O nosso Português é uma língua bastante exigente e distingue os sujeitos pela sua natureza. Coisas, animais e seres humanos podem desempenhar a mesma função sintática, mas nunca tem o mesmo tratamento semântico (exceto quando a língua é usada de maneira artística).

Pessoas e coisas, em geral, não devem ser tratadas da mesma maneira pois as qualidades de umas são diferentes das qualidades de outras. É claro que podemos dizer "João é duro". Mas o "duro" desta frase não terá o mesmo significado de rigidez da frase "O para-choques do meu caro é duro.". Pela mesma razão, a frase "Josefina tem coração mole." também não tem o mesmo significado de "O doce de batatas ficou mole." Em ambos os casos o adjetivo usado de maneira denotativa quando refere-se a uma coisa conota algo diferente quando o sujeito é um ser humano.

A frase "O carro desmaiou na avenida emocionada antes de estacionar." não pode ser entendida a não ser como uma expressão artística. Carros são objetos e, portanto, não desmaiam. Avenidas nãos e emocionam, no máximo elas permitem que pessoas emocionadas vão de um ponto a outro.

Quando usamos o português fazemos escolhas. E estas escolhas refletem não só nossa intensão, como também algo sobre a intenção ou ideologia daquele que se expressa.

Hoje, por exemplo, no telejornal matutino da Rede Globo a ancora noticiou os incidentes violentos em São Paulo ontem a noite da seguinte forma:

"um ônibus foi atacado"
"5 pessoas morreram"

As duas frases são bastante significativas. Na primeira o ônibus é tratado quase como uma pessoa. Na segunda, as pessoas mortas quase perdem sua qualidade humana.

Atacar um ônibus é crime. Matar pessoas também. Mas para a Lei Penal existe uma diferença qualitativa entre os dois tipos penais. Os crimes contra a pessoa são considerados mais graves e recebem pena maior que os crimes praticados contra o patrimônio. Esta hierarquia legal, entretanto, desaparece na linguagem jornalística utilizada pelo telejornalismo global. O espectador é levado a acreditar que a vida daquelas pessoas que morreram vale menos que a integridade do ônibus.

A ambiguidade da frase "5 pessoas morreram" não sugere que as pessoas foram mortas, nem tampouco faz o espectador especular acerca da autoria das mortes e se o ato praticado pelo autor das mortes foi um crime ou não. A frase "um ônibus foi atacado" é bem mais específica e faz todos perguntarem imediatamente "quem atacou o ônibus e porque?".

Os jornalistas são especialistas. Conhecem perfeitamente a língua e a usam de maneira consciente e intencional. As escolhas feitas pelo telejornal matutino da Globo indicam que no imaginário dos jornalistas que produziram o texto jornalístico as vidas das pessoas que foram mortas vale bem menos que a incolumidade do ônibus atacado.

O reflexo deste tipo de linguagem é previsível. Ela cria um mundo paralelo em que as coisas valem mais que as pessoas, um mundo que legitima a brutalidade policial contra as pessoas em nome da preservação das coisas. No Direito Penal, as pessoas tem mais valor que as coisas, neste tipo de jornalismo as coisas valem mais que as pessoas. Um observador atento percebe a diferença e questiona de maneira silenciosa ou ruidosa este tipo de linguagem (foi o que eu fiz). Mas eu também sou, de certa maneira, um especialista em linguagem (pois sou formado em Letras, além de advogado).

A maioria das pessoas que viram o telejornal analisado, entretanto, usam a Língua Portuguesa mas não são especialistas em linguagem. Se as pessoas não forem alertadas passam a conviver com as hierarquias artificiais criadas pela linguagem jornalística como se estas fossem naturais ou socialmente desejáveis. Não são, nem deveriam ser. Pois nestes casos a linguagem sempre precede e legitima uma agressão ainda maior e mais sistemática contra as pessoas em nome da integridade das coisas.