Réquiem para um tatu-cola
(Allegro, troppo allegro)


Era domingo em Fortaleza, dia das eleições municipais. Enquanto alguns iam obedientemente votar, pensando que iriam escolher o novo prefeito (e que esse prefeito decidiria algo de importante sobre a nossa cidade, a nossa vida, as ruas, bairros, casas) nós, que passáramos a semana inteira indo olhar o tatu-cola (o tatu símbolo da copa do mundo, que é patrocinada pela Coca-cola), nos encontrando para discutir e planejar a ação, rasgamos o boneco.
Éramos entre dez e vinte pessoas. Discutimos sobre o que fazer e o que cada um faria. Demoramos um pouco demais nas discussões, talvez mais do que precisaríamos. Mas aprendemos com a demora também. E se aprendemos, precisamos dela.
Na hora em que o sol estava mais quente, finalmente lá fomos nós. Nos dirigimos, nervosos e excitados, ao tatu, ao lado do Estádio do Castelão (que será sede da copa do mundo em Fortaleza), para destruir o tal boneco.
Cada um fez a sua parte, mais ou menos como combinamos. Alguns dirigiram e esperaram, a postos, ?prá? sair correndo depois que o ?bicho? fosse furado. Outr@s fizeram uma ?distração? no local, para tornar menos arriscada a parte d@s que iriam direto ao boneco. Outr@s ainda ficaram a postos para filmar. @s cinco que havíamos nos proposto a ir diretamente furar o tatu, estávamos com máscaras de super heróis, mais exatamente de Homem Aranha. A idéia inicial era de que fôssemos cada um com uma máscara de um dos Vingadores. Quando fomos comprar as máscaras, a loja que a vendia sem querer revelou a verdade sobre a falsa liberdade dos consumidores: só havia máscaras do Homem Aranha. Tivemos que comprar todas iguais.
Mas sabe, até nisso teve uma coisa legal. Coincidentemente, a máscara que tinha disponível para comprarmos (do Homem Aranha) nos lembrava de uma cena interessante. Acompanhando a bobagem da campanha eleitoral, alguns d@s que fomos furar o tatu tínhamos tido uma idéia: como todos os candidatos se apresentavam como alguém que queria ?cuidar? melhor da cidade, queríamos colocar na internet uma cena do filme em que o Homem Aranha está lutando contra seu inimigo e o vilão diz: ?eu queria ser seu pai?. Nessa hora o Homem Aranha responde ?Eu tenho pai? e mata o vilão! Nossa idéia era fazer uma montagem com os candidatos dizendo que iriam cuidar da cidade e de nós, com a imagem do Aranha respondendo: ?Eu tenho pai?. Podemos cuidar de nós.
Pois... Estávamos ali furando o tatu exatamente para dizer que estávamos fart@s da Coca-cola, da FIFA, das empresas que comandam as nossas vidas e que verdadeiramente comandam os Estados que fazem o trabalho infra-estrutural para a copa. Fart@s de ouví-las dizer que seus lucros ajudarão a cuidar de nós. Fart@s de ouvir que a copa vai gerar empregos, trazer progresso para a cidade e que por isso será bom sediar um empreendimento como aquele.
Cada um de nós estava ali para dizer que não queríamos ficar passivos diante das desocupações de moradores que são necessárias para construir as vias de acesso ao Castelão, os trilhos do metrô e as obras que tornarão a Copa bem-sucedida, isto é, mais lucrativa para as empresas.
Estávamos ali para dizer, furando aquele tatu, que estamos fartos dos horrores cometidos em nosso nome. Estávamos ali, furando aquele tatu, para dizer que não ficaremos passivamente decidindo qual o melhor modo de governar a cidade enquanto os que verdadeiramente governam riem de nós e estampam seu riso nas caras dos tatus.
E enquanto dizíamos esse não, rimos mais e melhor que o tatu. Nosso riso, allegro muito allegro, era humano. Afinal, ele é mesmo só um boneco....
E rindo queremos enfrentar a verdadeira questão: quem governa o mundo são as empresas e o sistema produtor de mercadorias. Elas produzem para ter lucros e mais lucros para elas, gerar valor e mais valor. Queremos acabar com isso. Não só com os símbolos, como o tatu, mas com as próprias empresas.
Queremos destruí-las. No seu lugar queremos construir um novo modo de realizar os nossos desejos e necessidades, decidindo junt@s quais e como. Queremos uma vida nova, em que a vida em comum seja assunto de todos. Queremos destruir os Estados que essas empresas sustentam. Em seu lugar queremos uma forma de poder que seja de tod@s, sem hierarquia, sem mandar nem obedecer, ou dito mais exatamente, queremos mandar obedecendo, dialogando.
Por isso não havia líderes na nossa ação.Não havia nem haverá representantes para falar em nome dela. Não queremos ser professores de ninguém. Queremos com esse relato, antes de tudo, dividir nossa alegria. O prazer que nos deu destruir aquele tatu. Dividir o riso! Mas queremos sobretudo falar com mais gente que, como nós, também cansou da passividade e tem prazer na ação, no diálogo sobre a ação.
Quando nós jogamos tinta vermelha, lançamos zarabatanas com pregos (que nem funcionaram, mas nem por isso deixaram de ser uma tentativa) e quando rasgamos o bicho com um estilete, saímos correndo. Algumas pessoas (moradores e pessoas que passavam pelo local na hora do assassinato do tatu), gritaram: ?Vândalos!!!!!!!?
E a gente corria, adrenalina a mil! Afinal, éramos poucos. Se uma horda em defesa do tatu resolvesse nos linchar, pense numa peia grande! Não importa se a horda seria aquela que é paga para fazer isso ? a polícia ou os seguranças ? ou se os próprios habitantes indignados em defesa do tatu. O fato é que corremos mesmo e foi muito (inclusive porque erramos nos cálculos da distância...). Mas corremos porque éramos poucos! Se fôssemos muitos ficaríamos e enfrentaríamos a peia. Afinal, os quadrinhos nos ensinaram: heróis não fogem, enfrentam os perigos! Como não acreditamos mesmo que uns poucos heróis possam salvar o mundo, queremos mesmo é enfrenta-lo e destruí-lo junto com outr@s, com tantos que pelo mundo todo dia dizem, na Palestina, na Espanha, na Grécia, numa aldeia Guarani-kaiowá que também estão fart@s. Mas ó: se pegassem a gente, a gente ia se garantir!
Pois é, furar um tatu. Parece coisa de gente ?maluca?, de ?desocupados?, de ?simples vândalos?, como gritaram para nós! Coisa de gente ruim, ?matar um bichinho? como disse uma jornalista imbecil (ô pleonasmo....) diante do tatu furado em Brasília! Em Porto alegre, o primeiro tatu furado no Brasil, a peia comeu foi solta, peia da polícia em cima dos ?vingadores? de lá.
Afinal, perguntam as pessoas, não é só um bichinho tão bonitinho? Risonho, inocente e infantil? O tatu é tão bonitinho que até as pessoas de uma ONG que defende a Caatinga estavam lá, abraçando o ?bicho?, numa das vezes em que fomos planejar o ?crime?.
Mas aquelas pessoas, que acreditam ser verdadeiramente empenhadas em defender o tatu bola real, da extinção, abraçavam ali a imagem do inimigo. Aliás, elas abraçavam o inimigo real: uma imagem.
Afinal, se as empresas que patrocinam e lucram com a copa são a base do sistema produtor de mercadorias (que nos obriga a trabalhar para ter as coisas das quais precisamos só porque é necessário vender as coisas que as empresas produzem e vendem), são elas que submetem as nossas vidas e a natureza (também os tatus-bola) à sua necessidade de produzir, vender e lucrar.
Mas o sistema, as empresas que o mantém, não é nada mais que uma imagem, aliás, como aquele boneco horroroso. A ?simples? imagem que a jornalista e os que nos chamaram de vândalos contemplavam era um bichinho bonitinho e simpático. Para nós, na verdade ele era algo mais simples e muito mais complicado também: um monte de borracha (tirada por seringueiros sujeitados ao trabalho assalariado em algum lugar), transformado em um boneco (por outros trabalhadores assalariados, em outro lugar), inflado por uma máquina (produzida pelo trabalho de outros em ainda outro lugar) que na realidade só se tornava um boneco (uma coisa pseudo-viva) se alguém fosse lá e ligasse o motor prá inflar e ele parecer que tinha vida!
Todas essas pessoas se sujeitam às empresas para as quais trabalham. Nós nos sujeitamos, trabalhamos também, porque enfim, é o jeito! Afinal, se não fizermos isso como viveremos na atual ordem das coisas?
Mas assim como o Tatu-cola mostra como uma empresa (a Coca-cola) se apropria do trabalho de dezenas de dezenas de milhares de pessoas para lucrar e isso num simples boneco, o ato de furar um boneco e falar sobre isso, além de nos dar prazer, nos permite procurar dialogar com tant@s outr@s por aí que como nós cansaram de sentir como bonecos infláveis e resolveram não ser a mão que liga a máquina e olha passivamente o resultado do que fez como uma coisa que tem vida própria. Furamos o boneco quebrando a passividade.
O mais importante dessa ação foi como ela nos fez sentir ao praticá-la! Foi bom que só, foi muito prazeroso participar dessa ação. Mas ela não foi perfeita não. Erramos na distância (tivemos que correr mais do que o que achávamos) e uma parte importante da ação deu errado: tivemos problemas com a filmadora. Se tod@s @s que estávamos ali ficamos profundamente felizes depois que terminamos de furá-lo, a verdade é que também ficamos tod@s muito decepcionad@s porque havíamos planejado filmar e não deu certo. Queríamos filmar porque a filmagem seria um modo bem rápido de dizer isso que estou dizendo e que outr@s que lá estiveram dirão de outro modo. Mas não sobrou uma só imagem da ação. Sobraram duas fotos, do Tatu antes e depois de furado.
Mas sabe, depois de vivida a tristeza, tem mesmo uma coisa ruim, que é não poder compartilhar a ação com outr@s que pelo Brasil também furaram ou queriam furar o boneco!
Essa imagem se perdeu como imagem que podemos compartilhar! Ela ficou só nas nossas retinas e memórias... perdemos mesmo a chance de compartilhá-las. Mas a perda da imagem da ação não significa que não podemos compartilhá-la... de modo talvez até menos capturável que a simples imagem....
Esse Réquiem para um tatu em allegro muito allegro é uma tentativa de compartilhar...