Esta semana o conflito entre Israel e os palestinos ocupou uma página dos jornais e a guerra entre o PCC e a PM paulista a outra. Os dois conflitos são tratados como fenômenos diferentes. Serão mesmo?

Se olharmos os dois conflitos com cuidado podemos ver que, apesar das distinções arbitrárias construídas pela mídia, o conflito palestino/israelense serve como modelo para entender a guerra PCC x PM.

Em ambos há disputa por territórios para distribuição de drogas. Judaísmo e islamismo lá; crack, maconha e cocaína aqui.

No Oriente Médio e no Novo Mundo a dinâmica de "vendetta" ou "kanly" sempre renova o conflito, porque um grupo (Israel e PM) diz e faz o mesmo que o outro (palestinos e PCC). Enquanto opera a lógica "vocês matam um dos meus então matamos um dos seus" não há espaço para política, para acordo e, como consequencia, para paz duradoura.

Em ambos os casos a guerra é assimétrica. Israel e PM tem muito mais poder de fogo do que palestinos e PCC. Mas a assimetria por si só não garante a paz, porque os dois grupos menos armados demonstram uma disposição inquebrantável de levar o conflito adiante.

Nos dois casos o discurso oficial da imprensa é de que um lado se defende de ataques injustos (Israel e PM) e o outro pratica crimes hediondos ou terrorismo (palestinos e PCC). Apesar disto, há justiça nas reivindicações dos palestinos e do PCC, pois Israel ocupou territórios destinados pela ONU à Palestina e o Estado brasileiro não cumpre a Lei de Execução Penal dentro dos presídios.

Os dois conflitos não tem solução, porque um poder maior não interfere para interromper a matança. Apesar de todas as resoluções condenando Israel, a ONU nunca autorizou ação militar contra aquele país. Cá, o governo Federal critica Alckimin mas não tem vontade ou coragem de enfrentar a violência policial paulista com o uso da força militar.

Os ativistas dos direitos humanos tentam interromper a dinâmica sanguinária na "São Paulo palestina" e na "Faixa de Gaza paulista". Mas sempre são frustrados porque homens armados raramente temem palavras ou raciocinam calmamente.

A imprensa sempre conta historias tristes e humanas dos parentes das vitimas de um dos lados do conflito (Israel e PM) e noticia friamente as estatísticas das mortes do outro (palestinos e PCC). Ao legitimar automaticamente Israel e PM, desqualificando palestinos e PCC a imprensa dá a impressão de que os dois conflitos somente serão debelados com uma vitória esmagadora e incontestável. Todavia, em conflitos assimétricos isto é impossível. Pela sua própria natureza, as guerras travadas entre Israel e palestinos e entre PM e PCC tende a se tornar permanente. Guerras de atrito só podem ser vencidas com entendimento político e reconhecimento mutuo, mas isto é inviabilizado quando a imprensa desqualifica sistematicamente um dos lados.


Os líderes da matança em escala industrial tem direito a voz na mídia e respeito publicamente demonstrado pelos jornalistas. Alckimin e Netanyahu são sempre entrevistados e apoiados pelos veículos de comunicação. Em ambos conflitos o outro lado é silenciado pela mídia, que parece não gostar daqueles que lideram matanças artesanais (palestinos e PCC).

Os crimes de guerra cometidos por Israel não são julgados no Tribunal Penal Internacional. Os cometidos pela PM só excepcionalmente acarretam condenação no Tribunal de Justiça de São Paulo. Os relatórios militares israelenses tem tanto valor jurídico em Israel quanto os autos de resistência a ação policial da PM em São Paulo, mesmo que os autores dos crimes e dos relatórios inventem historias da carochinha para disfarçar execuções feitas a sangue frio.

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