Nossas comunidades sempre mantiveram uma produção cultural intensa e independente, e nos últimos anos a coisa ficou ainda mais agitada com a multiplicação de coletivos de cultura, muitos deles buscando construir uma cultura de resistência, com uma capacidade organizativa que poderia contribuir para o fortalecimento das quebradas.

Acontece que os abutres - os Itaús Culturais da vida, a mídia, os politiqueiros, os "governantes" - logo perceberam esse potencial, e se mobilizaram para acabar com ele, e ainda fazer dinheiro com isso. Por meio de editais e migalhas de diversos tipos, junto com holofotes e pagação de simpatia para inflar o ego dos vaidosos, esses abutres conseguiram acabar com a independência e a radicalidade de muitos grupos, que quando não racharam, viraram reféns dos financiamentos, e consequentemente dos financiadores. Presos ao individualismo e ao estrelismo, muitas pessoas se rebaixaram à condição de funcionários de uma "política cultural" precarizada, barata e tosca, para "pobres". Por outro lado, foi feito um grande esforço para vender a periferia como uma mercadoriazinha, em revistas, jornais, novelas, programas e propragandas de TV.

Sem desrespeitar a caminhada de ninguém, mas mantendo as características de um coletivo criado no interior de um movimento popular, o Vozes da Trincheira tem o intuito de contribuir para o fortalecimento de uma cultura que resista às estratégias de desmobilização da comunidade, e que legitime uma postura auto-organizativa, dispensando qualquer vínculo partidário, parceria com o governo através de editais, convenio com empresas ou subsídios de ONGs. Além disso, contra a zé-povinhagem e contra as mentiras que os grandes meios de comunicação nos obrigam a engolir, queremos ajudar a criar nossas próprias formas de comunicação, que expressem nossa realidade, e contribuam com a construção do poder popular.

Não queremos holofotes, mídia, e nem tapinhas nas costas. Queremos somar na criação de outras propostas, que possam ser viabilizadas por nós da comunidade, sempre repensando nossa prática e sempre abertos ao diálogo. Queremos deixar de lado o mito do Artista, como se o artista fosse especial e melhor do que os outros, e valorizar a força de um povo organizado: onde não há espectador ou plateia, mas sim união popular. Esse é o único jeito de transformar nossa realidade.

Para nós, a luta diária não está separada da cultura. E não acreditamos que a cultura deva servir simplesmente como forma de esquecer os problemas, de relaxar etc. Queremos contribuir com a construção de uma unidade, em que a cultura seja mais uma forma de resistência e a resistência seja cada vez mais admitida como cultura nas comunidades. Dessa forma, os problemas relacionados ao transporte, à saúde, à moradia, ao encarceramento em massa do povo pobre, entre outros, estarão presentes nas discussões e principalmente nas ações do coletivo.

Reconhecemos que a caminhada para a consolidação do poder popular é longa, mas entendemos que a realização de atividades pequenas, que aproximem e reafirmem a ideia do fazer junto, e que considere o contexto cultural da comunidade, mesmo que contemplem um número menor de pessoas, pode ser o caminho para não reproduzir a lógica do mercado, que requisita e denomina talento, mistifica a arte, elege os "artistas" e individualiza, atraindo multidões descompromissadas com os processos organizativos - o que acaba com a possibilidade de construção desse poder popular.

Como fazedores de cultura, consideramos que nossa "qualidade artística" é medida pela nossa capacidade de organização e de luta, e é por isso que uma das nossas estratégias mais importantes é a da socialização dos meios de produção, o "fazer nóis, por nóis, e pra nóis". Noutras palavras, ou a cultura é parte da construção revolucionária, ou ela é só mais uma mercadoria, que serve para alimentar as formas de opressão e de exploração a que estamos submetidos. Nessa guerra, sabemos bem qual é o nosso lado da trincheira.

Todo Poder ao Povo!