Dado da Pnad se refere à amostra na faixa etária dos 10 aos 14 anos; secretaria estadual contesta o aumento

Simone Iwasso e Alexandre Gonçalves

O Estado de São Paulo registrou um aumento no número de crianças e adolescentes analfabetos, de acordo com a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad) 2008, divulgada pelo IBGE na semana passada.

O levantamento aponta que subiu de cerca de 56 mil, em 2007, para aproximadamente 79 mil, em 2008, o total de crianças entre 8 e 9 anos que não sabem ler nem escrever. Na faixa etária dos 10 aos 14 anos, esse número saltou de cerca de 29 mil para 51 mil. Estão incluídos nos dados tanto crianças matriculadas nas redes de ensino como as que estão fora da escola.

Em relação ao total da população nessa faixa etária, 5,9% das crianças de 8 e 9 anos moradoras do Estado não estavam alfabetizadas em 2008 - o porcentual em 2007 estava em 4%. Na faixa etária seguinte, entre 10 e 14 anos, quando elas deveriam estar cursando a segunda etapa do ensino fundamental, há um crescimento de 0,8% para 1,5%. O índice do Estado puxou uma pequena alta no Sudeste. No País, o dado ficou estável.

Na avaliação da Secretaria de Estado da Educação, essa diferença pode ser explicada por um erro na amostra do IBGE. Após avaliar os indicadores, o secretário Paulo Renato Souza afirmou que nenhuma outra variável poderia ser responsável pelo crescimento, já que não houve pico migratório nem aumento de matrículas nesta intensidade. Além disso, a avaliação dos estudantes aplicada pela rede não aponta para essa direção. O secretário questiona as margens de erro da Pnad.

Ana Lúcia Sabóia, uma das responsáveis pelos indicadores de educação da Pnad, explica que os dados realmente têm uma margem de erro, pois são baseados em amostragem. Mas a diferença no número de crianças analfabetas entre um ano e outro no Estado de São Paulo, segundo ela, não poderia ser explicada pela margem de erro, menor do que a variação observada. Ou seja, para o IBGE, houve crescimento real no período.

Para quem convive diariamente com crianças e adolescentes carentes, os números fazem sentido. Na organização não-governamental Casa do Zezinho, cerca de 40% das crianças atendidas entre 10 e 14 anos chegam ao local analfabetas. O alto índice de jovens nessa condição fez com que a ONG criasse um projeto próprio de alfabetização. "Criamos o projeto porque observamos, há um tempo, a grande quantidade de crianças, especialmente nesta faixa etária, que precisava superar a barreira do analfabetismo", explica Ana Beatriz Nogueira, de 33 anos, mediadora pedagógica da organização. "São crianças e adolescentes que estão saindo do ensino fundamental e não sabem escrever o próprio nome", explica ela. "A maioria delas é "copista", só sabe copiar o que vê na lousa." Das 1.200 crianças atendidas, cerca de 540 estão entre 10 e 14 anos.

Na avaliação da educadora Vera Masagão, coordenadora de programas da organização não-governamental Ação Educativa, outro fator que pode colaborar para o aumento nos números de analfabetismo é a maior conscientização das famílias. "São os pais ou responsáveis que dão a informação sobre os filhos para os pesquisadores do IBGE. Eles podem estar mais atentos, entendendo que estar na escola não significa estar aprendendo." Para Vera, por esse ponto de vista, o índice pode ser positivo. "Pode ser um número que estava mascarado na rede, pela falta de informação e de dados mais confiáveis."

Ednéia Gonçalves, diretora técnica da organização Alfabetização Solidária, que trabalha com formação de professores da educação básica, os dados merecem um estudo mais aprofundado, justamente pela preocupação que eles despertam. "Talvez as políticas novas aplicadas pela secretaria nos dois últimos anos ainda não tenham dado resultado, estão num processo de implementação, e essas crianças são justamente as que estão na fase de transição."

Seja como for, o importante neste momento, segundo Cisele Ortiz, coordenadora da instituição Avisa Lá, especializada em alfabetização e formação de professores, é buscar formas de reverter o processo, ajudando os alunos que não estão alfabetizados. "Independentemente dos motivos, é um indicador que nos alerta para o fato de que alguma coisa está errada e de que há um número de jovens que não sabem ler nem escrever."

Aluna do 5º ano não lê placa, só memoriza letras

Mariana Mandelli

Se está sozinha na rua, Elisangela da Silva Santos, de 10 anos, não consegue ler placas e letreiros. "Não sei ler nem escrever quase nada", afirma a menina, que é aluna do 5º ano do ensino fundamental de uma escola estadual no bairro do Limão, na zona norte de São Paulo.

Elisangela diz que não assiste a filmes legendados e só sabe seu endereço porque memorizou as letras. Para estudar para as provas da escola, ela copia o que está em seus livros e cadernos.
A mãe de Elisangela, a auxiliar de limpeza Lucimara Aparecida da Silva, de 34 anos, conta que a filha decora números e palavras que fazem parte da rotina. "Eu vou lendo e ela vai decorando", afirma. A mãe critica a escola: "Como ela vai passar de ano sem saber nada?"

Para reforçar sua educação, Elisangela fazia parte do projeto Amigo das Letras, da organização não-governamental Vila Criar. O projeto era desenvolvido no conjunto habitacional em que a garota mora, no bairro do Limão.

Cerca de 20 crianças da comunidade tinham o apoio de uma pedagoga para decifrar letras e palavras. "Antes (do projeto), ela não sabia nada. Com as aulas, melhorou um pouco", conta a mãe.

Segundo a coordenadora da ONG, Elaine Chelli, muitas crianças, além de analfabetas, apresentavam dificuldade de concentração e problemas de autoestima. "Temos que ensiná-las a acreditar que são capazes. Só assim ganharão confiança e serão mais receptivas", diz a coordenadora.

O projeto foi suspenso há algumas semanas por problemas internos, mas deve retornar em 2010. Até lá, a mãe de Elisangela diz não saber como fará para oferecer reforço escolar para a filha.