O mapa da Folha de São Paulo ( http://folhaspdados.blogfolha.uol.com.br/2012/11/10/mapa-mostra-mortes-a-tiros-na-grande-sp/) mostra que a Policia Militar matou uma quantidade equivalente a mais de 10 suspeitos para cada policial supostamente morto pelo PCC (quantos PMs foram mortos por "PMs banda podre" ainda é um mistério). Os números impressionantes são mais ou menos equivalentes àqueles que constam dos Manuais de Campo distribuídos aos oficiais alemães para uso nos territórios ocupados pelo III Reich durante a II Guerra Mundial. Referidos manuais orientavam os oficiais da Wehrmacht a executar aleatoriamente 10 pessoas para cada soldado alemão morto e continuar as execuções até o "terrorista" responsável pelo assassinato se entregasse ou fosse denunciado.

A imprensa brasileira, entretanto, sempre pródiga em comparar o Irã ao III Reich e a dizer que Mahmoud Ahmadinejad é um novo Adolf Hitler, não foi capaz de estabelecer qualquer relação entre a atuação da PM de comandada por Alckimin e a Wehrmacht, apesar do desempenho da PM ter sido bastante satisfatório (para os padrões nazistas, é claro).

Durante o conflito (eufemismo jornalístico para massacre de suspeitos), que parece ter arrefecido na noite de ontem, a imprensa supervalorizou a morte de as baixas de PMs atribuídas ao PCC. Hoje circula notícia de que policiais teriam vendido aos bandidos os dados dos policiais mortos ( http://www1.folha.uol.com.br/cotidiano/1184731-corregedoria-suspeita-que-policiais-venderam-dados-de-pms-a-bandidos.shtml), o que sugere que PMs podem não ter puxado o gatinho mas ajudaram a matar seus companheiros.

O que me interessa, entretanto, não é a guerra entre as quadrilhas de policiais. Afinal, isto é bastante previsível, pois policiais que recebem dinheiro de criminosos certamente não gostam de policiais honestos que podem prendê-los. Me interesso mais pelo que parece não ter interessado muito aos jornalistas (as vezes um eufemismo para ideólogo que defende a violência policial ou protege o governador Alckimin dos fatos): as circunstâncias das mortes de mais de 100 suspeitos.

É verdade que a imprensa mostrou com estardalhaço a execução de um deles, fato que levou a prisão dos responsáveis. Na maioria dos casos, entretanto, não existem imagens, o que não quer dizer necessariamente que as ações policiais não foram criminosas. O problema é que nestes casos (em que não há imagens) tende a predominar os Relatórios Policiais que narram sempre a mesma coisa: os suspeitos abriram fogo contra a PM, legitimando o uso da força. A retórica policial e jornalística sobre o conflito é "o" problema, pois cria um manto de legitimidade automática que encobre ações eventualmente criminosas praticadas por policiais. Já dissertei sobre este assunto aqui mesmo ( http://www.midiaindependente.org/pt/blue/2012/11/513880.shtml).

Do ponto de vista retórico, o padrão do conflito "PCC x PM" é evidente e tem como exemplo aquele que envolve entre "Israel x Palestinos", sobre o qual Noam Chomsky disserta com bastante eloquencia:

"A prática de falcatruas envolvendo terrorismo, das quais tratarei nos capítulos seguintes, é altamente reveladora do caráter da cultura ocidental. A questão relevante no contexto atual é que inventaram uma história conveniente e uma forma apropriada de discurso, nas quais terrorismo é coisa típica de palestinos, enquanto os israelenses fazem 'retaliações' ou, às vezes, realizam 'operações preventivas' legítimas, reagindo ocasionalmente com dureza deplorável, tal como qualquer país faria em situações muito penosas, segundo eles. O sistema ideológico visa a garantir o reconhecimento de que essas conclusões são teoricamente legítimas, independentemente dos fatos, que ou não são noticiados, ou são noticiados de forma que se adaptem às necessidades ideológicas, ou - às vezes - honestamente, mas depois relegados ao esquecimento." (PIRATAS & IMPERADORES, Antigos & Modernos, Noam Chomsky, Bertrand Brasil, 2006, p. 57)

Substituam os vocábulos "israelense" por "soldado da PM" e "palestino" por "criminoso do PCC" e você perceberá o quanto há de semelhança no padrão jornalistico de cobertura dos dois conflitos.

O uso da violência fora das fronteiras não é diferente daquele que ocorre dentro de um país. A única diferença é que no segundo caso a legitimação tem que ser mais intensa e mais sofisticada. As artimanhas intelectuais, entretanto, são as mesmas:

a) omissão de fatos ou sua substituição por ideologia;
b) aceitação e reprodução da retórica de uma das partes;
c) falta de preocupação com as circunstâncias de cada ação violenta;
d) depreciação das vítimas mediante expedientes retóricos (são terroristas ou criminosos, etc...);
e) minimização dos excessos cometidos pelas chamadas "forças do bem", mesmo quando elas praticam atos considerados criminosos.

Quantos paulistas foram executados pela PM nos últimos dias com a ajuda da imprensa? Quantos crimes cometidos por PMs ficarão impunes com a conivência dos jornalistas? Estas meus caros são as verdadeiras questões.