Incentivados por subsídios governamentais, como o programa ?minha casa minha vida?, aliado ao forte aquecimento imobiliário proporcionado por, entre outros fatores, sediarmos uma Copa do Mundo, prolifera-se, em todos os rincões da cidade, conjuntos habitacionais destinados a todos os gostos e classes sociais. Trata-se de verdadeiras cidades encrustadas em regiões periféricas, onde em muitos casos a infraestrutura e os serviços públicos disponíveis ainda são deficitários para abrigar tamanha densidade populacional.

Esses empreendimentos ? vendidos como a concretização do ?sonho da casa própria?- não refletem necessariamente em uma maior qualidade de vida para seus habitantes. Muitos acabam iludidos pela publicidade que os vendem como uma garantia de felicidade e status e se decepcionam com a impessoalidade e os transtornos de viver entre muros. A crença de que um condomínio fechado é sinônimo de ascensão social, faz com que muitos migrem de regiões onde há uma forte presença da comunidade na rotina das pessoas, para conviver no ambiente impessoal e atomizado dos grandes conjuntos habitacionais.

Os conjuntos habitacionais carecem de uma análise detalhada sobre os impactos ocasionados não apenas ao meio ambiente, mas, sobretudo, à comunidade onde serão instalados. As transformações nos espaços construídos, sem a devida análise, resultam em danos, por vezes, irreversíveis. Não apenas danos ambientais, mas, sobretudo, na própria maneira como nos sociabilizamos e como nos integramos à geografia e à história da região onde habitamos. Alguns empreendimentos dão a sensação de desejarem destruir o passado e a paisagem na qual se inserem, sem se preocuparem em fazer parte da história, da cultura e da geografia do local em que se encontram, pretendem encrustar em um recanto da cidade um espaço ?higienizado? uma espécie de sonho nórdico, um verdadeiro estado de bem estar social que existe apenas na propaganda.

Os condomínios fechados precisam se abrir. Muitas vezes os muros que o cercam, sobre o pretexto da segurança, isolam seus habitantes da comunidade da qual pertencem, segregam ao invés de incorporar. Tais construções interferem não somente na convivência e nas atividades cotidianas de seus habitantes, mas também, nas atividades mais corriqueiras da comunidade que habita o seu entorno. Erguendo muros onde outrora a população local tinha livre acesso. Seu planejamento deveria ir muito além de medidas geométricas e possibilitar uma melhor convivência e integração entre seus habitantes e a comunidade que o cerca. Os conjuntos habitacionais deveriam ser muito mais do que uma aglomeração de habitações individuais, deveriam promover a integração das pessoas, seja entre seus condôminos, seja com o meio no qual fazem parte.

Diante disso, faz-se necessário repensarmos o modo como habitamos e a própria natureza do habitar, para que nosso habitação não se resuma apenas a um caixote de concreto com poucas dezenas de metros quadrados; para que o que chamamos de ?lar? promova um habitar verdadeiramente autêntico.

O que faz com que algo seja habitável? Não habitamos somente o espaço da nossa casa, não é um teto que garante um habitar, nós habitamos a praia, a fazenda, o carro, o trabalho, habitamos, inclusive, esse espaço virtual. Nesse momento você e eu habitamos esse texto. Portanto, habitamos o mundo e o habitamos de diversos modos que transcendem a espacialidade física de nossa casa ou de um conjunto habitacional. Ser humano implica necessariamente em habitar algo, vivemos ao habitar o mundo: ?o homem é enquanto habita? diria Heidegger.

Assim, habitamos não somente nossa casa, mas, nosso bairro, nossa cidade, nosso trabalho, nossos pensamentos, ou seja, tudo aquilo com o qual convivemos. Certamente já tivemos a impressão de nos sentirmos em casa quando desfrutamos de um ambiente onde o convívio se dá de forma agradável e natural, onde podemos ser nós mesmos, sem máscaras, sem receios, onde o ambiente possibilite um convívio autêntico tanto entre as pessoas, quanto entre as pessoas e as coisas.

O que torna nossa casa especial é o convívio que temos com nossas coisas e com as pessoas que a habitam. O convívio quando prazeroso torna o habitar desejável. Habitamos o bar da esquina porque lá podemos conviver com nossos amigos, habitamos a praia no domingo porque lá podemos conviver com a paisagem e com a família, habitamos esse espaço virtual porque desejamos conviver com diferentes opiniões e perspectivas. O convívio, portanto, quando agradável, é o que possibilita um habitar autêntico.

Quando podemos conviver autenticamente com as coisas e as pessoas, parece-me, de fato, que estamos habitando autenticamente: nossos antepassados habitavam cavernas que lhe proporcionavam abrigo, que continham desenhos que narravam seus feitos, que permitiam ao grupo reunir-se em torno da fogueira, que abrigavam seus utensílios, ou seja, que tornavam o convívio naquele espaço mais agradável e desejável, esse, me parece, é o arquétipo de um habitar autêntico. O habitar autêntico se dá quando um determinado espaço possibilita um convívio pleno e harmonioso entre as pessoas e as coisas que dividem esse espaço.

Logo, começamos a habitar na medida em que convivemos. Precisamos repensar, portanto, o modo como estamos construindo nossas habitações, muitas das quais nos privam do convívio entre os condôminos e a comunidade, ou, entre os próprios vizinhos, e, até mesmo, entre as pessoas que moram na mesma casa, em um espaço onde os quartos adquirem cada vez mais o lugar da sala.

Os espaços de convivência dos conjuntos habitacionais não integram seus habitantes, são espaços destinados a reunir conhecidos (exteriores àquele conjunto) por um breve lapso de tempo, com horário programado e regimento interno a cumprir. Não é um espaço público de convivência entre os condôminos, mas sim, uma extensão temporária de apartamentos cada vez mais claustrofóbicos.

Em uma época onde as distâncias espaciais foram suprimidas, as distâncias entre as pessoas nunca foram tão grandes. O vizinho não tem mais uma personalidade é apenas um número: ?o fulano do 504?. Nosso bairro não possui mais uma identidade própria, somos privamos cada vez mais do convívio com o outro e com o espaço público. Nossa morada não pode ser apenas mais um produto, algo que se consome e que se troca quando surge outro melhor. Os conjuntos habitacionais precisam, de fato, proporcionar um habitar autêntico, serem mais do que um conjunto de habitações, depósitos de gente, precisam ser projetados para promover o convívio entre pessoas cada vez mais individualizadas, precisamos, mais do que nunca, reaprender a habitar.