Pois bem. Ouvi dizer ( e acho que seja teoria da conspiração, porque acho que o Joaquim Barbosa não seria tão burro assim ) que conforme alguns jornalistas que fazem a cobertura do julgamento da Ação Penal nº 470, o Ministro Joaquim Barbosa, quando questionado se acreditava na prisão em regime fechado para a maioria dos condenados, respondeu que sim, "do contrário não estaria sacrificando a saúde num julgamento tão cansativo como este ...".

Se o Joaquim Barbosa, homem de reputação acima de qualquer suspeita, faz isso, os seus súditos devem seguir seu exemplo, ou seja, o Joaquim Barbosa não deve servir de lição aos brasileiros, deve servir de exemplo.

Digamos que na madrugada de uma segunda feira eu cheguei em casa travado, vindo da putaria, onde fiz tudo o que não devia, isto é, fiz tudo que começa com 'f', exceto fugir da raia. Amanhece e eu tenho que ir trabalhar como digitador numa sala de audiências (é o ò do borogodó se você estiver normal, imagine numa ressaca daquelas). A gastrite, a dor de cabeça, o enjôo, etc. Parece que acenderam uma fogueira dentro do seu estômago. Patrões e empregados não fazem acordo em nenhuma das audiências. Há uma esperança de que as partes conciliem na última audiência, pois já são 12 horas e a ressaca é cada vez pior. Engov não resolveu muito.

Começa a audiência. A vaca tussiu, a cobra fumou mas o arrogante patrão disse que preferia pagar caro a um advogado a dar qualquer grana para aquele pobre trabalhador. Recusada as propostas de acordo, instrução. Depoimento das partes. Cada parte tem três testemunhas. Um dos objetos da ação é hora extra. Começa a oitiva das testemunhas. Já são 13:30 horas e a barriga, não tem melhora, ao contrário. Idem estômago, fígado, cabeça, etc.

Considerando que além de eu estar sacrificando minha saúde naquele julgamento a justiça deve pender para o lado do operário, por ser ele a parte mais fraca da relação, eu deveria seguir o exemplo do Joaquim Barbosa?

O Juiz pergunta às testemunhas do expropriador a que horas o empregado chegava ao local de trabalho. O Juiz, que como as partes não tem monitor para acompanhar a digitação, dita: que sabe que o empregado entrava às 8 horas, saía às 12, retornava às 14 e saía às 18 horas. Negou as duas horas extras do pobre trabalhador. Sacanagem. As outras duas testemunhas, orientadas e ameaçadas pelo patrão, dizem a mesma coisa. Se eu devo me espelhar no ilibado Joaquim Barbosa, no depoimento da primeira testemunha eu editaria e ficaria mais ou menos assim: que NÃO sabe SE o empregado entrava às 8 horas E saía às 12, NEM QUE retornava às 14 e saía às 18 horas. No depoimento das outras duas testemunhas, após a edição, ficaria da seguinte forma: que sabe que o empregado entrava às 7 horas, saía às 12, retornava às 13 e saía às 18 horas. Pronto, isso seria suficiente para convencer o Juiz de que o empregado fazia horas extras e julgar procedente o seu pedido, punindo o patrão pelo seu enriquecimento sem causa.

Quando a audiência terminasse, lá prás 14:30 horas, todo mundo, doido de fome e de cansaço, assinaria a audiência sem correr a vista no seu conteúdo. Encerrada a instrução processual, autos conclusos para julgamento, do qual as partes serão oportunamente notificadas. O Juiz pergunta ao empregado: "o Senhor quer uma cópia da ata?" Ele responde que não gosta de ata, muito obrigado, e que seu dinheirinho dá prá ele comer um prato feito lá na feirinha.

Pois bem, eu sei que acima do saber jurídico do Joaquim Barbosa só a sua reputação ilibada. Mas eu não vou seguir seu exemplo, isto é, eu não vou alterar o depoimento das partes e das testemunha só porque eu tô de ressaca, sacrificando minha minguada saúde num julgamento de cartas marcadas e jamais faria isso porque, tal qual o poeta latino Horácio, 'video bona, proboque et deteriora sequor', em outras palavras, vejo as coisas boas e aprovo, no entanto sigo as piores.

Assim, o Joaquim Barbosa me serve de lição, não de exemplo.