Um cenário improvável, mas não descartável

José Serra a rigor nunca foi um sujeito de esquerda. Pertenceu aos quadros da esquerda católica, a chamada Ação Popular, nos idos de 1964, e mesmo depois do golpe. Mas isso não significa muita coisa, ou melhor, não garante nem é razão suficiente para configurar uma identidade de esquerda ao ex-presidente da UNE. Saiu do País, não porque estivesse sendo perseguido pela ditadura, Serra, diga-se de passagem, nunca levou nem peteleco na orelha da repressão policial-militar. Foi para o Chile para estudar, coisa que também não fez de forma completa, e para acompanhar alguns amigos que ficaram indispostos com os gorilas, aqui, um deles foi o professor Cardoso, com relações na Cepal e junto a ambientes acadêmicos. Serra simplesmente foi na carona de seus amigos influentes.

Portanto, se engana Marco Aurélio Garcia que na Folha de hoje diz que Serra (na foto acima, com o ex-governador Arruda, afastado por corrupção no DF) foi um militante de esquerda, ao lamentar que ele - Serra - encerre de "forma tão melancólica a sua carreira pública". Ter passado meteoricamente por organizações com aroma de esquerda, como a AP, convenhamos, não faz deste transeunte passageiro um convicto militante da "filosofia da praxis", como dizia Antonio Gramsci. Nem todo o sujeito que cheira a peixe é necessariamente um pescador profissional, pode tratar-se tão-somente, de alguém que tenha aversão ao banho, por exemplo.

Na presente campanha eleitoral, o candidato da direita tenta dar alguma coerência ao discurso passadista que escolheu. Mas o resultado é patético. Nos últimos dias, Serra tem apelado para o baú de 1964, revivendo consignas contra o sindicalismo, contra o peleguismo, contra o comunismo e só falta convocar - como o velho padre católico/agente da CIA, Patrick Peyton - uma cruzada do rosário em família. Os argentinos tem uma expressão para descrever a atual retórica serrista: discurso gorila.

Serra, assim, se presta ao papel de vivandeira tardia (mulheres que no século 19 acompanhavam as tropas militares nas campanhas bélicas dispensando-lhes toda a sorte de serviços ambulantes), em pleno século 21, mesmo sabendo que os militares brasileiros, hoje, estão mais para tigres de papel do que gorilas sequiosos de poder, como em 64.


Desta forma, face ao desastre anunciado com esse parelheiro da direita, não se descartaria o seguinte cenário, mesmo que remoto: Serra renuncia à candidatura, provocando uma comoção nos salões de tapetes puídos do PIG, jogando na imponderável aventura dos agentes provocadores, ao estilo doutora Sandra Cureau. A intenção óbvia seria a de deslegitimar a vitória da candidata lulista, descortinando cenários improváveis e temerários, numa espécie de reedição do janismo tresloucado de 25 de agosto de 1961.

Repito que se trata apenas de uma cenário remoto, mas que não deve ser descartado por aqueles que conhecem um pouco da história brasileira.

Uma coisa é certa: todo o desesperado - qual Serra - quer socializar a sua desesperança a toda a gente.

Coisas da vida.