Reginalda lembra que o perigo da falta de moradia rondou também toda sua infância. ?Éramos em nove irmãos. Meu pai sempre pagou aluguel. Depois de 35 anos de trabalho, passando muitas privações, meu pai conseguiu comprar uma casa. A indignação é que dois anos depois ele morreu?, conta. Para ela, a ocupação, além de ser uma necessidade, é um ato político. ?Estamos aqui para mostrar que na cidade de São Paulo existem famílias que não têm onde viver e não possuem outra saída a não ser se submeter a condições subumanas?.

Everton Pereira, de 22 anos, que também está acampado na rua junto com sua filha, esposa, mãe, padrasto e dois irmãos, afirma que tudo o que estão passando é um teste de sobrevivência. ?Olha para isso tudo, vivemos literalmente na lama?, aponta para as crianças que brincam no lodo. ?Deviam inventar um novo ditado: pobre que come não paga aluguel e aquele que paga aluguel não come?, afirma com indignação.

Pereira, que trabalhava como porteiro e está desempregado, resume como tem sido sua vida nos últimos meses: ?Com a vida abrigada por uma lona não conseguimos ter uma noite de sono em paz?.

Vulnerabilidade

Sem um teto a vida humana está exposta a todo tipo de incerteza e desastre. Maria do Planalto conta que uma criança com sede, na primeira noite de acampamento, bebeu água sanitária pensando que era água. ?Ficou no hospital até ser desintoxicada?.

E ainda, Geralda Graziele, de 59 anos, no dia do despejo, com toda a pressão policial e a insegurança de viver na rua, sofreu uma paralisia facial e teve que ser socorrida às pressas. ?Minha pulsação chegou a quase 200 por minuto?, conta. Agora seu rosto já não está tão deformado. ?Faço certinho os exercícios que o médico me passou?. Depois de quatro dias, ainda em recuperação, Geralda voltou para a vida na lona. ?Quem não luta está morto?, afirma. Despejo Para o coordenador da FLM, Osmar Borges, outro fator que causou indignação, até mesmo nos oficiais de Justiça que foram executar o despejo, foi o erro no processo Judicial, intencional ou não. ?Os oficiais ficaram indignados, pois no processo contava que apenas seis famílias viviam no local, mas na verdade estavam em mais de 900 famílias, das quais 240 não tiveram outra alternativa senão a rua?, afirma o coordenador.

Histórico

As 980 famílias que viviam na ocupação Alto Alegre, distrito de São Mateus, sofreram reintegração de posse durante toda a quarta-feira (21/10). A data inicial determinada pela Justiça para o despejo havia sido 14/10. Em reunião com as famílias, a CDHU havia garantido a prorrogação do prazo até que, pelo menos, saísse o atendimento emergencial. Isso não ocorreu e as famílias foram surpreendidas pela Tropa de Choque na madrugada da quarta-feira. O terreno de 280 mil metros quadrados, que fica na rua Bento Guelf, foi ocupado pelas famílias do Movimento de Moradia Terra de Nossa Gente (MMTNG) e Movimento Sem-Teto pela Reforma Urbana (MSTRU), ligados à Frente de Luta por Moradia (FLM), no dia 13 de abril deste ano.

A área é de propriedade particular e possui histórico de ocupações irregulares e grilagem de terra. O proprietário responde processo por crime ambiental já que desmatou, sem autorização, toda a área. Apesar do crime cometido, ele não sofreu ainda nenhuma condenação. Além disso, possui dívida de pelo menos R$ 2 milhões junto ao BNDES (Banco Nacional do Desenvolvimento Econômico e Social).

A FLM, desde a ocupação, vem fazendo tentativas de negociação com a prefeitura e o governo do Estado para que haja a expropriação ou desapropriação da área. O governo municipal havia agendado na semana passada o cadastro de todas as famílias para o atendimento emergencial. Mas foi adiado por várias vezes e não foi efetivado. A Frente abriu diálogo ainda com o governo Federal, por meio do Ministério das Cidades. A instância Federal se comprometeu em disponibilizar recursos para a construção das unidades, via o Programa Minha Casa, Minha Vida Entidade ou pelo Fundo de Promoção Social à Moradia. Mas para isso, precisa do compromisso da CDHU (Companhia de Desenvolvimento Habitacional e Urbano do Estado de São Paulo) para que viabilize o terreno. O acampamento ficava ao lado do CEU Alto Alegre, cuja terra, 34 mil metros quadrados, foi desapropriada do mesmo dono em benefício da Secretaria Municipal e Educação. Isso mostra que áreas vazias devem sofrer intervenção para que ganhem função social. A FLM luta para que a destinação da área seja para moradia de interesse social.