"Diga a ele que se oriente!"

quarta-feira 5 de maio de 2010

Quem acompanha a luta do MSTB sabe que as 21 famílias da ocupação do prédio nº 36/38 da Rua do Passo, no Pelourinho, estão sendo ameaçadas por uma reintegração de posse. Não têm para onde ir, mas estão sendo despejadas. Sandra Coelho, moradora da ocupação vizinha (IPAC III), tem apoiado a ocupação, e explica o que aconteceu por lá depois que a oficial de justiça apareceu no dia 04 de abril.

Sobre o dono desses dois prédios aqui na Rua do Passo, o 36 e o 38, o nome dele é Humbert Marie, o restante eu me esqueci.

A gente sabe que a obra dele nestes dois prédios foi embargada em 2007 pelo IPHAN [1], justamente porque mudou as estruturas. Não só mudou as estruturas, mas também ficou sem dinheiro. Aí diz que ele foi pedir empréstimo ao governo brasileiro, mas o governo brasileiro não cedeu, e ele foi foi pra França ver se conseguia na França, entendeu, e aí ele fechou o prédio, deixou o prédio fechado.

Que estrutura governamental é essa que não consegue administrar? Porque a pior cidade, o pior Estado em relação à moradia é a Bahia. Quando tem é espaço! Esse Centro Histórico, se você olhar, tem é prédio caindo aos pedaços! Tá tudo errado! Eles tinham que fazer um seminário com a comunidade, pelo menos uma vez no mês, uma vez de seis em seis meses, porque a comunidade sabe o que está acontecendo no Centro Histórico. E é bem capaz de a comunidade ajudar o governo com uma solução, porque eles não têm, pelo que eu percebo eles não têm plano nenhum pro preto, pro pobre, a situação é muito horrível.

É a discriminação, o abandono, o preconceito, entendeu? É o quê, eu não vou dizer que eu sou a favor dessa violência que está acontecendo no país. Não só do país, é questão do mundo todo. Mas essa questão é governamental, isso é culpa do governo! Não só do governo da Bahia, de todo governo! Eles parece que escolhem quem pode morar melhor, quem pode morar pior, se fosse assim eu tava agora lá no Itaigara... é outra Salvador, o Itaigara. Ali tem um plano de moradia incrível! Por quê? Por causa da condição social do povo! Quando eles podem fazer esse mesmo plano para o povo mais fraco! Ói aqui o Orion aqui, número 12, vizinho à Casa das Sete Mortes, 24, na Rua do Passo, o prédio Orion tá à venda! Tem sessenta unidades o prédio Orion. Será que o governo não podia negociar, comprar para passar para o Movimento de Sem Teto? Está à venda há meses, há meses, tem mais de dois anos que está à venda. E abrange as pessoas que estão sendo expulsas por um francês, por um europeu que chega aqui no Centro Histórico de Salvador e expulsa o remanescente da cidade! E ele quer o espaço em 24h! Ora, a gente ocupou porque estava vazio, se tivesse algum fim social a gente não tinha ocupado!

A gente quer é obrigar o governo a enxergar o abandono do Centro Histórico, obrigar o governo a enxergar a quantidade de prédios que está caindo ? se você quiser pode tirar um dia aqui que eu lhe mostro, os prédios caindo, não só do governo, tombados pelo governo, mas da Santa Casa também. Aí quando as pessoas chegam porque querem morar ? e Salvador é uma cidade onde a gente não pode chegar construindo em qualquer lugar que desaba tudo, não é preparada pra receber chuva ? as pessoas não tem onde ficar. Porque ninguém quer passar por uma humilhação dessas, de ser despejada, de vir uma ordem judicial com força policial, de vir um europeu e dizer ?eu quero, é minha, porque fui eu que comprei?, entendeu?

E o cara comprou por bagatela. Esse prédio foi comprado por cento e cinquenta mil cada um. [4] E é prédio. A gente está procurando investigar tudo isso. E aí tendo um prédio que o governo pode ver um financiamento, que pode reformar, fazer os apartamentos, fazer uma estrutura que venha... Quando eu pego um carro e vou pro lado de lá é diferente. É capaz de quando a chuva cair no chão ela voltar! Nem consegue, a água não consegue nem ficar no chão! Por que essas pessoas merecem e a gente não merece? Quando a gente vai votar, quem é que mais vota, não é o preto e pobre? Que mais vota, pra ver se muda, pra ver se a vida deles muda?

O que tá acontecendo é o seguinte: tão vendendo pros estrangeiros ? porque um grupo de espanhóis comprou o Santo Antônio, praticamente; no Santo Antônio a gente não vê mais remanescente do Centro Histórico ? o grupo Iguatemi comprou, um grupo de espanhóis comprou, e aí vai bafando, vão comprando, e a gente aqui do Centro Histórico, somos cachorro? Não somos gente?

E o francês não só comprou o prédio por bagatela como colocou a estrutura europeia. E esse não é o único não. No Santo Antônio tem um também que é quase do mesmo padrão. Eles mudam toda a estrutura do prédio, foi o que fizeram neste daqui. Tá vendo este vácuo no meio aí? Já vi na internet, já vi em revista, parece um jardim suspenso, alguma coisa assim, que ele ia fazer do jeito como o branco pensa. Falo sem preconceito, mas isso aqui, o Centro Histórico, quem construiu foram nossos ancestrais, foram os nossos antepassados, e estão sendo desrespeitados por europeus que nos colonizaram. E a gente não vai aceitar isso aqui.

E outra coisa: a gente quer saber do IPHAN e do IPAC se eles são conscientes dessa mudança estrutural que o francês fez no prédio. Entendeu, se o IPHAN está sabendo disso, porque a gente aqui não pode nem pintar a fachada do prédio. Eu moro no 46 e o prédio tá lá sem pintar até hoje. A gente não pode pintar, e é porque ele chega, porque ele comprou que ele pode mudar a estrutura do prédio? Só pra barzinho. Aqui não tem uma farmácia, aqui não tem uma biblioteca, aqui não tem um teatro decente que funcione ? no Teatro XVIII está sempre com problema ? aqui não tem um supermercado, não tem um açougue... O que tem aqui é muito bar. Eu não falo nem do bar, mas o que é que bebida traz? Bebida traz o quê? Outros problemas! A gente quer um Centro Histórico decente! Se o governo quiser a gente tem um projeto para o Centro Histórico, precisa é ouvir a gente, que a gente tem! Acabar com esse negócio, com essa agonia...

O oficial de justiça esteve aqui na terça-feira passada ? ela, porque foi mulher, e eu ainda falei até ?graças a Deus que foi uma mulher que veio? ? ela e mais outro rapaz. Não veio com força policial, E aí ela mesma falou pra gente que o proprietário queria pra ontem o prédio, que era pra retirar a gente em vinte e quatro horas, mas o juiz foi mais sensato e disse ?não, mas não se pode tirar as pessoas em vinte e quatro horas, se eles ocuparam é porque eles precisam do espaço pra morar, como é que vai tirar em vinte e quatro horas? Dá oito dias pra eles, para as famílias procurarem um lugar, para o movimento procurar um lugar onde colocar estas famílias?.

Vieram hoje, na terça-feira. [5] Não vieram com força policial, veio a oficial, o advogado e mais um rapaz, e a gente pediu, que algumas pessoas já retirou mas ainda está faltando retirar mais outras pessoas que a gente não tem ainda onde colocar. Então ela deu mais dois dias, mas a pressão do francês tá demais! Se a gente está aqui tomando conta do espaço dele, que podia ter entrado aqui um grupo de traficantes, de bandido perigoso, e ele nunca mais rever o prédio dele? Aqui tem famílias, senhoras, mulheres, crianças... a maioria aqui é de mulher, 90% aqui é de mulher... a gente tá tomando conta, entendeu? E ele tá com essa pressa toda de botar a gente pra fora, nós somos cachorro, é? Diga a ele que se oriente! Observações

[1] Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional, órgão do governo federal ligado ao Ministério da Cultura e responsável pelo manejo de parte dos imóveis tombados pelo patrimônio histórico existentes no Pelourinho.

[2] Defesa Civil de Salvador.

[3] Instituto do Patrimônio Artístico Cultural da Bahia, órgão do governo do Estado da Bahia responsável pela preservação do patrimônio histórico, artístico e cultural tombado pelo Estado e dono de boa parte dos prédios do Pelourinho.

[4] A ocupação é composta por dois prédios, de nº 36 e 38, que haviam sido, respectivamente, sedes do Sindicato dos Rodoviários e da CUT antes de serem vendidos. Sua parede divisória foi demolida.

[5] 04 de maio de 2010.