Em um artigo de título "Um Programa de Transição Anti Capitalista", publicado nesta página, o Raymundo Araújo Filho escreveu, entre outras coisas, que "...10% (apenas 18 Milhões dos mais ricos), continuam a consumir 50% de tudo o que existe no país e os 10% mais pobres apenas 3%".

Na tentativa de justificar as desigualdades sociais e salvar a pele do capitalismo, o Mundim destacou tal afirmativa e disse:

"Não adianta espremer o bagaço da laranja
Pedro Mundim 13/07/2010 12:44

"...10% (apenas 18 Milhões dos mais ricos), continuam a consumir 50% de tudo o que existe no país e os 10% mais pobres apenas 3%"

Olha a sutil escolha da palavra: consumir. Os 10% mais ricos não consomem 50% de tudo o que existe no país, não é isso. Os 10% mais ricos detêm os meios de produção que, avaliados, correspondem a 50% da riqueza nacional. Mas do jeito que a frase foi construída, fica parecendo que os ricos comem 10 bois por semana e moram em mansões do tamanho de um bairro inteiro, deixando o resto da população com fome e sem teto. Não é o consumo excessivo dos ricos a causa do baixo consumo dos pobres, rico não consome mais, rico consome melhor. Os ricos são, simplesmente, os gestores da economia, pois na posição de proprietários dos meios de produção, cabe-lhes tomar decisões executivas e gerenciais. Eliminar os ricos não fará se materializar nas prateleiras, por encanto, tudo aquilo que os pobres necessitam. Eliminar os ricos significa, simplesmente, substituí-los por outros no papel de gestores da economia. Mas esses outros vão conduzir os meios de produção de modo a fazê-los produzir tudo aquilo que falta aos pobres?

A experiência mundial (Cuba, ex-URSS) mostra que não. O máximo que eles conseguem fazer é instituir um esquema de racionamento que distribua de forma mais ou menos igual os poucos ítens disponíveis. Isso porque a causa da pobreza não é a ganância dos ricos, mas a insuficiência dos meios de produção existentes nos países pobres, que geram pouca riqueza a custa de muito trabalho.

Mobilizações populares e outras formas de pressão política nada mais são do que espremer o bagaço da laranja: sai uma ou duas gotas, e mais nada. Nem pode ser diferente: o governo não produz riqueza, o governo cobra impostos. Em outras palavras, o governo não pode dar ao povo nada que não tenha dele antes tirado. O governo só pode prover bons serviços quando é rico, e o governo só é rico quando são ricos os cidadãos e empresas privados que pagam impostos. O mais é conversa fiada.

Sobre a sugestão de votar nulo, repito aqui o provérbio:

"AQUELES QUE TÊM NOJO À POLÍTICA SÃO GOVERNADOS PELOS QUE NÃO TÊM"".

 http://prod.midiaindependente.org/pt/blue/2010/07/474528.shtml

O Pedro Mundim tem certa dose de razão em relação ao consumo do industrial. De fato, 10% dos capitalistas não consomem 50% da riqueza, mas essa estúpida concentração da mesma reduz ao mínimo possível o consumo de grande parte da população brasileira, pois, devido ao fato de os salários integrarem os custos de produção, os burgueses contratam o menor número possível de operários, pagando-lhes o menor salário possível e impondo-lhes a mais extensa jornada de trabalho possível e extrema intensificação do trabalho. Em sendo assim, os empregados consomem apenas o suficiente para continuarem trabalhando os desempregados não consomem quase nada.

Se os meios de produção forem socializados, os atuais empregados trabalharão menos e consumirão mais, enquanto os atualmente desempregados conseguirão emprego e terão suas necessidades satisfeitas. O aumento da produtividade do trabalho servirá para, combinadamente, reduzir a jornada de trabalho e elevar o consumo dos trabalhadores, em vez de servir para demitir parte deles, o que acontece no capitalismo.

Caso haja superprodução de riqueza, essa não será destruída, como é de praxe na sociedade burguesa, mas distribuída, já que na sociedade socialista o objetivo da produção é a satisfação das necessidades sociais e não a obtenção de lucro e a acumulação de capital.

Diz o Pedro Mundim que "a causa da pobreza não é a ganância dos ricos, mas a insuficiência dos meios de produção existentes nos países pobres, que geram pouca riqueza a custa de muito trabalho." Realmente, não é a ganância dos ricos a causa da pobreza mas também a causa da mencionada pobreza não é a insuficiência dos meios de produção, que geram pouca riqueza à custa de muito trabalho. O Mundim se esqueceu que, na sociedade burguesa, o que causa a miséria é a superprodução e o que causa a superprodução é o aumento da produtividade do trabalho sem a correspondente redução da jornada de trabalho. Paradoxalmente, é o crescimento das forças produtivas que causa a pobreza da sociedade burguesa. Numa sociedade baseada na cooperação, e não na competição, na qual os meios de produção sejam propriedade da coletividade e não de particulares, o aumento dos referidos meios de produção significarão maior riqueza, e não o crescimento da miséria.

Embora o consumo dos industriais seja controlado, o consumo dos latifundiários é perdulário, pois a sua fonte de renda é a terra e o trabalho alheio. Assim, sua renda está sujeita a riscos mínimos, diferentemente do lucro do industrial, que poderá falir, interrompendo sua acumulação de capital, se as coisas desandarem. É o que Marx constatou nos Manuscritos Econômicos-Filosóficos:

"Há uma espécie de riqueza que é inativa, pródiga e devotada ao prazer, cujo beneficiário se comporta como um indivíduo efêmero, de atividade sem propósito, que encara o trabalho escravo dos outros, o sangue e o suor humanos, como a presa de sua cupidez e vê a humanidade, e a si mesmo, como um ser supérfluo e votado ao sacrifício. Assim, ele adquire um desprezo pela humanidade, expresso na forma de arrogância e de malbaratamento de recursos que poderiam sustentar cem vidas humanas, e também na forma da ilusão infame de que sua extravagância irrefreada e seu interminável consumo improdutivo é condição indispensável ao trabalho e à subsistência de outros. Ele vê a realização dos poderes essenciais do homem apenas como a realização de sua própria vida desordenada, de seus caprichos e de suas idéias inconstantes e bizarras. Tal riqueza, contudo, que vê a riqueza somente como um meio, como algo a ser consumido, e que é, portanto, tanto senhora como escrava, generosa como mesquinha, caprichosa, presunçosa, vaidosa, refinada, culta e espirituosa, ainda não descobriu a riqueza como uma força inteiramente estranha, mas vê nela seu próprio poder e fruição antes que riqueza. . . meta final.

. . .. e a fulgente ilusão acerca da natureza da riqueza, produzida por sua estonteante aparência física, é defrontada pelo industrial trabalhador, sóbrio, econômico e prosaico, que está esclarecido a respeito da natureza da riqueza e que, embora incrementando a amplitude da vida regalada do outro e lisonjeando-o com seus produtos (pois seus produtos são outros tantos ignóbeis mimos para os apetites do perdulário), sabe como apropriar para si mesmo, da única maneira útil, os poderes decadentes do outro. Malgrado, portanto, a riqueza industrial pareça à primeira vista ser o produto de riqueza pródiga e fantástica, não obstante despoja o último de maneira ativa por seu próprio desenvolvimento. A queda da taxa de juros é uma conseqüência necessária da evolução industrial. Assim, os recursos do arrendatário esbanjador minguam proporcionalmente ao aumento dos meios e oportunidades de divertimento. Ele se vê obrigado, seja a consumir seu capital e arruinar-se, seja a tornar-se ele próprio um industrial. . . Por outro lado, há um aumento constante da renda da terra no decorrer do progresso industrial, mas consoante já vimos deve chegar uma hora em que a propriedade imobiliária, como qualquer outra forma de propriedade, recai na categoria de capital que se reproduz por meio do lucro - e isso é resultado do mesmo progresso industrial. Assim, o perdulário proprietário de terras tem de entregar seu capital e arruinar-se, ou então tornar-se um rendeiro de sua própria propriedade - um industrial agrícola.

O declínio da taxa de juros (que Proudhon considera como abolição do capital e uma tendência para a socialização do capital) é, pois, antes um sintoma direto da vitória completa do capital ativo sobre a riqueza pródiga, i. é, a transformação de toda propriedade privada em capital industrial. É a vitória completa da propriedade privada sobre suas qualidades aparentemente humanas, e a submissão total do dono da propriedade à essência da propriedade privada - o trabalho. É evidente que o capitalista industrial também tem seus prazeres. Ele não retorna absolutamente a uma simplicidade antinatural em suas necessidades, mas sua fruição é somente questão secundária; é recreação subordinada à produção, e, assim, um divertimento calculado, econômico, pois ele anota seus prazeres como um desembolso de capital e o que esbanja não deve ser mais do que pode ser substituído com lucros pela reprodução do capital. Destarte, o divertimento fica subordinado ao capital e o indivíduo amante de prazeres e sujeito ao acumulador de capital, enquanto outrora ocorria o contrário."

 http://www.marxists.org/portugues/marx/1844/manuscritos/cap05.htm

O Mundim tem repetido ad nauseaam que do lucro do empresário apenas uma pequena parte é consumida improdutivamente por ele, que o grosso do seu lucro se torna capital e é reinvestido na economia, gerando emprego e riqueza. Ora, de que adianta à classe despossuída essa super-acumulação de capital e esse reinvestimento se tudo desemboca na superprodução e no aumento da miséria social?

De nada adianta a frugalidade dos ricos se a riqueza não é distribuída.