Por que o poder econômico passa a ser tão perigoso e hostil, quando acima de certa medida?

Bem, há duas possibilidades para esse fenômeno: o lucro excessivamente alto e a quantidade excessiva de riqueza acumulada.

O lucro excessivo é aquele que não pode nem de longe ser associado ao trabalho de quem o ganha. Um exemplo absurdo: vamos supor que o campeão mundial de cusparadas ganhe em média um milhão de dólares por semana, com suas exibições. Vamos supor que ele seja tão bom que não precise treinar ostensivamente e que a média de dinheiro que ganha, ele a consegue com apenas cinco apresentações anuais. Ora, o ser humano primitivo, que habita em nós (e à nossa revelia), entende acúmulo de bens, alimentos, riqueza, etc., como um resultado de sua ação contra o (no) ambiente que o cerca, e ele aprendeu que para ser melhor sucedido, precisa também do concurso dos outros membros do grupo.

Essa é a base da solidariedade: necessidade de trabalho conjunto. Porém, se o que ele ganha com um mínimo de trabalho supera em milhares de vezes tudo o que necessita para o período correspondente, ele, o ser humano primitivo que habita em nós, começa a não suportar a emergência de um outro ser ainda mais antigo, que também habita em nós: o animal humano vem à tona. E vem à tona porque o ser humano civilizado percebe que com a riqueza fácil, o semelhante não é mais necessário para ajudá-lo na sobrevivência. Daí para a ocorrência de assassinatos cada vez mais frios, com pessoas sendo consideradas apenas peças do jogo ou obstáculos puramente materiais, é um passo, para aquele que alfere o lucro absurdo.

A segunda ocorrência citada, o acúmulo excessivo de riqueza, mesmo no caso de resultado de trabalho árduo e honesto por toda uma vida, também é pernicioso, primeiro porque o acúmulo chega a um ponto que o que é produzido por ele não serve para mais nada. Exatamente, ele passa a desperdiçar energia humana de trabalhadores, matérias-primas, etc., em por exemplo, vinte mansões para uso particular. Ora, quem pode usar vinte mansões, sendo moderadamente lúcido? Digamos que pelo menos quinze mansões estão sobrando. Se multiplicarmos números e valores deste tipo. pelo número de milionários e bilionários que há no mundo, chegaremos a um número ou a um valor inacreditável de desperdício. Em segundo lugar, é bom acrescentar que, mesmo vacinados pelo trabalho árduo, esses milionários não estão de todo a salvo da distorção psicológica associada, no início do texto, à obtenção de lucros excessivos com pouco trabalho. A gigantesca riqueza acumulada também começa a transmitir a seu (in) feliz proprietário a mesmo sensação de independência irrestrita em relação aos outros seres humanos. E isso pode levar a práticas ilícitas, tais como: manipulação de massas, atropelamento de interesses coletivos e até mesmo frios assassinatos como no caso do lucro excessivo. É claro que tudo vai depender muito da estrutura psicológica de quem vivência essa condição.

Em todo caso, é interessante frisar que, trabalhar muito é, até certo ponto um bom antídoto para essa distorção. De fato, é muito comum que, a figura do milionário que, incompreensivelmente, ao invés de comprar com seu dinheiro tempo livre para viver situações prazerozas, trabalha dezoito horas por dia. E é um bom sujeito. Ele pode estar protegendo sua integridade da degeneração aqui descrita. Trabalhando muito, impede a emergência de seus seres primitivos e perigosos. Trabalhando muito, ele melhora psicologicamente a correlação entre esforço e ganho.

O tráfico de drogas é hoje um dos melhores exemplos das conseqüências para a psique humana, do lucro excessivo com pouco trabalho. Todos sabemos da violência envolvida nessa atividade, execuções sumárias de parte a parte, assassinatos de inocentes, etc.

Como conclusão, diríamos que, de modo geral, nossa atividade pode ser de pouco trabalho, desde que não dê lucro estapafúrdio. E que pode ser do tipo que permite uma boa acumulação de riquezas, desde que estas não superem imensamente as necessidades de toda uma vida com todos os luxos possíveis, e que seja uma atividade com boa carga de trabalho.

E, claro, muito trabalho para ganhar quase nada, também não é benéfico para ninguém. Mas esse já é outro assunto.

"Algumas idéias para um país interessante" - Ed. Baraúna