A vitória de Obama parece deliciar a mídia brasileira. Fotos dele e do seu vice são divulgadas em profusão pela esquerda e pela direita. Felicitações e salamaleques jornalísticos submissos se multiplicam ao infinito nos jornais, TVs, revistas e portais de internet.

O mundo dos fenômenos está temporariamente congelado. Nenhum analista se interessa por analisar de maneira crítica a realidade. O jogo de ilusões eleitorais e midiáticas transmitido em tempo real do império em declínio oblitera a inteligência de todos em quase todas as redações do Brasil.

Mas nada disto é capaz de me seduzir.

Há algum tempo escrevi aqui mesmo que o filme "The Hungar Games" (Jogos Vorazes) era vagamente inspirado na filosofia de Rousseau, uma metáfora da política norte-americana moderna.

"As metáforas utilizadas na política são bastante significativas. Não é incomum um político dizer que deseja "enterrar politicamente" seu adversário, "destruir" suas possibilidades de ser eleito ou de prevalecer no Parlamento. Quando um estadista cai em desgraça, seus adversários dizem que ele está "morto" mesmo que esteja gozando de saúde perfeita. A disputa política pode ser elegante e educada, mas é uma "guerra" e algumas vezes os parlamentares trocam socos, tapas, ponta-pés e cadeiradas.

Nos Jogos Vorazes os competidores tem que conseguir patrocinadores, pois estes fornecerão os medicamentos e alimentos que eles necessitarão. Na disputa eleitoral os patrocinadores fornecem aos políticos os meios financeiros para fazer campanha e sobrepujar seus adversários.

Na arena eleitoral o candidato tem que construir uma imagem pública para agradar seus eleitores e financiadores. Nos Jogos Vorazes os competidores tem um olho no adversário e os dois nas pessoas que estão assistindo ao espetáculo.

A finalidade da política não é a resolução do conflito social, mas a preservação da estrutura da disputa partidária. Através dos Jogos Vorazes o centro/urbano quer preservar a submissão dos distritos periféricos, onde a repressão policial é semelhante àquela que vemos nas periferias de nossas cidades.

Durante as eleições ocorrem alianças ocasionais e temporárias e parcerias profundas e duradouras. Idem nos Jogos Vorazes, em que vemos o mesmo tipo de hipocrisia e dissimulação que existe na política quando o garoto do distrito 12 se alia aos adversários mortais da heroína para tentar preservá-la. Numa eleição, como nos Jogos Vorazes, as vezes um contendor se sacrifica em benefício do colega com melhores condições de vitória.

A política nas democracias pós-modernas é representação e espetáculo televisivo. Os Jogos Vorazes também são um espetáculo televisivo em que a representação é importante pois estimula a ajuda desejada dos patrocinadores. Em ambos vemos que alguns participantes resistem aos vícios do jogo (a brutalidade nos Jogos Vorazes, a corrupção financeira na vida pública) mas os vitoriosos são aqueles que conseguem se ajustar perfeitamente à natureza do espetáculo."
 http://www.midiaindependente.org/es/blue/2012/03/505516.shtml

Quem acompanhou com muita atenção a disputada eleição norte-americana, resolvida na última urna do último Estado com um final não tão previsível, provavelmente ficou hipnotizado pela cobertura super midiatizada. Nem deve ter percebido a semelhança entre o enredo eleitoral de 2012 e a metáfora criada no filme "Jogos Vorazes".

Não é mera coincidência. Como disse e demonstrei o filme "The Hunger Games" é uma metáfora da midiática política norte-americana. A eleição de Obama foi uma perfeita adaptação do filme. Arte e vida são uma só coisa no império da ilusão. E isto, meus caros, deveria ser uma grande motivo de alarme. Especialmente agora que os EUA perdeu a corrida econômica para a China, afunda numa crise criada pelo modelo neoliberal norte-americano que os gringos não querem abandonar porque desejam conservar a importância política e militar que tiveram no passado.

"O melhor ainda está por vir" disse Obama ao ser anunciado vencedor. A frase dele é emblemática e enigmática.

O melhor para quem? Para os fabricantes de armamentos que contribuíram fartamente para a campanha dele e de Romney, o melhor é uma nova guerra. O que afinal é este melhor que virá? As petrolíferas norte-americanas, que também contribuíram fartamente para os dois candidatos, sabem o que é o melhor para elas: controlar as reservas de petróleo do Irã.

O melhor que Winston Churchill tinha a oferecer aos ingleses quando começou a II Guerra Mundial era "sangue, suor e lágrimas". O melhor que Obama tem a oferecer aos norte-americanos é o crescimento econômico produzido por uma guerra contra o Irã e depois outra contra a China? Quando virá este melhor anunciado por Obama? Antes ou depois da guerra que vem sendo anunciada aqui e ali na mídia e antecipada acolá por uma provocação dos EUA ao Irã e ao Dragão Oriental?

Não sejam otimistas meus caros. Os fatos nunca são.