Hoje repetiu-se um daqueles desagradáveis bate-bocas no STF, envolvendo Joaquim Barbosa. Quando ele confrontou Gilmar Mendes, então Presidente do STF, fiquei publicamente ao lado dele. Não posso mais fazer isto. O excesso de rigor punitivo de Joaquim Barbosa em relação aos réus do Mensalão, para atender os reclamos vingativos da mídia de direita, não o permite.

Não sou devoto de Nietzsche, nem grande fã de sua filosofia. Mas há ao menos um fragmento escrito por ele que sempre me deixa fascinado. Reproduzo-o abaixo porque me parece bem apropriado para analisar o comportamento do atual presidente do STF:

2"E se um dia ou uma noite um demônio se esgueirasse em tua mais solitária solidão e te dissesse: "Esta vida, assim como tu vives agora e como a viveste, terás de vivê-la ainda uma vez e ainda inúmeras vezes: e não haverá nela nada de novo, cada dor e cada prazer e cada pensamento e suspiro e tudo o que há de indivisivelmente pequeno e de grande em tua vida há de te retornar, e tudo na mesma ordem e sequência - e do mesmo modo esta aranha e este luar entre as árvores, e do mesmo modo este instante e eu próprio. A eterna ampulheta da existência será sempre virada outra vez, e tu com ela, poeirinha da poeira!". Não te lançarias ao chão e rangerias os dentes e amaldiçoarias o demônio que te falasses assim? Ou viveste alguma vez um instante descomunal, em que lhe responderías: "Tu és um deus e nunca ouvi nada mais divino!" Se esse pensamento adquirisse poder sobre ti, assim como tu és, ele te transformaria e talvez te triturasse: a pergunta diante de tudo e de cada coisa: "Quero isto ainda uma vez e inúmeras vezes?" pesaria como o mais pesado dos pesos sobre o teu agir! Ou, então, como terias de ficar de bem contigo e mesmo com a vida, para não desejar nada mais do que essa última, eterna confirmação e chancela?"

A ferocidade com que Joaquim Barbosa, julga, condena e impõe pena aos réus do Mensalão pode ter um antecedente histórico bastante infame. Um dos aspectos mais brutais do antigo sistema escravagista brasileiro era a utilização de negros ?ladinos? (que já sabiam como as coisas funcionavam) para disciplinar, espancar, chicotear e até caçar negros ?boçais? (que haviam chegado recentemente ao Brasil). Este papel era desempenhado com fervor por ?ladinos? em razão do sadismo, do desprezo por negros de etnias consideradas inferiores em África ou por causa dos pequenos privilégios que passavam a gozar.

O tempo passou, a escravidão acabou, políticas afirmativas são adotadas para corrigir os erros do passado e os negros avançam, com mérito, nos cargos públicos e na estrutura do Estado. Mas isto não significa necessariamente uma libertação do passado. No caso de Joaquim Barbosa parece atuar o nietzschiano demônio do eterno retorno. A conclusão é minha, é triste e pode ser contestada por quem que tenha mais competência intelectual.