As pequenas reformas que Zelaya implementava (como por exemplo cobrar impostos de multinacionais que nunca pagaram impostos em Honduras ou aumentar o salário mínimo) e a possibilidade da eleição de uma Assembléia Constituinte foi o suficiente para a reação enérgica e dura da oligarquia hondurenha, que não poupou os recursos mais cruéis que há décadas vem sendo utilizadas em golpes militares na América Latina: técnicas de tortura, esquadrões da morte, fechamento de meios de comunicação, repressão a manifestações de rua, prisões em massa, estupros, entre outros.

A Frente Nacional de Resistência Contra o Golpe de Estado - formada por movimentos sociais, indígenas, sindicatos, movimentos de mulheres e outros grupos que não aceitam o governo de Micheletti - disse não reconhecer as eleições do dia 29 de novembro e convoca o povo a não votar. Micheletti já avisou que irá prender qualquer pessoa que estiver fazendo campanha pelo boicote às eleições. Em todas as regiões os movimentos vem sofrendo uma grande repressão, que não diminuiu ao se aproximar a data da eleição. Várias comunidades tem sido hostilizadas com helicópteros e incursões de tropas militares e algumas tem conseguido reagir e expulsar os militares da região, mas a represália resulta em prisões ilegais e tortura.

Professores, indígenas, camponeses tem sido perseguidos e executados por grupos armados e encapuzados também durante a campanha eleitoral e muitas cidades de Honduras tem sido ainda mais militarizadas nas últimas semanas. Romeo Vazquez, chefe militar de Micheletti, afirmou existirem planos para deslocar soldados em helicópteros para qualquer lugar de Honduras que julgue necessário. Várias comunidades tem sido ocupadas por militares e territórios indígenas de propriedade coletiva tem sido invadidos para projetos privados se instalarem. E, apesar da volta dos meios de comunicação contrários ao golpe, um canal de TV contrário ao golpe denunciou nesta semana que teve seu sinal cortado na hora do noticiário de manhã. Ainda assim, a Resistência tem realizado campanhas contra as eleições, como um bloqueio da sede do Partido Liberal, que conseguiu impedir que um comício do candidato Elvin Santos acontecesse em La Esperanza (Intibucá), na última semana.

Sobre o momento atual da resistência em Honduras, Bertha Cáceres, do Consejo de Organizaciones Populares e Indígenas de Honduras (COPINH), disse em uma entrevista que "o atraso que trouxe o golpe foi contrabalançado pelo despertar do povo e a tarefa é aprofundar este avanço, que é intensamente humano e que ainda não podemos dimensionar nem medir". Neste sentido, continua ela, "as eleições de 29 de novembro vão ter um grande rechaço popular porque, apesar do bombardeio midiático, o povo sabe entender e decidir. Este povo vai surpreender e é preciso ter fé, intensificando o trabalho para que essa farsa não seja reconhecida".