Hoje, uma das primeiras coisas que leio dos jornais é o obituário de Dona Felícia Mardini de Oliveira, ocorrido semana passada, em São Paulo.

Dona Felícia foi torturada pela ditadura e continuou a ser torturada depois da ditadura, até o dia de sua morte. Pois não merece outro nome senão tortura o que se faz a uma mãe ao deixá-la durante 38 anos sem saber o que aconteceu com sua filha.

Ísis Dias de Oliveira, essa moça da foto, desapareceu em 1972, quando integrava um grupo de resistência à ditadura. Ninguém sabe como, exatamente, foi o seu fim.

Dona Felícia, durante anos, tentou sabê-lo. Viajava constantemente ao Rio, onde Isis tinha vindo viver. Foi a Londres, porque ouviu uma informação de que ela poderia estar lá.

O que se sabe de sua morte é apenas que foi de prisão em prisão, de janeiro a julho de 1972, até se ter a última notícia, a de que estaria detida no Campo dos Afonsos, aqui no Rio.

Enquanto a idade permitiu, D. Felícia perambulou por sua Ísis. O que ela tem por lápide é uma pequena praça na Zona Oeste de São Paulo, onde se gravou numa pedra: "Quando eu não puder mais falar, vocês falarão por mim".