O Jardim São Remo é uma histórica comunidade de luta. As memórias dos moradores mais antigos (a comunidade existe há mais de 40 anos) são de organização, de grandes assembléias populares, de mutirões de trabalho coletivo para construir aquilo que os governos desde o início da ocupação daquela região não fizeram: dar condições de vida minimamente dignas para os trabalhadores pobres das periferias.

Ainda hoje, a comunidade luta por um posto de saúde, luta por uma creche, luta por ter o direito de saber quais são os planos de reurbanização que a USP tem. Não conseguiram ainda estas conquistas, mas uma resposta do estado foi dada, para ilustrar como vêem os nossos governantes o que é política pública. Ontem uma operação da Polícia Militar (Rota) ocupou a comunidade São Remo. Comércios fechados, atividades educativas do circo escola suspensas, as principais ruas foram fechadas, impedindo pessoas de saírem para trabalhar.

Sob a alegação de prender supostos suspeitos do assassinato do policial da André Peres no mês passado, casas de trabalhadores foram invadidas, muitos foram humilhados, pessoas foram agredidas e tiveram suas casas reviradas. Estranho, muito estranho. Na suposta luta contra o tráfico são os trabalhadores pobres, moradores das regiões mais carentes da cidade que sofrem. Sofrem por serem pobres, sofrem por morarem na periferia, sofrem porque a polícia invade, humilha e agride nos bairros pobres mas não ousa buscar os grandes barões do narcotráfico.

A violência e arbitrariedade da polícia, infelizmente é rotineira na vida dos moradores. Há quase dois meses, carros e motos sem placas passam pela comunidade à noite, tendo executado pessoas. Jovens são abordados de forma truculenta ao irem ou voltarem da escola. Trabalhadores são revistados de forma abusiva e humilhante. Os moradores, no geral, sofrem ameaças da polícia. Trata-se de um processo que não é novo, mas que tem se intensificado nas favelas, a criminalização da pobreza e a militarização da gestão da cidade.

Sob o pretexto do combate ao tráfico de drogas impõe-se sobre a população pobre e trabalhadora da comunidade uma violência repressiva e institucionalizada, que se manifesta em cada pessoa morta, agredida, ameaçada, insegura para andar nas ruas à noite, mas que é parte de uma política de encarceramento em massa e extermínio da população pobre, negra e especialmente jovem.

A militarização da USP se reflete sobre os moradores da São Remo na medida em que se alastra e se dá de forma mais truculenta sobre a comunidade. Da mesma forma autoritária e violenta algumas outras medidas tem sido tomadas pela Reitoria. O fim do ônibus circular que garantia que os moradores da São Remo, que são em sua grande parte trabalhadores da USP, pudessem se locomover até o trabalho, tendo agora que pagar a passagem, ou ir a pé, é uma delas.
Mas uma questão que tem preocupado muito os moradores hoje é a omissão da USP que, em conjunto com a secretaria estadual e municipal de habitação, está elaborando um projeto de reurbanização da comunidade, que implicará em remoção dos moradores, e sobre o qual não se tem nenhuma informação concreta, visto que a Universidade se nega a apresentar a proposta para os moradores, que vivem com a incerteza sobre o que será de sua moradia.

Mas, se toda favela tem um pouco de senzala, todas elas tem também muito de quilombos e, no Quilombo São Remo, que se levanta nas lutas há décadas, no quilombo São Remo, onde residem as mãos que sentaram, tijolo sobre tijolo, as paredes do maior complexo universitário da América Latina, no Qiolombo São Remo, que busca de todas as formas os caminhos da luta, da dignidade e da liberdade, ficamos o pé, também, de nossa solidariedade.

Com a São Remo estamos e com ela permaneceremos, porque nesta Comunidade, além de todas as carências, vive a esperança e a luta dos trabalhadores por um mundo novo onde não sejamos humilhados apenas por sermos pobres!

MOVIMENTO LUTA POPULAR