Tudo estava em aberto e era possível hoje, porque quem estava nas ruas já sentia que o medo de estar ali já era coisa do passado. E não é pouco isto: já passaram seis meses inteiros que dia a dia, momento a momento, minuto a minuto, nos impregnavam, gota a gota, o medo. Dormíamos cada noite com raiva, com um nó na garganta - porque já conhecíamos a hipocrisia -, e despertávamos com o medo no coração. Porque não conhecíamos o que viria com o amanhecer: íamos amanhecer com os bancos fechados? Com os nossos salários e economias roubados? Com o país em quebra? Não conhecíamos como ia amanhecer o dia para nós. Para cada um e cada uma e para um povo inteiro.

E putos de tantas análises sobre os motivos da crise, chateados pelos números dos milhões de milhões de euros, nos despertamos um dia dando-nos conta que nós - os de baixo - íamos pagar a conta dos de cima.

Era, e é, tão simples e tão terrível: o FMI e países da União Européia iam emprestar -EMPRESTAR - à Grécia tantos e tantos milhões de euros (140.000.000) a um interesse de 5%. Para a Grécia pagar a sua dívida aos bancos alemães, franceses, ingleses, gregos, espanhóis etc... por um interesse que superava os 7%. E isto tínhamos - teremos - que pagar nós: um povo humilhado a quem utilizam como cobaia para provar no seu corpo o que sobretudo lhes interessa: se podem fazer passar aos povos europeus - com leis e consenso adquirido pelo medo - a flexibilidade e a precariedade no trabalho. Para ganhar mais e mais. Assim, tão simples. E eles, os de cima, acreditavam que já tinham ganhado o jogo. Todavia não sabemos se ganharam, mas as manifestações de hoje na Grécia mostraram - e eles já sabem - que as "ovelhas-cobaias" PODEM desviar-se da sorte que lhes reservam os pastores: a do massacre.

Hoje na Grécia tudo está aberto: se a manipulação pela desgraçada perda das três vidas lhes servirá - como querem - para impor, outra vez, o medo e o silêncio a sociedade, é o que veremos nos próximos dias. Nós continuaremos sem conhecer o que nos espera. Mas também conhecemos duas coisas, que as manifestações de hoje as gritaram: somos muitos os e as que não vamos ficar calados, somos muitos os que hoje superamos o medo. E: os e as que somos e que estamos aqui para inventar a resistência contra a onda de fascismo que nos impõem, necessitamos da solidariedade de cada um e de cada uma, de todos e todas na Europa e no mundo que sejam companheiros e companheiras. Trata-se da nossa vida, da nossa dignidade, da vossa vida e da vossa dignidade.

Está em jogo o sonho comum: estamos num momento crucial. Vamos construir esse novo mundo? Passa a resposta também pela solidariedade (com o significado da palavra em grego: eu por ti, porque em ti confio e estou pronto para o que for preciso por ti, porque és meu irmão) e a irmandade.

Hoje nas ruas sentimos que não somos indivíduos que dormimos e despertamos cada um com a sua raiva e os seus medos. Amanhã necessitamos de todos e de todas nesta luta que será longa...

SÓS NÂO PODEMOS!

A manifestação em Atenas começou pela manhã, às 11h. Haviam-se convocado quatro concentrações diferentes. O PAME (?Frente? controlada pelo Partido Comunista KKE) em Omonia, os sindicatos oficiais GSSE e ADEDY em Pedío Areos, várias organizações de esquerda e anarquistas e os sindicatos de base no Museu Nacional e na Praça de Victoria, organizações e sindicatos anarquistas. Muito cedo, já desde às 11h30, ficou claro que não iriam existir quatro manifestações diferentes, simplesmente porque era tanta gente que rapidamente as quatro concentrações se haviam unido numa só: desde Omonia até à Praça Victoria não cabia mais nem um alfinete.

Com valorizações "mais ou menos", era a maior manifestação que viveu Atenas desde há trinta anos, comparando-a as maiores, as manifestações nos primeiros aniversários da queda da ditadura.

A polícia deixou passar em paz os manifestantes do PAME e os dos sindicatos oficiais, mas começou a cercar (literalmente) a manifestação quando desfilavam os sindicatos de base, as organizações de esquerda e do espaço anarquista. Por volta das 13h30 a tensão subiu ao pico porque toda a gente, até a que desfilava com os sindicatos oficiais, estava furiosa e o objetivo da sua raiva era a polícia. Os gases lacrimogêneos transformaram uma vez mais o centro de Atenas num inferno. Mas as pessoas insistiam: vamos ao Parlamento. A manifestação se dispersou uma e outra vez pela repressão, mas a gente não saía e se concentrava outra vez.

Por fim formou-se uma concentração que começou a caminhar passando outra vez pela Omonia e pela rua Stadíou. Íamos para o Parlamento quando se deu a conhecer a noticia dos três mortos. Não saiu ninguém. Uma manifestação silenciosa, raivosa - e paralisada - até às 17h quando foi invadida por um exército de motocicletas policiais e um exército de agentes antidistúrbios.

Tantos que até os jornalistas dos canais de televisão gritavam que "isto nem nos filmes temos visto, nos atacam a todos por todos os lados, é um exército". E era um exército. Que se espalhou por todo o centro. Proibiram-se de passar as pessoas nas ruas centrais. Proibiu-se. Assim, sem mais nem menos. Tinhas que caminhar como quatro quadras para encontrar uma rua aberta para chegar a sua casa. Apareceu na televisão o primeiro-ministro, esse Giorgos Papandreou para culpar os "desobedientes e a sua violência". Sem deixar de recordar-nos que temos que cumprir as ordens, pois, o seu governo, o FMI e a UE têm como único objetivo "salvar" a Grécia. Todos os demais que não queremos esta "salvação" somos responsáveis - segundo o primeiro-ministro - da morte trágica dos três empregados do Banco Marfin. Segundo o primeiro-ministro, segundo o senhor Samaras (Presidente do Partido da Nova Democracia) e segundo o senhor Bgenopoulos - proprietário do Banco Marfin, o homem que nos últimos anos domina a vida econômica do país, proprietário de bancos, iates e da Olympic Airlines que lhe entregou o Estado grego faz alguns meses... - todos e todas somos culpados e "cúmplices" se não consentimos no que, sobretudo é: a "salvação da pátria".

Desculpem se este escrito segue sem a coerência devida. Há momentos em que ninguém sabe por onde começar e onde terminar. Vivemos um desses momentos na Grécia. E necessitamos de vocês. SÓZINHOS E SÓZINHAS NÃO PODEMOS seguir com a esperança que hoje encheu as ruas da Grécia.

Desde a Grécia...

Atenas, 5 de maio de 2010.
Tradução > Liberdade à Solta
agência de notícias anarquistas-ana
Brisa de outono
Como flechas de sombras
Os pássaros voltam.
Jorge Lescano