Técnicos em História...

Para mostrar profundeza, Al-Alam faz uma série de citações sem fim de diversos autores. Segundo Fulano, segundo Beltrano, segundo Ciclano é recorrente em seu texto, onde quase não vemos sua fala própria. Obviamente, cita mais a bibliografia em voga: Ricoeur, Chartier, Geertz, Cuche, Veyne, Revel, Sahlins, Foucault, dentre outros. Uma erudição questionável, diga-se de passagem, já que apresenta autores com posições divergentes para defender um mesmo conceito. É assim, por exemplo, com cultura, onde primeiramente cita Da Matta, para quem cultura seria ?um mapa, um código [...] um conjunto de regras que nos diz como o mundo pode e deve ser classificado?, e, em seguida, Geertz, para quem ?cultura consiste em estruturas de significados socialmente estabelecidas?. Ou seja, ao menos nessas citações destacadas, vê-se que, para o primeiro, a cultura seria algo fixo enquanto que, para o segundo, algo dinâmico.


A salada epistemológica de Al-Alam é reforçada com pitadas de anacronismo, como quando diz simpatizar-se com idéias extraídas de discussões entre Bakhtin e Ginzburg . Como se sabe, o lingüista russo morreu em 1975, isto é, um ano antes do historiador italiano surgir no cenário historiográfico, mostrando nunca ter havido debates entre eles. A impressão que passa é a de que Al-Alam cita algumas bibliografias sem conhecê-las bem, apenas com a finalidade de causar boa impressão na academia e no leitor deslumbrado. Tudo isso, porém, se dá no plano superficial, pois, no fundo, ele apenas está cumprindo, consciente ou inconscientemente, as exigências hegemônicas que alguns encastelados da academia demandam.

Pau que nasce torto...

Aristóteles dizia que o que é construído em bases tortas acabará inteiramente torto. A base historiográfica principal na qual A negra forca... se sustentou foi a dos assinalados reabilitadores da escravidão dos anos 1980-90. É por isso que Al-Alam ao mesmo tempo em que rasga elogios a historiadores como Sidney Chalhoub, João J. Reis e Eduardo Silva e Robert Slenes, se opõe veementemente às obras de Jacob Gorender e Mário Maestri . Ele também critica um conjunto de outros historiadores mais tradicionais, aos quais chamou de memorialistas. De fato, são autores que abordam a história em geral ou local destacando e enfatizando as classes dominantes, fazendo uma história das elites, dos grandes nomes e sobrenomes. Os subalternizados, quando raramente são citados nessas obras (algumas vezes sob termos preconceituosos), servem apenas de pano de fundo para fazendeiros, políticos, chefes militares e, às vezes, suas ricas mulheres, todos vivendo em um passado glorioso, saudoso e praticamente sem contradições sociais . Mas, mesmo ao criticá-los, Al-Alam acabou relativizando-os: ?Evidente que alguns desses escritores são filhos de seu tempo, devemos respeitar isso, não podemos julgá-los pelos nossos conceitos atuais. Tal ressalva, porém, não foi estendida aos demais historiadores criticados em A negra forca...: os marxistas.

Os marxistas criticados por Al-Alam foram, além dos citados Gorender e Maestri, Fernando Henrique Cardoso (que nunca se considerou marxista!). FHC, nosso ex-presidente neoliberal, era conhecido nos anos 1960 por fazer parte da então chamada Escola Paulista, um grupo de intelectuais da antiga Faculdade de Filosofia, Ciência e Letras da USP. De todos os membros da FFCL, era considerado o mais eclético, ou seja, justamente o menos influenciado pelo marxismo. Seu livro, Capitalismo & escravidão no Brasil meridional , de 1962, teve o mérito de mostrar que a escravidão se estendeu todas as partes do Brasil, inclusive ao Rio Grande do Sul, onde alguns diziam não ter tido tanta importância.

Mas a Escola Paulista, em geral, com estudiosos como Florestan Fernandes, Emília Viotti da Costa ou Octávio Ianni, entre outros, tiveram importância e posições muito diferentes das de FHC, o que não permite de forma alguma generalizações

História para inglês ver

É notório que as críticas às ?historiografias de orientação marxista? de Al-Alam são uma versão piorada das feitas por Sidney Chalhoub, em seu livro Visões da liberdade, cujo objetivo central foi criticar o mito do escravo-coisa: uma historiografia marxista reducionista (sic) que não conseguiria perceber as formas diversas e sutis de resistência, adaptação e negociação dos sujeitos subalternizados durante a escravidão. Chalhoub buscou se opor a tais teses, completando com chave de ouro a era da auto-proclamada nova história da escravidão no Brasil.

Assim como Al-Alam bateu nos memorialistas, mas depois lhes passou uma mão compreensiva por cima, Sidney Chalhoub também se jogou contra os coisificadores, relativizando alguns mas lamentando que interessados em história da escravidão ainda dessem ouvidos às teses de Jacob Gorender.

Em linhas gerais, a inclusão de Gorender entre os coisificadores de Chalhoub baseou-se em frase isolada do marxista, descontextualizada até mesmo do parágrafo onde foi apresentada. Uma coisa é dizer ao leitor que, para Gorender, o primeiro ato humano do escravo é o crime, isoladamente. Outra coisa, bem diferente, é situar a frase corretamente, no contexto em que foi escrita: o marxista tratava, neste ponto, da legislação escravista. Para mostrar o quanto as leis no escravismo eram contraditórias, lembrou que cativos eram tratados juridicamente como coisas, podendo ser vendidos, alugados, emprestados, penhorados, mas também acabavam sendo considerados humanos, como os demais, quando cometiam crimes contra os escravizadores, sendo presos, ouvidos em inquéritos, castigados.

Fica clara a deturpação da idéia de Gorender feita por Chalhoub. Isolada, sua frase perdeu todo o sentido. Mas Al-Alam decerto nem se deu ao trabalho de ler o original criticado e, como muitos outros fazem desde a publicação de Visões da liberdade, apenas reproduz tais posições. Gorender, em A escravidão reabilitada, rebateu as críticas que recebeu. Mas vejamos o que Al-Alam tem a dizer sobre seu livro-resposta:

?Gorender em seu ?A escravidão reabilitada?, lançada em 1990, enfatizou a idéia da coisificação do escravo, ou seja, perante o sistema, o escravo era uma coisa, pois era uma mercadoria. Assim, só se tornava homem quando cometia o crime, pois para ser julgado pela justiça, o escravo era reconhecido como pessoa. Só que para este autor, qualquer ato que fugisse da idéia de violência física, como assassinatos, ou quilombos, não poderia ser considerado como resistência [...]".

A escravidão reabilitada na verdade foi publicada em 1991, um ano depois de Visões da liberdade, que ? esta sim - é de 1990. Nesta obra, Gorender não ?enfatizou? coisa alguma, mas, pelo contrário, buscou rebater a acusação de que seria um coisificador. Tanto neste como em seus demais livros, o marxista escreveu páginas e mais páginas mostrando as diversas formas de resistência dos cativos diante da escravidão, que iam desde a insurreição, fugas ou agressão às formas mais sutis, como a dissimulação no trabalho, o desprezo, corpo mole, sabotagem aos instrumentos, suicídio, abortos provocados, etc. Como se pode ver, Al-Alam não entendeu nada do que Gorender escreveu (se é que o leu!) e apenas copiou a deturpação ridícula de Sidney Chalhoub.

Negociação escravista: Traga suas costas que eu levo meu chicote

Historiografias narradas como se fossem Literatura são antigas no Brasil. Um estilo de escrita velho, mas retornado com a força com o neoconservadorismo recente. Em Visões da liberdade, Chalhoub escreveu como se estivesse proseando com o leitor, fazendo de vez em quando pequenas anedotas e demais gracejos durante o passeio. A influência deste estilo em A negra forca... é tanta que Al-Alam chegou a desejar aos seus leitores uma ótima viagem.

Outro livro visivelmente influente em A negra forca... foi Negociação e conflito, de João José Reis e Eduardo Silva. As semelhanças são nítidas, tanto na crítica aos historiadores anteriores como na pretensão de se apresentar como novidade, na narrativa quase literária e sobretudo na contradição entre as fontes e argumentos. Seguindo a tendência francesa, que defende ser a História um romance verdadeiro, Reis e Silva resumiram a escravidão no Brasil desse jeito:

[...] a vida concreta do escravo era algo como um jogo de capoeira ? luta, música e dança a um só tempo. Quilombolas que reivindicam liberdade para ?brincar, folgar e cantar?; religiões de santos guerreiros e santos de paz.

Como se pode ver, já não se trata mais de História e sim poesia...

O trabalho do historiador consiste em estudar, descrever e analisar o passado com base em fontes materiais, fazendo suas argumentações com base nelas. Fontes e argumentos, portanto, são indivisíveis em História. Não pode haver argumentação sem comprovação que a sustente. E o debate historiográfico se dá na avaliação dessas fontes e argumentos articulados, verificando-se seus erros e acertos. Justamente por não ser um romance é que a História não tolera invenções de fatos e argumentos sem comprovação. Se fontes forem conscientemente inventadas, os argumentos não estarão formulando nenhum romance, mas sim, em História, charlatanismo.

Para João J. Reis e Eduardo Silva, a negociação seria a essência da escravidão, mesmo que cercada de conflitos. Note-se que o termo conflito vem depois de negociação. O Brasil escravista seria um mundo de acordos limitados por conflitos. Barganhava-se primeiro, somente haveria atos extremos se os acordos não dessem certo, por impaciência de uns ou intransigência de outros. As fugas existiam, é claro, mas, cativos fugiriam mais para pregar sustos nos escravizadores e negociar seu retorno ao trabalho em melhores condições. Mais do que lutar por liberdade, escravizados reivindicavam também direitos de cantar, folgar e brincar.

Dentre as bases de sustentação das teses de Reis e Silva, que tanto inspiraram A negra forca..., encontram-se casos de revoltas promovidas em engenhos na Bahia, administrados por religiosos, ou deles herdados, em meados do século 18. Tais fontes, porém, desautorizam as argumentações desses autores: os engenhos de religiosos não possuíam as mesmas características dos laicos, que ? estes sim - eram predominantes. Religiosos, apesar de também explorar seus cativos, não o faziam com a mesma voracidade dos laicos. A Igreja possuía outras fontes de riqueza, tradição, estrutura, etc. que a diferenciava dos engenhos privados e não-religiosos. Mesmo assim, as revoltas que sustentaram as teses de Reis e Silva terminaram, todas, em repressão total, sem que fosse acatada nenhuma das exigências dos escravizados revoltosos.

Ou seja, trata-se de argumentação que não se sustenta. E, convenhamos, se a negociação de fato fosse a essência do escravismo que no Brasil durou mais de 360 anos, nosso passado sequer poderia ser considerado escravista.

Purgatório pero no mucho

Depois de Gorender, outro historiador que Al-Alam atacou foi Mário Maestri, historiador que não teria conseguido perceber na Pelotas escravista nada além de trabalho e castigo, apenas retumbado discursos de viajantes estrangeiros antigos que descreveram a cidade como que cercada por penitenciárias, reduzindo assim as experiências de vida, as histórias e trajetórias dos trabalhadores escravizados.

Contraditoriamente, Al-Alam reconhece nas charqueadas pelotenses uma espécie de purgatório. Como constatou, era região de trabalhos tão duros que chegavam a servir de punição aos cativos mais insubmissos trazidos de outras partes do Brasil. Nas charqueadas pelotenses, milhares de cativos labutavam entre 16 e 18 horas diárias, da primavera ao fim do verão, onde sua expectativa de vida no geral não ultrapassava sete anos, transformando um jovem e forte negro em um trapo humano.

Para Al-Alam, a produção historiográfica de Mário Maestri representaria resquícios de uma interpretação da história que remonta às décadas de 50 e 60, surgidas de concepção limitada de cultura, onde cativos ou resistiam à escravidão de forma violenta ou a aceitariam sem vontade própria, enfim, uma versão da coisificação criticada por Chalhoub. Em contrapartida a Maestri, Al-Alam buscou destacar algumas formas de resistência adaptativa dos escravizados, maneiras de sobrevivência e de melhorias de suas condições de vida dentro do sistema.

O historiador Mário Maestri, seja em O escravo gaúcho (de 1993) ou em Deus é grande, o mato é maior! (de 2002), elenca uma série de formas diversas de resistência feitas pelos trabalhadores escravizados no Brasil, em geral, e no Rio Grande do Sul, em específico. É autor de obras diversas que se tornaram referências obrigatórias sobre a história da escravidão, sobretudo no Rio Grande do Sul. Em seus estudos, Maestri tem dado destaque aos numerosos quilombos, grandes e minúsculos, que até hoje ainda estão sendo descobertos pelos pesquisadores. As fugas, de grandes grupos ou individuais, tiveram papel fundamental na resistência dos cativos diante do escravismo. Causavam danos sérios aos escravizadores, muitas vezes arruinando-os. Dentro do período recortado por Al-Alam, por exemplo, houve o conflito intra-oligárquico da chamada Guerra dos Farrapos, isto é, foi época em que cativos aproveitaram para fugir aos montes.

Por diversas vezes o próprio termo trabalhador escravizado aparece em A negra forca..., sem que Al-Alam tenha a menor idéia de onde e como surgiu. Foi apresentado em 2003 por Maestri, em união com a lingüista Florence Carboni, no livro A linguagem escravizada, onde esses autores mostraram que o termo escravo traz em si uma pretensa naturalização da escravidão, formulada por escravizadores desde a Antiguidade. Escravo é substantivo, característica tida como inata, uma justificativa criada para defender a escravidão. Por outro lado, escravizado é adjetivo, mostra uma condição historicamente imposta e que nada teve de natural, mostrando a ação da escravização.

É termo conscientemente utilizado não mais para encobrir e sim para revelar. Al-Alam, mais uma vez, apenas reproduz acriticamente o que lê sem se dar conta disso. Ao enforcar essa verdadeira aula de história apresentada em A linguajem escravizada, de autor que considerou limitado em cultura, perdeu a oportunidade de enriquecer ainda mais sua visão e de seus leitores sobre a escravidão.

Folgados, festeiros e... enforcados

A temporada da produção do charque na Pelotas do século 19 era sazonal. Na entressafra, a mão-de-obra escravizada era deslocada para a construção civil, serviços públicos, calçamento de ruas, levantando o centro comercial ou casarões dos ricos que ainda hoje são admirados pelos turistas que desembarcam na cidade. Havia também toda uma rede de trabalhadores escravizados urbanos e domésticos, varredores de rua, guardas, carroceiros, vendedores, sapateiros, amas-de-leite, costureiros, quituteiras dentre inúmeros outros construtores da riqueza da cidade, responsáveis desde o preparo das mesas ao recolhimento dos dejetos fecais dos escravizadores. Punham a mesa, mas não participavam da festa de seus exploradores.

Obviamente, criavam suas próprias formas de diversão, sexualidade, religiosidade, sociabilidade e solidariedade diversas, mesmo que quase sempre vigiados. Somente uma resistência muito forte pôde fazer com que alguns de seus aspectos culturais pudessem persistir ao longo do tempo . Se a cultura que aqueles subalternizados desenvolveram naquelas circunstâncias terríveis tivesse o mesmo peso da cultura dominante, primeiro anular-se-ia a máxima de Marx de que a ideologia dominante de uma época é a ideologia da classe dominante, e, depois, contrariar-se-ia o fato insofismável de que na Pelotas atual não falamos um Português misturado com Quimbundo.

Abordar as formas gerais de sociabilidade cotidiana e resistências diversas dos grupos ou indivíduos explorados não é novidade na historiografia da escravidão. Mas o afã de igualar escravizadores a escravizados em A negra forca... fez com que Al-Alam cometesse algumas sincadas.

Já que os historiadores tradicionais apresentaram a vida das classes dominantes de forma ?cosmopolita?, Al-Alam resolveu cosmopolitar também o mundo dos subalternizados. Se a versão da História tradicional os omitiu, a de Al-Alam os superdimensionou. E uma miséria imposta foi metamorfoseada em riqueza cultural.

A historiografia marxista procurou enfatizar a opressão e a exploração que determinava a maior parte da dura vida daqueles trabalhadores. Já enfoque de A negra força... centrou-se nos breves momentos de laser daqueles cativos, como se o marginal fosse o essencial e o específico, regra geral. Al-Alam trata mais das festas e folguedos de cativos mesmo sendo inicialmente a justiça, a polícia e as penas de morte seu objetivo central. Quando mostra as fontes diretas, percebemos o quão violenta foi a escravidão em Pelotas. Quando se deixou levar pelo modismo acadêmico encastelado, se contradisse e mostrou uma realidade distorcida.

Fica difícil imaginarmos sujeitos condenados à morte tentando melhorar seu enforcamento. Como negociar com carrascos uma melhor maneira de ser dependurado? Como fazer para adaptar-se ou acomodar-se à uma corda no pescoço?

*Hemerson Ferreira, é professor municipal na cidade de Pelotas, no Rio Grande do Sul, Brasil, formado em História pela Universidade Federal de Pelotas e Mestre em História pela Universidade de Passo Fundo (UPF).