A crise da biodiversidade, tema amplamente discutido em todo globo, tem como principais causas apontadas o intenso uso dos ecossistemas naturais pelas populações humanas para cultivos agrícolas, pastos, lavras minerais, infra-estrutura urbana, exploração madeireira, caça, tráfico de animais ou vegetais silvestres e a poluição dos recursos hídricos e da atmosfera. Diante da importância dada ao meio ambiente como bem comum essencial à manutenção das gerações atuais e futuras, diversos setores da sociedade iniciaram ações que buscassem frear a perda da diversidade biológica no planeta. Dentre estas iniciativas, destacam-se o Relatório Brundtland, a Conferência de Estocolmo sobre o Ambiente Humano das Nações Unidas e a Convenção de Berna sobre a Proteção dos Habitats. No Brasil, a inserção da temática ambiental na política de governo teve expressão máxima no Artigo 225 da Constituição Federal de 1988, que declara que todos têm direito ao meio ambiente ecologicamente equilibrado, bem de uso comum do povo e essencial à sadia qualidade de vida. Ainda no mesmo artigo, é dito que é responsabilidade do Poder Público e da coletividade preservar e proteger o meio ambiente. Com a expansão dos movimentos ambientalistas no Brasil e ainda com a realização no Rio de Janeiro da Conferência das Nações Unidas sobre o Meio Ambiente e o Desenvolvimento, a ECO-92, o discurso ambientalista toma volume máximo na sociedade brasileira. Em meio à euforia dos movimentos ambientalistas, começa a ser discutido nesta mesma década a reformulação de um sistema de unidades de conservação brasileira, sintetizado pelo atual Sistema Nacional de Unidades de Conservação da Natureza ? SNUC, que foi publicado na forma da Lei Federal 9.985 em junho de 2000. O SNUC criava então a concepção de áreas protegidas com fins de conservação da natureza que abrangiam categorias distintas que atendem a dois principais objetivos: a proteção integral dos recursos naturais ou o manejo sustentável da diversidade biológica pelas populações humanas. Com a criação de novas unidades de conservação da natureza e o advento de recursos financeiros nacionais e internacionais para a implementação das unidades de conservação já existentes, o modelo concebido de se instituir territórios destinados exclusivos à conservação da biodiversidade começa a ganhar força política no Brasil. No entanto, o que parecia ser a melhor estratégia para a conservação da biodiversidade brasileira acabou se tornando um dos maiores pretextos para o agravamento da crise da biodiversidade. Com a pressão do setor ruralista para a expansão das fronteiras agrícolas e pecuárias, a proteção da diversidade biológica nas áreas não compreendidas em unidades de conservação ficou relegada a último plano do governo, já que ?boas? parcelas da biodiversidade já estavam no interior das unidades de conservação. O esfacelamento das legislações ambientais que protegiam Áreas de Preservação Permanente ou que determinavam a obrigatoriedade da Reserva Legal juntamente com o desmantelamento e redução drástica no orçamento público dos órgãos executivos de meio ambiente deu o tiro de misericórdia na diversidade biológica do país. Restaram apenas pequenos quintais de biodiversidade no território brasileiro, as unidades de conservação, envoltos por uma matriz infértil de pastos, lavouras de cana, de soja, estradas, hidrelétricas ou centros urbanos. Além da permissividade e da falta de interesse do governo em proteger a biodiversidade na maior parte do território brasileiro, ainda assim, no ano de 2007, o órgão federal responsável por gerir os recursos naturais do país, o IBAMA, é rachado em duas estruturas executivas distintas, originando também o Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade, o ICMBio. Com esta divisão, tornou-se claro os dois interesses explícitos do governo: separar quem gere a biodiversidade no interior das unidades de conservação de quem a gere fora das unidades de conservação. Após a cisão do IBAMA, o ICMBio permaneceu por quase três anos sem estrutura administrativa eficaz ou regimento interno bem definido, o que originou numa estrutura organizacional caótica sem funções claramente estabelecidas. Neste período caótico, não foi surpreendente que a maioria dos empreendimentos do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC) previstos para serem instalados no interior das unidades de conservação viesse à tona. Enquanto isso, o governo empreendeu o esforço de fechar a maioria dos escritórios regionais do IBAMA, em pontos estratégicos do território nacional para atividades de fiscalização e licenciamento, além de repassar a obrigação da maioria do licenciamento ambiental para os estados, que já estão repassando estas funções aos municípios, esfera que geralmente vislumbra na conservação da biodiversidade o ?demônio anti-progresso?. Poucos anos depois, é publicada uma Resolução do CONAMA que diminuiu a área circundante das unidades de conservação de 10 para 3 km, reduzindo o poder do gestor de influenciar no ordenamento territorial e ambiental no entorno das unidades de conservação. Além disto, através de um processo extremamente duvidoso e nada transparente, o território de muitas unidades de conservação, principalmente na Amazônia, foram desafetados para a instalação de empreendimentos do PAC sem utilidade pública coerente. Diante da falta de interesse explícito em cumprir o dever pelo qual o governo se auto-instituiu como co-responsável em fazer (segundo Artigo 225 da CF), é gerada uma histeria ideológica dentro dos movimentos ambientalistas nacionais e dos executores públicos da política de meio ambiente. A maioria dos movimentos ambientalistas, sem fôlego e vendo apenas sobrevivência nas discussões reformistas da legislação ambiental, reduziram sua atuação a ações pouco efetivas, catando as migalhas de compensações ou medidas mitigatórias de mega-empreendimentos de efetivo impacto ambiental, autorizados pelo ?sim qualificado? (é proibido dizer não) dos órgãos ambientais licenciadores. Enquanto isto, os bem intencionados servidores públicos de meio ambiente, para não esmorecerem na caminhada, tentam acreditar que estão fazendo a sua parte com ações esporádicas, sem recursos adequados e péssimas condições de trabalho e segurança nos ?quintais da biodiversidade brasileira?, que segundo sugere publicação recente da revista Nature jamais conseguirão sozinhos manter a integridade de seus ecossistemas ou a viabilidade das populações de suas espécies se o seu entorno não for também efetivamente protegido (por quem?). Desta forma, o contexto da luta contra a crise da biodiversidade brasileira entra em estado enfermiço, onde ambientalistas, pesquisadores, populações tradicionais e indígenas pagam calados (pela mídia empresarial e governamental) o preço do desenvolvimento a qualquer custo, onde a grande massa da sociedade sente apenas um efêmero e passageiro desconforto intelectual quando é anunciado que houve aceleração exorbitante do desmatamento da Amazônia em 2012 ou que centenas de indígenas são ameaçados pela construção de uma hidrelétrica que, em verdade, atenderá a interesses da indústria metalúrgica internacional. A falta de vivacidade nos movimentos ambientalistas é decorrente da fé depositada na salvação da biodiversidade pela Política Nacional de Meio Ambiente, marionete velha e enferrujada relegada ao canto onde qualquer senhor põe a mão quando interesses empresariais ou eleitorais particulares entram em cena, como é o caso claro do PAC. Reformar a Política Nacional de Meio Ambiente é combater os sintomas de um agente etiológico primordial, o real causador da crise da biodiversidade. É preciso aprofundar-se nos motivos verdadeiros que levam à crise da biodiversidade, bem comum e essencial à sadia qualidade de vida dos povos, e também buscar entender qual o papel histórico desempenhado pelo governo brasileiro na conservação da natureza, pois o nosso tempo e os recursos estão se esgotando e, como a história nos mostra, por meio do governo até hoje não houve salvação e talvez jamais haja.