A CRÕNICA DE UMA HORA E MEIA DO HOSPICIO CURITIBA

Se você quer ser confundido com bandido, vá para curitiba.
Se você quer experimentar as aventuras do Far west, - onde qualquer megalomaníaco era a lei ? e ser desrespeitado, insultado, humilhado e ameaçado de morte era coisa de somenos, onde você será um indivíduo e não um cidadão, vá para curitiba.
Se você quer ter sua intimidade exposta escancaradamente para todos os meganhas masculinos e femininos, e ainda para todos os hospedes de um hotel, hospede-se em curitiba.
Se você quiser ser insultado com perguntas tais como ? ? vocês têm passagem pela polícia?? ?? Já estiveram presos?? ?? tem alguma droga ou produto ilegal aí?? " ? o que vieram fazer em curitiba?? ? vá para curitiba.
Se você quiser ter uma prova de como eram e ainda são as polícias brasileiras - os rabos sujos da ditadura, seguindo ainda todas as práticas insidiosas então ensinadas e anulatórias dos seus mais elementares direitos constitucionais ? a privacidade, o respeito, a presunção de inocência que deve te resguardar de qualquer ação intimidatória e violenta, mesma se autorizada por juíz de direito - que neste caso está infringindo a lei num abuso flagrante de autoridade ? mesmo que atendendo aos motivos absolutamente insanos dos incompetentes chefes e comandantes das policias ? vá para curitiba.
Se você quer ter um dia estragado, uma viagem arruinada, uma honra ferida de morte, pois sem tempo e sem chance de ir atrás e revidar a perfídia de tal tratamento ? mais que ousado ? inacreditável num regime que se crê democrático - e de órgãos regidos por gente arrogante, abusada e insana visto que, depois de todo este episódio tão difícil de aceitar que tenha de fato ocorrido que mais lhe parece ter sonhado haver entrado num hospício, ainda lhe diz que tudo é para seu bem (arre!) - vá para curitiba.
Se você tiver mulher e não a quiser ver exposta à tanta vergonha, não a leve para curitiba ? porque nem permitem que ela se vista para invadirem e revistarem vocês e revirarem seus pertences como se traficantes.
Se você fôr, informe-se bem sobre o hotel, porque dentre as notórias inconstitucionalidades e injustiças, contamos algumas tais como dos hotéis de ?personalidades? que não são invadidos e não têm os seus hospedes arrebanhados nus ou semi-nus, como judeus pelos nazis. Se você a quer experimentar - e refletir como tal violência de fato e em todos os seus matizes, pode servir como argumento para combater uma violência só presumida ? argumento e prática tão absurdos que invalidam todos os demais argumentos à favor de uma operação desastrosa como estas, vá para curitiba.
Se você não quer ser feito refém e ficar diante de uma arma em mão trêmula de um policial que deveria lhe proteger, mas que como cão louco de repente se volta contra o dono, não vá para Curitiba.
Se você quer saber, de fato e não na teoria ou no folclore popular de que é para caçar bandidos ? vá para curitiba receber essa batida na alma; que é como batida de carro que numa mais fica igual. Porque é uma batida que fere o espírito e magôa; por ser uma afronta de pérfidos que a fazem por puro sadismo sem qualquer receio de serem penalizados, ou de sofrerem qualquer represália do cidadão que, por ser bom é pacífico, o que para o policial violento é o mesmo que ralé. (Daí a moda de todo bandido de colarinho branco entrar na política ? para ter imunidades contra esse tipo de autoridade!) E não crêem em penalidades porque, para os responsabilizar, ou você depende dos superiores que tramam e ordenam tais violências ou você faz justiça com as próprias mãos e nisto eles não acreditam que
Se você tem assegurados a honra e o respeito em sua comunidade, não vá para curitiba, à não ser que para experimentar o mesmo que um cão quando chutado ? e você sabe que quem chuta cão também chuta gente, porque não é gente no bom sentido; é ruim, de baixa formação humana e de mal com a vida ? uma descrição do perfil da maioria dos policiais e independente da instituição!
Se você quer ver o maior crime, o maior atentado ao Direito e à Justiça ? a inversão entre o bem e o mal ? entre o bom e o mau cidadão - o mau se fazendo de bom na defesa daquilo em que ele não crê ? nem é capaz de entender ao ponto de anular pela própria ação em curso da qual participa ? e em que insultosamente rebaixa à condição de criminoso ? ainda que sem provas ? o bom e melhor cidadão que ele, vá para curitiba.
Se você quer saber como tudo isso começa, vá ser acordado às seis horas da manhã com um chute na porta e um revolver na cara, em qualquer hotel de curitiba.
Se você quer ver como acabam estas cenas dantescas, não diga quem é se for uma autoridade decente que goze de imunidades ? mesmo porque pouco ou nada adianta diante da estupidez; agüente como cidadãos comuns, porque assim eles pensam ? que são especiais ? são autoridades que não compreendem sequer o sentido morfológico e contraditório do termo e das funções deles - enquanto você é um nada ? vá para curitiba.
Se você achar isto exagero, ficção de colunista, ache um jeito de fazer à todos os milhares de cidadãos que passaram por esta tortura nos hotéis de curitiba no dia 6 de maio corrente saberem e se manifestarem sobre o ocorrido, e você terá a resposta à altura volumétrica em que precisam ouvir os responsáveis por esta ação de bar-bar-bar...os!
Se você quer ver quantos atos ilegais e criminais é capaz de cometer uma quadrilha policial ? que pretende justificar a sua existência cometendo ações que deve coibir por outros, ? o que em tese e práxis é dizer: feitos por outros é crime; por nós são atos legais, amparados por mandado judicial, - vá para curitiba!
Se você quer ver milhares de cidadãos bons sofrerem por causa alguns poucos maus indivíduos; se não crê que alguma autoridade com as faculdades mentais sãs, cometa esta monstruosidade, - a de justificar um tratamento violento geral da sociedade, com as exceções, vá para curitiba.
Se você não sabia, agora sabe: hotel, em curitiba, é lugar perigoso; se você se hospedar em um, corre risco e já deu motivo para ser considerado suspeito e ser tratado como criminoso!
Se você ainda desconhece o arsenal de ambigüidades (ou de desculpas esfarrapadas, para quem não conhece o vernáculo) para embrulhar os ignorantes e fazer calar os mais audaciosos, vá para curitiba.
Se você ainda não viu como vão sendo criados os instrumentos de controle social ? e de ditaduras formais e disfarçadas, que vão criando o estado totalitário, que resulta no caos social em se vive e do qual a maioria desconhece as razões e as raízes ? que também estão na destruição sistêmica ? porque não é ..... dos cidadãos impotentes diante destas manadas de mastodontes, - vá para curitiba.
Se você ainda não viu à que ponto pode chegar a insensibilidade e irracionalidade de uma classe inteira, de um governo inteiro, de uma população inteira ? refém pelo medo destas primeiras classes citadas, vá para Curitiba. Lá você verá que isto só acontece quando a sociedade e seus atalaias ? a imprensa, os jornalistas ? perderam ou nunca tiveram discernimento e coragem para fazê-la valer em benefício dos fracos sujeitos à tais opressões. Lá você verá que nem todos são iguais perante a lei ? e a violência dos seus agentes: a policia ?bateu em hotéis de classes ? ou de hospedes ? que gastam menos, mas não bateu nos sofisticados onde ficam os abastados ou funcionários perdulários dos governos; E nos pobres e trabalhadores bateu, insultou e humilhou, mas não agiu assim em outros hotéis... alguns de propriedade de personalidades até políticas. Porque?!
Se você não quer ouvir de semi-letrados ensoberbecidos, que te confiscam a cidadania pela destruição da tua honra ? para te salvar a vida desonrada, não vá para curitiba!
Se você é aficionado por enigmas, eis um insolúvel (como o da inquisição, em que para tantos motivos inconfessáveis era dada como falsa justificativa a salvação da alma do supliciado,) - o modo incoerente dos larápios dizerem que nos matam o espírito para salvar-nos o corpo, vá para curitiba.
Se você deixou de ouvir em ?lixo autoritário? da ditadura, é porque não incluíram neste lixo as arbitrariedades das polícias e dos judiciários ? onde nem um cristo histórico ou canônico (andarilho e morador de rua humilde, empoeirado, seboso e metido a ensinador, além de atrevido contestador das autoridades,) sobreviveria. Se não crê que ainda exista, como os agora chamados ?crimes hediondos?, hospede-se num hotel de curitiba.
Se você nunca encarou sua co-responsabilidade de cidadão, vá para curitiba ver como você acaba sendo vítima de sua própria omissão, seja lá por qual razão.
Se você quer ver uma imprensa do tempo da ditadura ? calada e conivente com estas barbaridades ? mesmo sabendo, ao menos os seus membros melhor informados, quando os têm, que existem outras fórmulas de serem feitas as coisas, mas que não informam nem ajudam à informar, para não se invalidar de maneira tão tirana e repulsiva o que tão cínicamente alardeiam estes ?caras? ? ainda que de pau ? a cidadania, o respeito aos direitos humanos - vá para curitiba.com.minúscula.
E diante de colossal besta invoco forças maiores do que as minhas: a Associação do Juízes para a Democracia e a Associação dos Magistrados Espíritas, duas entidades que tem fama de se envolverem. A OAB? Ora, a OAB! Por acaso ela não saberia do que acontece no seu quintal?
Ass. Anônimo Numeral