Uma das principais características das sociedades conhecidas como proto- industriais (feudal, indígena, africanas, hindus, entre outras) é o forte poder de coerção exercido pela comunidade sobre seus membros.
Nesses arranjos sociais não há distinção entre os espaços público e privado. O indivíduo está, amiúde, sob o olhar atento de toda a sociedade, que pode, de acordo com os valores e costumes vigentes, aprovar ou desaprovar determinada conduta.
Para alguns pesquisadores das ciências humanas, somente com o advento da sociedade burguesa podemos falar de uma vida privada propriamente dita. Desse modo, o ser humano, livre dos grilhões sociais, estaria pronto para exercer sua completa individualidade. A máxima expressão desse novo período é o grande centro urbano, onde os vizinhos mal se cumprimentam e os comportamentos que fogem do status quo são mais tolerados.
No entanto, é demasiadamente complexo e controverso falar em individualidade quando vivemos em uma época cada vez mais dominada pela indústria cultural, que é responsável por igualar os padrões de comportamento e consumo de bilhões de seres humanos das mais variadas regiões do planeta.
Assim, o mesmo modelo de desenvolvimento que proporcionou ao indivíduo uma relativa autonomia em relação à comunidade, trouxe também novas formas de controlar a vida alheia.
Não obstante, também é extremamente complicado pensar em privacidade, quando pessoas têm os seus passos monitorados por chips e a frase você está sendo filmado encontra-se em toda parte. Desse modo, em nome de uma suposta segurança, abdicamos de nossa liberdade e nos deixamos ser controlado o tempo todo. Segundo o editorial de um partido político da esquerda brasileira, na medida em que aumenta a crise do regime político, aumentam os mecanismos de controle e a retirada dos direitos democráticos da população.
Por outro lado, o voyeurismo é uma das marcas da pós-modernidade. Não é por acaso que os programas de fofocas e os reality-shows fazem tanto sucesso atualmente. Já nas redes sociais, principalmente no Facebook, milhões de usuários expõem todos os acontecimentos de seus cotidianos.
Portanto, o homem contemporâneo apesar de ser livre dos ditamos da comunidade, está completamente absorvido e padronizado pela sociedade de massa. A diferença é que nas organizações sociais proto-industriais os mecanismos de controle eram locais, e na sociedade contemporânea esses poderes controladores atuam em âmbito global. Enfim, nunca fomos tão vigiados.